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Líder islâmico defende "vigilância apertada" à proliferação de mesquitas em Moçambique

Muhammad avançou que o escrutínio aos locais de culto é importante para evitar o aproveitamento do Islão por "gente estranha" que promove uma "má doutrinação de jovens".
Lusa 16 de Abril de 2021 às 09:28
Povo em Moçambique
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O presidente do Conselho Islâmico de Moçambique (CISLAMO) defendeu hoje "uma vigilância apertada à proliferação de mesquitas" e associações islâmicas criadas sem o conhecimento das autoridades, alertando para a "infiltração" de pregadores que espalham o radicalismo.

"Não é de hoje o alerta para uma vigilância apertada à proliferação de mesquitas que não são conhecidas pelo Governo nem por nenhuma associação islâmica em Moçambique", afirmou Aminudin Muhammad, em entrevista à Lusa.

Muhammad avançou que o escrutínio aos locais de culto é importante para evitar o aproveitamento do Islão por "gente estranha" que promove uma "má doutrinação de jovens", como está a acontecer na província de Cabo Delgado, norte do país, onde os "autores da violência usam o Islão para lançar o caos".

Aquele responsável religioso defendeu que só podem ser autorizadas a praticar cultos, as mesquitas que se comprometem com os princípios e os valores do Islão e as leis do país.

"Quando não se presta atenção ao que se passa nessas mesquitas novas criadas fora do controlo [das autoridades], é fácil infiltrar-se gente estranha e de fora do país com ideias negativas de vida em sociedade", acrescentou.

O controlo, prosseguiu, deve ser exercido sobre qualquer fé religiosa, porque "o perigo pode vir de qualquer lado, quando a religião é deturpada".

Aminudin Muhammad rejeitou a ligação entre o Islão e a violência armada em Cabo Delgado, apontando o interesse pela delapidação de recursos naturais como provável razão da ação de grupos armados na região.

"A maioria das vítimas da guerra em Cabo Delgado é muçulmana e há muitas mesquitas destruídas. Aquilo não tem nada a ver com o Islão", acrescentou aquele responsável religioso.

O presidente do CISLAMO apontou a coincidência entre o início da violência armada em Cabo Delgado com a presença de multinacionais de gás natural na região, para dar substância à ideia de que o interesse em recursos está por detrás do conflito.

"Não tínhamos instabilidade em Cabo Delgado antes do início dos projetos de gás natural, mas agora que estão lá as multinacionais a situação piorou", afirmou Aminudin Muhammad.

Muhammad notou que os promotores da violência armada no norte do país desprezam os princípios e valores do Islão, chegando a entrar calçados nas mesquitas, o que viola os princípios básicos da religião, além de "pronunciarem mal as palavras e frases tipicamente ligadas ao Islão".

"O Islão tem séculos em Moçambique e nunca foi causa de violência. O Islão em Moçambique sempre promoveu a concórdia com outras religiões", sustentou.

O presidente do CISLAMO afastou ainda suspeitas de que estudantes moçambicanos de escolas corânicas estejam envolvidos na radicalização de jovens no norte de Moçambique, assegurando que "nenhum dos jovens que estudou em madraças [escolas corânicas] em Moçambique e no estrangeiro está metido com gente estranha que patrocina a violência".

"Temos o registo de estudantes formados em madraças dentro e fora do país e podemos garantir que nenhum se desviou do caminho do bem e da verdade", enfatizou Aminudin Muhammad.

O presidente do CISLAMO reiterou que as entidades islâmicas moçambicanas alertaram as autoridades sobre a presença de fiéis com "um comportamento estranho" nas mesquitas antes do início da violência, em 2017, mas esses avisos "foram ignorados ".

Além de presidente do CISLAMO e conselheiro do Estado, Aminudin Muhammad é um dos estudiosos de alcorão mais conhecidos em Moçambique, assinando colunas em jornais em que faz a interpretação de preceitos do livro sagrado do Islão e contando com presença em programas de rádio e televisão que discutem o tema.

A violência armada em Cabo Delgado começou há mais de três anos, mas ganhou uma nova escalada há mais de duas semanas, quando grupos armados atacaram pela primeira vez a vila de Palma, que está a cerca de seis quilómetros dos multimilionários projetos de gás natural.

Os ataques provocaram dezenas de mortos e obrigaram à fuga de milhares de residentes de Palma, agravando uma crise humanitária em que já morreram mais de 2.500 pessoas e 700 mil pessoas estão deslocadas desde o início do conflito.

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