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Lobo com pele de cordeiro

Se as reformas não forem encetadas em benefício da religião, da justiça e da moralidade, não são verdadeiras reformas”. Estas são palavras proferidas recentemente por Ali Larijani, negociador dos assuntos de segurança do Irão, e marcam um acentuado contraste com a imagem de moderado que tem granjeado na arena internacional durante o diferendo em torno do programa nuclear do Irão.
28 de Abril de 2007 às 00:00
Lobo com pele de cordeiro
Lobo com pele de cordeiro
Não, há, no entanto, nada de novo na atitude e convicções do diplomata, que tem sido um dos homens mais próximos do líder espiritual da República Islâmica, ayatollah ali Khamenei. A sua agenda ortodoxa foi, aliás, sublinhada em 2005, aquando da nomeação para secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do governo do recém-eleito presidente Mahmoud Ahmadinejad. Comentando as políticas do seu antecessor, Hassan Rowhani, Larijani considerou que “trocou uma pérola por um doce” ao aceitar suspender por dois anos o programa de enriquecimento de urânio a troco de uma simples promessa de oferta de incentivos políticos, técnicos e económicos.
Esta situação, este erro estratégico, foi rapidamente revisto. Sob a sua supervisão, o programa nuclear foi reatado e, como repetidamente tem sublinhado, dificilmente será suspenso. Esta semana reiterou a ideia ao afirmar que, “se o enriquecimento de urânio fosse suspenso, não haveria nada a negociar”.
Filho do ayatollah Hashem Amoli, Larijani está ligado por laços familiares a alguns dos movimentos mais conservadores do Irão. Sadegh Larijani, seu tio, é, por exemplo, membro do Conselho de Guardiães, organismo encarregue de velar pela conformidade dos actos políticos e legais do país com os princípios islâmicos.
Nas presidenciais de 2005, Larijani candidatou-se e era o mais destacado representante da aliança dos conservadores. Foi mesmo anunciado como o preferido do Conselho para a Coordenação das Forças da Revolução, integrado por partidos e organizações conservadores muito influentes no regime.
Um primeiro teste prático às suas convicções foi passado com distinção quando, entre 1994 e 2004, Larijani presidiu ao IRIB, organismo de supervisão da TV e Rádio estatais. O seu zelo no controlo de conteúdos foi a tal extremo que chegou a merecer críticas de líderes religiosos. Em 2003, um ano antes de cessar funções, a promoção da difusão de conteúdos islâmicos nos meios de Comunicação Social ficou espelhada na criação de duas cadeias de TV em árabe, a al-Alam e a Sahar, e de uma Rádio com emissões de 24 horas diárias. O Iraque foi um dos países onde estas cadeias tiveram mais sucesso.
Os que ainda pudessem associá-lo com uma certa linha reformista, em tempos representada pelo presidente Mohammed Khatami (entre 1997 e 2005 encarnou, e defraudou, as esperanças de abertura do regime) tiveram esta semana oportunidade de ‘tirar teimas’. “Não se pode fazer reformas quando há pessoas com fome”, afirmou, em ataque directo aos reformistas. “Cerca de 75% das exigências de reforma dos iranianos são económicas e apenas 5% são culturais e políticas”.
Apesar de tudo, para os negociadores internacionais, tanto da ONU como da União Europeia (os norte-americanos são, por tradição e conveniência estratégica, mais cépticos), Larijani tem representado, nas negociações do nuclear, uma voz aberta e pragmática, menos dada aos excessos retóricos do presidente Ahmadinejad. Ainda que, só por causa disso, Larijani pareça mais flexível. Mas o problema pode ser esse: pode tratar-se de uma capa diplomática destinada a ludibriar e dividir a comunidade internacional, a fim de retardar decisões que ameacem os interesses estratégicos do Irão. Washington parece favorecer esta leitura, mas os mais optimistas lêem outros sinais. Quando, em Fevereiro, Larijani foi substituído, numa visita a Moscovo, por Ali Akbar Velayati, conselheiro de Khamenei, o facto foi considerado sinal de insatisfação do líder espiritual. “Isso pode querer dizer que deseja começar de novo mediante a remoção de Larijani”, afirmou ao ‘Financial Times’ fonte anónima próxima do regime iraniano. A questão permanece, pois: será Larijani lobo, cordeiro ou ambos?
UMA DINASTIA DE CLÉRIGOS
Ali Ardashir Larijani nasceu em 1958 numa família tradicional iraniana. Filho do ayatollah Hashem Amoli, irmão de Sadegh Larijani (membro destacado do Conselho de Guardiães), reforçou os laços com o islamismo mais conservador depois de casar com a filha de ayatollah Morteza Motahhari, um dos homens que mais influenciou a ideologia da República Islâmica, inspirado pelo ayatollah Khomeini, seu mestre e mentor.
VOLTADO A OCIDENTE
A grande aceitação de que goza Ali Larijani nos meios diplomáticos ocidentais pode ter várias origens, mas a ela não será, por certo, completamente alheio o facto de ser um profundo conhecedor do pensamento ocidental. Bacharel em Matemática e Ciência Informática, doutorou-se em Filosofia Ocidental na Universidade de Teerão. O tema continuou a interessá-lo, levando-o a publicar vários livros sobre Immanuel Kant, expoente máximo da filosofia do Iluminismo alemão.
Embora sem o fazer notar, Larijani usa com frequência, no trabalho diplomático, os recursos argumentativos apurados com o estudo dos mestres ocidentais.
"A BOMBA ATÓMICA JÁ NÃO É IMPORTANTE"
O Irão não quer e não precisa de uma arma nuclear. Quem o afirma é o homem que tem negociado o processo do programa nuclear do Irão. Ali Larijani não tem dúvidas. Em entrevista, em 2006, ao semanário egípcio ‘Al-Ahram’, afirmou: “A noção de dissuasão tinha aplicação durante a Guerra Fria. Agora entrámos noutra era, com novas características. [...] A bomba atómica já não é importante ou eficaz”.
Para além do mais, assegura ainda, a posse de armas nucleares foi considerada ‘haram’ (proibida) pelo líder da revolução islâmica, ayatollah Khomeini. Por tudo isto, assegura, não há razões de preocupação com uma ameaça iraniana. A explicação para o diferendo nuclear tem, em sua opinião, motivações bem diferentes. “O que [os EUA] querem é criar, dentro de 20 anos, uma OPEP do nuclear, querem que todos os países sejam seus escravos”.
No entanto, isso não acontecerá, garante, pois, “ao contrário do que pensam os americanos, o sistema unipolar acabou”.
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