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“Julgava o meu pai já morto”

"Ainda estou em choque. Estou aqui a falar e a ver o sangue, as pessoas a pedirem ajuda." Gilberto Nunes António, de 61 anos, regressou ontem a Portugal com os dois filhos (Galliano, de 21 anos, e Darwin, de 24), ainda mal refeito dos dias de terror passados em Port-au-Prince, onde vivia desde 1983. Pai e filhos estavam separados quando se deu o sismo, terça-feira, e durante dois dias não souberam uns dos outros.
17 de Janeiro de 2010 às 00:30
O pai Gilberto e os filhos, Galliano e Darwin, regressaram a Lisboa com a roupa que tinham no corpo e pouco mais
O pai Gilberto e os filhos, Galliano e Darwin, regressaram a Lisboa com a roupa que tinham no corpo e pouco mais FOTO: Duarte Roriz

'Estava no meu carro no centro da cidade, eram quase cinco da tarde, quando os edifícios começaram todos a cair, algo inimaginável. Consegui sair do carro, não se via a mais de dois metros por causa do pó, as pessoas gritavam, umas louvavam a Deus, uma catástrofe sem igual. Quando cheguei à minha casa, estava toda destruída. Procurei os meus filhos como um louco e, com a ajuda do cônsul português, encontrei-os. Sempre acreditei que não tinham sofrido nada', contou Gilberto, deixando uma imagem terrível: 'Só ao terceiro dia começaram com bulldozers a recolher os corpos, alguns caiam e explodiam.'

Os filhos estão em Portugal pela primeira vez. Galliano falou com os jornalistas em espanhol: 'Estava em casa sozinho quando começou tudo a abanar. Pensei que era um furacão, mas depois percebi que era pior. O tecto caiu-me em cima mas consegui sair. Fiquei dois dias na rua. Já julgava o meu pai morto. Graças a Deus tinha dinheiro no bolso e consegui comprar umas bolachas, foi o que comi nesses dias. No Haiti agora não há ricos e pobres, todos dormem na rua com medo de mais sismos. É um país sem vida', relatou o jovem, explicando que a mãe está separada do pai e que vive no Panamá. Darwin só se conseguiu exprimir em francês: 'Guardo memórias terríveis, terríveis. Estava em casa de uns amigos e caíram-nos dois andares em cima, mas escapámos por um buraco. Tive muito medo. Só encontrei o meu pai na quinta-feira. Voltar ao Haiti? Sim, claro, tenho amigos muito queridos que deixei por lá.'

A pequena família regressou ontem via Madrid num voo da cooperação espanhola. Gilberto perdeu tudo: 'Vinte anos de trabalho e fiquei sem nada.' Conta que tinha uma fundação que doou 250 hectares de terreno para um centro global de desenvolvimento. 'Quero voltar para ajudar aquela gente.'

Para já, pai e filhos vão permanecer em Portimão, no Algarve, em casa de familiares.

PORMENORES

HOSPITAL EVACUADO

A ONU ordenou a evacuação do seu hospital de campanha em Port-au-Prince por receio de saques. No local ficou só o médico Sanjay Gupta, impotente para socorrer 25 feridos do sismo deixados ao seu cuidado.

HILLARY E BAN KI-MOON

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, chegou ontem ao Haiti, onde se inteirará da situação no terreno. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, deverá chegar hoje ao país.

MAIS DE 200 MIL MORTOS

'O cheiro dos cadáveres éimpressionante, tão intenso que a maior parte das pessoas anda de lenço no rosto', contou ao ‘CM’ a jornalista portuguesa Mariana Palavra, numa altura em que, quase cinco dias após o sismo, o cálculo oficial dos mortos foi fixado em pelo menos 200 mil.

SMS ENVIADO DOS ESCOMBROS

'Há 25 pessoas vivas aqui, temos fome e não aguentamos mais o calor.' Esta mensagem de texto chegou ao telemóvel de Jeanne-Charles, uma trabalhadora da Missão Internacional de enfermagem da Boa Samaritana, cujo edifício ruiu no sismo de terça-feira. Jeanne não esquece o apelo , pois o grupo de 25 colegas não foi resgatado a tempo. Ao todo perderam a vida no edifício da Missão 200 pessoas.

RESGATADA VIVA APÓS 80 HORAS

Uma mulher de 58 anos esteve80 horas sob os escombros da sua casa até ser resgatada com vida.Por pura sorte. Uma equipa de socorristas acorreu a um edifício em ruínas, onde ninguém sobreviveu. Uma mulher chamou-os então para outro local vizinho. Desta feita, aconteceu o milagre: resgataram a mulher e ainda mais pessoas, que ela própria indicou estarem também sob os escombros.

'DORMIMOS ONDE PODEMOS'

'Estamos a dormir onde podemos. Temos rações que havia em armazém e cada pessoa come uma por dia.' Foi assim que Mariana Palavra, jornalista portuguesa da ONU no Haiti, descreveu ontem ao CM a situação em que vive, cinco dias volvidos sobre o sismo devastador que arrasou Port-au-Prince. Ainda assim frisa: 'Mas a nossa situação nada tem de dramático comparado com o que nos cerca.'

'Hoje estive num hospital, e quando ia a sair uma das médicas abordou-me e não pediu medicamentos ou material médico, mas sim sacos de plástico', contou Mariana, concluindo: 'Não se pensaria nisto como primeira necessidade num hospital, mas o lixo está por todo lado, havia moscas por todo o lado e era urgente limpar.'

Quanto à demora da ajuda humanitária, a jornalista portuguesa confirmou que 'só ao fim do dia [sexta-feira] começou a distribuição em alguns pontos da cidade, e pelo menos uma teve de ser interrompida por causa da violência'.

A portuguesa recordou a tragédia. Teve a sorte de estar na ala da sede da ONU que ficou de pé. 'Não tinha noção de quanto a terra podia tremer. Talvez por isso não tenha pensado na morte. Mas, quando vi o edifício arrasado e a terra tremeu de novo, tive muito medo.' Agora, só pensa em ficar e ajudar.

NOTAS

VÍTIMAS: CASAL ESPANHOL

O casal de espanhóis María Plaza e Yves Batroni perdeu a vida no sismo. A filha, Sandra, entrou em choque ao ver os pais mortos e foi assistida no aeroporto antes de ser repatriada

AJUDA: PRESIDENTES UNIDOS

O presidente Barack Obama pediu aos antecessores, George W. Bush e Bill Clinton, para coordenarem o apoio dos EUA ao Haiti. Ontem compareceram juntos em conferência de imprensa

AEROPORTO: EUA CONTROLAM

O desarticulado governo do Haiti autorizouos EUA a assumirem o controlo das operações no aeroporto da capital para organizar a chegada dos voos de ajuda humanitária do Mundo

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