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Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Jornalistas de Cabo Verde pedem debate após descida no índice de liberdade

Cabo Verde desceu para a 41.ª posição.

03 de maio de 2024 às 14:47

A Associação de Jornalistas de Cabo Verde (Ajoc) defende a realização de um debate sobre a descida "muito preocupante" do país no índice anual de liberdade de imprensa, publicado esta sexta-feira pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

"Entendemos que é uma descida muito preocupante, são oito posições, mas também é um incentivo para, juntos, refletirmos", incluindo jornalistas e o Estado, "num debate desapaixonado sobre o que devemos fazer para reverter estar descida", disse o presidente da Ajoc, Geremias Furtado.

Cabo Verde desceu para a 41.ª posição (33.ª em 2023), piorando a pontuação absoluta. 

Tal como o relatório da RSF, o presidente da Ajoc referiu que a descida se deve a pressões políticas, à composição do órgão independente da radiotelevisão pública, à escolha dos diretores dos órgãos públicos, à autocensura e aos ataques a jornalistas nas redes sociais.

No documento aponta-se ainda uma "cultura de sigilo" e restrição por parte do Estado no acesso a informações de interesse público.

Outras dificuldades estão associadas à insularidade: por um lado, "o tamanho reduzido das ilhas tende a impedir o desenvolvimento de jornalismo investigativo", com jornalistas a evitar "cobrir assuntos que envolvam algum dos seus conhecidos", e, por outro, o mercado publicitário é restrito e trava o crescimento do setor.

"O relatório diz tudo. Agora é parar, pensar e ver o que é que cada um pode fazer para combater estas situações que acabam por minar e prejudicar a liberdade de imprensa em Cabo Verde", acrescentou.

Neste sentido, mostrou-se disponível para uma "conversa franca" com todos os intervenientes com responsabilidades em matéria de liberdade de imprensa no arquipélago.

"Acreditamos que, com liberdade de imprensa plena, a nossa democracia sairá a ganhar e o nosso país também", salientou o jornalista.

O Índice Mundial da Liberdade de Imprensa, publicado anualmente pela organização Repórteres sem Fronteiras, avalia as condições para o exercício de jornalismo em 180 países e territórios, com base num questionário a jornalistas (e outros intervenientes na esfera da liberdade de imprensa) e no levantamento de casos.

A classificação de cada país é baseada em cinco indicadores, que avaliam (de zero a 100) o exercício do jornalismo de acordo com os contextos político, jurídico, económico, sociocultural e de segurança.

Este ano, Cabo Verde regista duas subidas: no contexto de segurança (fixando-se em 92,03 pontos) e a nível legislativo (para 74,7 pontos), os dois pilares mais fortes.

A avaliação desce nos restantes indicadores que medem o ambiente para fazer jornalismo: a nível social (para 73,35 pontos), económico (uma nota de 54,25, a mais baixa) e político (para 69,51 pontos).

De acordo com os escalões de avaliação do índice, os pilares económico e político encontram-se numa "situação problemática".

Ainda assim, em comparação com o panorama na África Ocidental, "o país destaca-se na região por um ambiente de trabalho favorável aos jornalistas".

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