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Lindsay Clancy matou os três filhos e arrisca prisão perpétua ou internamento psiquiátrico nos EUA

Defesa alega que mulher sofre de doença mental pós-parto e ouviu uma voz que lhe dizia para matar as crianças.

26 de agosto de 2026 às 15:37

Lindsay Clancy está a ser julgada por ter matado os três filhos em janeiro de 2023, em Massachusetts nos EUA. Esta semana, o tribunal vai decidir se a mulher norte-americana é culpada de assassinar as crianças ou se sofre de psicose pós-parto e, por isso, não será criminalmente responsabilizada. 

Na noite de 24 de janeiro de 2023, o marido (à época) Patrick Clancy deixou a casa em Duxbury, Massachussets, para ir buscar jantar para Lindsay e as três crianças, segundo o jornal The New York Times. Quando voltou, cerca de uma hora mais tarde, a casa estava em silêncio e a porta do quarto trancada.

Pouco tempo depois, Patrick encontrou Lindsay no quintal, quase inconsciente. A mulher tinha cortado ambos os pulsos e o pescoço antes de saltar da janela do segundo andar. Quando os paramédicos chegaram, Patrick encontrou os três filhos - Cora com 5 anos, Dawson com 3 e Callan com 8 meses de idade - na cave, onde tinham sido estrangulados com faixas elásticas para fazer exercício físico. A morte de Cora e Dawson foi declarada no local. Callan morreu dias mais tarde.

Lindsay Clancy, antiga enfermeira parteira, sobreviveu, mas ficou paraplégica A mulher declara ser inocente em relação às três acusações de homicídio e os advogados de defesa argumentam que Lindsay sofria de uma doença mental pós-parto.

Psicose pós-parto

Sheila Cavanaugh, a capelã do hospital onde Lindsay esteve internada após a morte das crianças, disse que a arguida lhe falou numa voz masculina que ouvia de vez em quando e lhe dizia para matar as crianças. "Estou tão feliz que os meus filhos estejam seguros", disse Clancy à capelã.

"A voz, de acordo com Lindsay, disse-lhe que se ela não seguisse a ordem, nem ela nem as crianças estariam a salvo", testemunhou Cavanaugh.

Paul Zeizel, o psicólogo forense que reuniu com Clancy várias vezes e está a par dos relatórios médicos da mulher, reforçou as alegações de Cavanaugh. Segundo Zeizel, Clancy disse numa chamada telefónica com Patrick que "ouviu uma voz masculina a dar-lhe ordens, dizendo que ela não tinha escolha, mas que tinha de matar as crianças e matar-se a seguir".

Zeizel realçou que Clancy foi "incapaz de adaptar o seu comportamento à lei", afirmando que  a mulher não tinha consciência de que o ato era errado. O especialista notou ainda que o teste psicológico administrado por um médico do governo não comprova que Lindsay tenha falsificado ou exagerado sintomas psicológicos.

Um dos especialistas que testemunhou a pedido da acusação, Kirk Heilbrun, diagnosticou Clancy com distúrbio bipolar. No entanto, explicou que, embora acredite que a condição tenha provocado "pensamentos intrusivos", não eram alucinações audíveis. Heilbrun realçou que ouvir vozes "oferece uma forma conveniente de diminuir a própria culpa".

Casal lutava para combater doença mental de Lindsay

Patrick disse em tribunal que o estado mental de Lindsay tinha vindo a preocupar o casal desde o final de 2022, dado que a mulher sofria de ansiedade, insónias e pensamentos intrusivos que envolviam as crianças.

A mãe das três crianças sofreu de ansiedade após o nascimento de Cora, Dawson e Callan, mas após o terceiro parto os sintomas intensificaram-se. A mulher procurou ajuda psiquiátrica e foi-lhe receitada mais de uma dezena de medicamentos. Mas Patrick acredita que os médicos falharam em monitorizar as reações de Lindsay aos medicamentos e não prestaram atenção à condição psiquiátrica da mulher que se vinha a deteriorar.

Lindsay chegou a desabafar com o marido, pois tinha medo de magoar as crianças ou que algo de mal lhes pudesse acontecer.

Um investigador da polícia descreveu em tribunal o histórico de pesquisas encontrado no telemóvel de Lindsay: informação sobre esquizofrenia, alucinações e psicose e até mesmo a questão "é possível tratar um sociopata?".

Apesar de o casal de ter divorciado após a morte das crianças, Patrick veio defender publicamente a ex-mulher, pedindo empatia às pessoas. "A minha família foi a melhor coisa que me aconteceu", disse o homem no final de janeiro de 2023. Patrick escreveu que a mulher não estava a ser bem retratada por "pessoas que nunca souberam quem era a verdadeira Lindsay". "Quero pedir-vos a todos que perdoem a Lindsay tal como eu fiz", acrescentou.

"Ela precisava de ajuda"

Devido à atenção que o julgamento tem vindo a receber online, o tema despertou um movimento sobre saúde obstétrica e materna nos EUA. Na semana passada, várias mulheres juntaram-se à porta do tribunal para demonstrar apoio a Clancy, vestindo camisolas cor-de-rosa com frases como "Ela precisava de ajuda".

"As mulheres estão a ser ignoradas, negligenciadas e ignoradas quando falamos", disse April Vincent, uma das mulheres no local. O movimento pretende consciencializar a população sobre a importância de prestar apoio às mães após o parto.

Cronologia dos movimentos de Patrick no dia do crime

24 de janeiro de 2023

17h00

Patrick vai às compras

Patrick embala o filho mais novo durante um minuto, vê o filho mais velho a comer no sofá e dá um beijo na cabeça da filha. Sai de casa para comprar medicamentos e o jantar que tinha sido encomendado por Lindsay.

Envia um email

O pai da família demora três minutos de carro até à farmácia. Enviou um email à porta da farmácia e entrou.

Chamada para Lindsay

Já na farmácia, Patrick ligou a Lindsay mas ela não atendeu. A mãe retornou a chamada cerca de um minuto depois e os dois conversaram sobre a compra da versão genérica do medicamento solicitado. As imagens de videovigilância confirmam esta versão contada por Patrick.

17h54

Recolher o jantar

Patrick conduziu cerca de 10 minutos até ao restaurante onde o jantar tinha sido encomendado pela mulher. As imagens de videovigilância mostram-no a entrar no estabelecimento e a permanecer lá por dois minutos.

18h05

Chegou a casa

Patrick liga para o 112

Patrick encontra Lindsay no exterior, deitada de costas e a sangrar. Pergunta-lhe pelas crianças e liga para o 112. A mulher, que se tentou matar cortando os pulsos e o pescoço e atirando-se do segundo andar, diz que as crianças estão na cave. 

Encontra os filhos mortos

Patrick vai à cave e encontra os filhos. Os polícias contam que ouviram gritos de dentro de casa e que correram para auxiliar Patrick. O homem gritava: "Ela matou as crianças, porra!"

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