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Correio da Manhã

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Irão em fúria corta diálogo com Ocidente

O envolvimento do Conselho de Segurança na crise nuclear do Irão “porá fim aos esforços diplomáticos”. Esta foi a resposta de Ali Larijani, líder dos negociadores iranianos, ao acordo internacional ontem alcançado para remeter àquele organismo da ONU a resolução do diferendo com Teerão.
1 de Fevereiro de 2006 às 00:00
O presidente Ahmadinejad em oração junto ao túmulo de Khomeini
O presidente Ahmadinejad em oração junto ao túmulo de Khomeini FOTO: Stringer/Reuters
A decisão de aumentar a pressão internacional foi tomada após reuniões, em Londres, entre Reino Unido, EUA, Rússia, China, França e Alemanha. O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, afirmou esperar “que envie a mensagem de que a comunidade internacional está unida”. Os EUA alinharam pelo mesmo diapasão ao salientar que o acordo revela “um consenso forte no seio da comunidade internacional”. O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, salientou contudo que é cedo para falar de sanções e considerou a decisão de ontem uma oportunidade para Teerão.
Larijani considerou “negativo” o passo dado pela comunidade internacional e salientou que tinham sido solicitadas “conversações com os europeus, um sinal de que o Irão quer tentar de forma amigável encontrar modos de adquirir tecnologia nuclear para fins pacíficos”.
Outros responsáveis iranianos frisaram que o envolvimento da ONU implica o fim das inspecções da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e o reatar do programa de enriquecimento de urânio. Num relatório revelado ontem pela Reuters a AIEA reconhece que o Irão já deu passos para enriquecer urânio nas instalações de Natanz, encerradas por ordem internacional, impediu inspectores da ONU de interrogar um cientista e recusou facultar cópias de documentos relacionados com o fabrico de armas nucleares.
A decisão de envolver o Conselho de Segurança foi alcançada graças a cedências da Rússia e China, países com intensas relações comerciais com o Irão, mas implicou que os aliados ocidentais renunciassem a deixar já nas mãos da ONU a resolução do caso. De facto, apesar do consenso de Londres, a decisão final passa pela AIEA, que não deverá avançar já na reunião extraordinária de amanhã em Viena. É que, à luz de um acordo firmado com Teerão, só em Março será apresentado um relatório conclusivo sobre o programa nuclear.
NOTAS
IMPACTO NO PETRÓLEO
A transferência do dossiê nuclear iraniano para o Conselho de Segurança terá um “grande efeito” no preço do petróleo, afirmou ontem o ministro líbio da Energia, Farhi Ben Chatouan, à entrada para uma reunião da OPEP na qual os países produtores decidiram manter as quotas de produção em 28 milhões de barris por dia.
AMEAÇA À PAZ
Os EUA e a União Europeia consideram que se o Irão construir mísseis nucleares será uma ameaça à paz mundial. Prova disso, afirma, são os recentes apelos do presidente Mahmoud Ahmadinejad ao extermínio de Israel. Mas alguns consideram que o Irão tem receios legítimos que justificam o desejo de ter poder nuclear: está rodeado de países onde estão estacionados contingentes dos EUA e poderá ser ocupado, tal como o Iraque.
SANÇÕES LEGAIS?
O Ocidente alega que foi obrigado a transferir o caso para o Conselho de Segurança porque Teerão violou o Tratado de Não-Proliferação (TNP) ao ocultar o seu programa nuclear durante anos, mas o Irão afirma não existir base legal para a aplicação de sanções. Vários analistas concordam, uma vez que não existem provas de que o país pretende desenvolver armas.
TRATAMENTO INJUSTO
O Irão afirma que a comunidade internacional tem dois pesos e duas medidas, já que países como Israel, Índia e Paquistão também violaram o TNP para construir armas nucleares e não foram alvo de sanções. Os próprios países ocidentais violaram o TNP ao não desmantelar o seu arsenal nuclear.
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