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Correio da Manhã

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LULA GARANTE QUE VENCERÁ OS DESAFIOS

Nove meses após assumir a presidência do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva mantém o discurso inflamado garantindo ter força, coragem e meios para vencer os gigantescos desafios assumidos. Mas os sessenta milhões de brasileiros que levaram o ex-torneiro mecânico ao poder acreditando numa mudança radical nas suas vidas estão a perder a esperança.
7 de Setembro de 2003 às 00:00
Adiamento das reformas prometidas por Lula desespera os brasileiros
Adiamento das reformas prometidas por Lula desespera os brasileiros FOTO: Vanderlei Almeida/Lusa
O ano de 2003 - vários ministros de Lula já o disseram - está perdido. Foi apenas o ano de 'arrumar a casa', definem.
Explicação que convence cada vez menos o país real, ou seja, as pessoas, que passaram nove meses a ouvir promessas do que Lula chamou "um extraordinário espectáculo de crescimento" mas sofreram na própria pele os efeitos dos adiamentos desse sonhado 'show'.
Para a multidão de trabalhadores anónimos, a realidade é um drama. Lula prometeu criar nos quatro anos do seu governo dez milhões de novos empregos, mas o que se viu nestes nove meses foi o surgimento de mais 700 mil desempregados. Prometeu baixar radicalmente os juros, para impulsionar um crescimento vertiginoso da economia mas, surpreendendo até os mais conservadores, aumentou brutalmente essas taxas, na tentativa de controlar a inflacção, que no início do seu governo tinha voltado a subir e só agora parece sob controlo.
FRACASSO DO 'FOME ZERO'
São Paulo, a maior e mais rica cidade do Brasil e termómetro para todo o país, é um claro exemplo da gravidade da situação. Segundo dados da Secretaria de Acompanhamento Económico, o salário médio pago em São Paulo em Junho foi, proporcionalmente, o menor dos últimos 18 anos. Em Agosto, a taxa de desempregados na região era de 20,3%, o que corresponde a quase dois milhões de pessoas sem trabalho.
Mas o mais ambicioso projecto e promessa eleitoral de Lula durante a campanha, o combate à fome, foi o seu maior fracasso. Perdido em desconhecimento da realidade no terreno e no meio de uma luta entre ministros para ver quem aparecia como o herói do combate à pobreza, até Junho o programa 'Fome Zero' tinha gasto apenas seis por cento do inicialmente previsto e recebia reclamações de todos os lados.
O objectivo de garantir uma cesta básica a pelo menos três milhões e meio de famílias carenciadas até final deste ano está muito longe de acontecer e dificilmente será atingido.
Contra os números negativos e as críticas, Lula tem reafirmado que tudo vai passar em muito menos tempo do que as pessoas imaginam e, de adiamento em adiamento, agora a promessa é de que em 2004, aí sim, finalmente o crescimento do país vai ser uma realidade. Segundo dados divulgados no passado dia 28, o FMI estimou a sua previsão de crescimento do PIB brasileiro para o próximo ano em 3,5%, longe dos 5% que o governo garante ser possível atingir.
O problema é que as verbas adicionais destinadas a essas áreas ainda estão dependentes da aprovação da reforma tributária, já aprovada na Câmara dos Deputados, mas, que ainda vai ter que passar no Senado, de aumento de arrecadação decorrente da criação e alteração de impostos, também ainda em discussão, e de medidas governamentais já decididas na sua génese, mas, ainda não especificadas e regulamentadas.
Qualquer atraso nas votações ou revés nos apoios e lá se vão as verbas que permitiriam melhorar a vida de pelo menos parte dos mais desfavorecidos.
AS VITÓRIAS DO PRESIDENTE
SEGURANÇA SOCIAL
Lula conseguiu uma verdadeira proeza: aprovou a reforma previdenciária em três meses, apesar do boicote de 56 deputados da coligação aliada, 11 dos quais do seu próprio partido. E aí Lula mostrou grande capacidade negocial, compensando os votos dos rebeldes com os de dezenas
de deputados da oposição.
