Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
5

Kadhafi escondido escapa à rendição

As forças militares do novo poder líbio, o Conselho Nacional de Transição (CNT), ocuparam praticamente sem resistência a praça-forte de Muammar Kadhafi em Tripoli, o complexo de Bab al-Azizyia.
24 de Agosto de 2011 às 00:30
O paradeiro de Kadhafi continua a ser uma incógnita. Pode já não estar em Tripoli
O paradeiro de Kadhafi continua a ser uma incógnita. Pode já não estar em Tripoli FOTO: Louafi Larbi/Reuters

Descobriram paióis cheios de armas, puderam mostrar às equipas de televisão ocidentais bens pessoais do ex-líder do país, mas não conseguiram deitar-lhe a mão. Depois do golpe de propaganda do filho, Saif al-Islam, que apareceu a meio da noite aos jornalistas, apesar de antes ter sido dado como preso pelos rebeldes, o mistério mais completo envolveu a família Kadhafi. E sem o agarrarem, não há maneira de cumprir o pró-forma reclamado por Obama de ele declarar expressamente que abandona o poder.

Todo o dia de ontem foi de euforia dos anti-Kadhafi. Uma coluna de fumo que aparentemente subia entre o casario de Tripoli, longe do complexo residencial fortificado onde vivia o ex-líder, não chegava para inquietar nem criar dúvidas sobre o controlo da capital pelas forças do CNT.

"Fugiram que nem ratos", observou um responsável militar do CNT ao comentar a forma como Bab al-Azizyia foi ocupado sem praticamente qualquer resistência. Ninguém respondeu aos disparos de ataque e, de facto, à entrada dos rebeldes já não havia vivalma na fortificação. Pouco tempo depois, as equipas de televisão puderam iniciar transmissões directas para todo o Mundo da antiga praça-forte de Kadhafi. E os capacetes e coletes antibala ostentados pelos enviados especiais pareciam adereços inúteis no meio de pessoas que circulavam à volta com o ar mais tranquilo deste mundo, como se andassem às compras num shopping.

Certo, entretanto, é que já começou o jogo do gato e do rato para apanhar Muammar Kadhafi, sobre quem não há quaisquer informações do paradeiro. Depois de Saddam Hussein, no Iraque, é fácil imaginar uma nova história de toupeiras, ratos ou quejandos.

Os negócios do petróleo vão, entretanto, avançar rapidamente. As forças do CNT ocuparam também a zona portuária onde se encontram os terminais dos oleodutos. E nas chancelarias multiplicam--se já os contactos com os líderes do CNT para estabelecer novos contratos. Kadhafi já passou à História como o ex-ditador.

TELEFONOU A AMIGO RUSSO

O presidente da Federação Russa de Xadrez, Kirsan Ilyumzhinov, que no mês passado visitou Kadhafi em Tripoli, disse ontem que o líder líbio lhe telefonou a dizer que ainda estava na capital líbia e que tencionava "resistir até ao fim".

'PRISÃO' DE SEIF AFECTA CREDIBILIDADE REBELDE

Sorridente e com ar despreocupado, Saif al-Islam, filho e herdeiro designado de Kadhafi, apareceu de surpresa, ontem de madrugada, no hotel de Tripoli onde estão hospedados os jornalistas estrangeiros, para dizer que a iminente vitória rebelde não passa de uma fantasia. Nada de novo, não fosse o facto de os rebeldes terem anunciado ao mundo, horas antes, a sua captura.

A aparição de Saif al-Islam perante os jornalistas foi, obviamente, um golpe propagandístico cuidadosamente orquestrado com o objectivo de humilhar os rebeldes e minar a sua credibilidade internacional. O filho de Kadhafi fez questão até de levar os jornalistas num curto passeio até ao complexo presidencial de Bab al-Azizyia para mostrar que o regime continuava a controlar as ruas da capital líbia. "Os rebeldes caíram numa armadilha e vamos destruí-los", afirmou Saif, saudado efusivamente por dezenas de apoiantes do regime.

Embaraçada, a liderança rebelde procurava ontem explicações. "Estamos a tentar perceber como é que ele fugiu", referiu um porta-voz do Conselho Nacional de Transição. Outro elemento admitiu que Saif nunca terá estado nas mãos dos rebeldes: "Obviamente, tratou-se de desinformação posta a circular pelo regime para nos descredibilizar", afirmou.

PERFIL

Saif al-Islam, de 39 anos, é o segundo dos nove filhos de Kadhafi e durante anos foi apontado como seu provável sucessor. Educado em Londres, ajudou a recuperar a imagem internacional da Líbia após o atentado de Lockerbie. O TPI acusa-o de ser o principal instigador da repressão nos últimos meses. 

O CENTRO DE PODER DO DITADOR

O complexo de Bab al-Azizyia estende-se por mais de 6 km2 na entrada sul de Tripoli, junto ao aeroporto. Alberga, entre outras estruturas, as residências privadas de Kadhafi e dos filhos, uma importante base militar e a famosa tenda beduína do ditador, e funciona como centro de comando do regime. Dissidentes dizem que no subsolo há dezenas de ‘bunkers' e túneis, alguns com mais de 30 km de extensão e com ligação à zona costeira, que Kadhafi poderá ter usado para escapar. Em 1986, o complexo foi bombardeado pela aviação dos EUA como retaliação por um atentado em Berlim. No ataque, morreu uma filha adoptiva de Kadhafi, recordada num monumento que mostra uma mão gigante a esmagar um avião.

KADHAFI LÍBIA REBELDES TROPAS
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)