REFORMA TRIBUTÁRIA
Na reforma tributária, quase todos os governantes de estados e municípios foram contra. Mas Lula conseguiu nova vitória aprovando a matéria em primeira votação: arregimentou 70 dos 77 deputados do segundo maior grupo parlamentar o PMDB, com a promessa de cargos na remodelação governamental de final do ano.
CONTROLO DA INFLAÇÃO
Foi de todas a maior vitória de Lula até agora. No ano passado, os preços dispararam e a inflacção chegou de 25% a 32%. Impondo ao país um brutal aumento de juros, Lula dominou a inflacção que, em termos médios, deve ser de pouco mais que 7% em 2003. Agora, o próprio governo surpreende, ao reduzir mensalmente mais que o esperado, as taxas de juro.
NOVAS POLÍTICAS
AMIGOS 'VIRAM' OPOSITORES
Dificilmente alguém imaginaria isso no dia da eleição, mas hoje o facto é gritante: os maiores problemas e as críticas mais ásperas ao governo Lula têm partido não dos que o temiam e não votaram nele, mas dos aliados, do vice-presidente da República a alguns dos nomes históricos mais importantes do seu próprio partido.
Sindicatos, movimentos sociais como os 'Sem Terra' e os 'Sem Tecto' e uma multidão de desfavorecidos que tiveram em Lula nas últimas décadas a sua mais sonante voz e votaram nele maciçamente, acreditavam que, com o ídolo e companheiro no poder, todos os problemas se resolveriam num ápice. Só que Lula, que sempre se caracterizou pelo radicalismo, ao assumir o poder adoptou uma postura extremamente moderada, percebendo que boa parte das promessas feitas na campanha, afinal, não são realizáveis, pelo menos a curto prazo, optando por trocar o ideal pelo possível.
'CONQUISTAR' A AMÉRICA LATINA
Assim que confirmou a vitória nas urnas, Lula iniciou imediatamente a caminhada rumo a um sonho ainda maior que ser presidente do Brasil: ser o novo líder da América Latina. Visitou vários países vizinhos e, em oito meses de governo, ele, que tanto criticava as viagens de Fernando Henrique Cardoso, já fez um périplo nada modesto. Na trajectória para ser o novo caudilho sul-americano tem tentado agradar tanto a governos quanto a opositores nos países que visita, adoptando uma postura de negociador. Na Venezuela, por exemplo, mostrou solidariedade ao presidente Hugo Chávez defendendo a legitimidade do governo, mas tornou-se, paralelamente, ídolo da oposição ao defender a realização de um referendo.
NOVO EMBAIXADOR EM LISBOA
O novo embaixador brasileiro em Lisboa, António Paes de Andrade, apresentou credenciais ao Presidente da República, Jorge Sampaio, em cerimónia realizada na passada sexta-feira no Palácio de Belém.
"A conversa com o Presidente Sampaio foi muito aberta e nós colocámos o desejo, que é comum, de alargar os investimentos entre os dois países", afirmou o embaixador, presidente de honra do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, da base governamental). "O presidente Lula deseja e está a fazer um grande esforço para fortalecer as relações com a Mercosul e com África, para assim podermos entrar pela porta que se encontra aberta na União Europeia, que é Portugal", declarou ainda.
Advogado e professor, Paes de Andrade, de 76 anos, nasceu no Ceará, onde exerceu o mandato de deputado estadual. Foi eleito deputado federal por sete mandatos e foi um dos fundadores do PMDB. Na qualidade de presidente da Câmara dos Deputados, exerceu em várias ocasiões a presidência da República brasileira no ano de 1989, quando José Sarney se ausentava do país. Com várias obras editadas, versando temas como a reforma agrária, a violência, a independência do Brasil e a vida legislativa, Paes de Andrade substitui no cargo José Gregori.
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