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Correio da Manhã

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Marinha preparada para intervir na Guiné

A Marinha portuguesa está preparada para intervir na Guiné-Bissau caso seja necessária a evacuação de cidadãos portugueses que residem no país.
3 de Maio de 2005 às 00:00
Uma fragata e uma corveta da Marinha portuguesa estão na Madeira no quadro de um exercício militar intitulado ‘Prontex 2005’ e poderão eventualmente partir para Guiné-Bissau no caso de a situação se agravar naquele país, apurou o CM. A estes meios navais poderão juntar-se outros, de acordo com o cenário desenhado para o exercício. Recorde-se que na crise de 1998, Portugal enfrentou grandes dificuldades na retirada de civis daquele país
Segundo a Marinha, estes meios navais deslocaram-se à Madeira para testar a sua capacidade de resposta a cenários de crise humanitária, mas fontes contactadas pelo CM garantiram que os militares portugueses que integram o exercício estão preparados para evacuar civis da Guiné-Bissau. Aliás, segundo soube o nosso jornal, alguns militares já avisaram mesmo a família da sua partida para Bissau.
Para além dos elementos das guarnições dos navios, seguiram a bordo da fragata e da corveta equipas de reforço com fuzileiros e mergulhadores. De acordo com a Marinha, os meios navais vão permanecer no arquipélago da Madeira até meados deste mês.
Carneiro Jacinto, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, desmentiu, no entanto, que esteja equacionada a deslocação de meios navais para a Guiné-Bissau.
A tensão em Bissau pode agravar-se caso as candidaturas dos ex-presidentes da República João Bernardo ‘Nino’ Vieira e Kumba Ialá sejam recusadas pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ) do país.
Até sexta-feira, o STJ deve anunciar quais os candidatos que podem concorrer às eleições presidenciais de 19 de Junho próximo. Recorde-se que Kumba Ialá afirmou recentemente que iria reassumir o poder, se necessário pela força, se a sua candidatura for recusada.
Quanto a ‘Nino’ Vieira, o primeiro-ministro guineense, Carlos Gomes Júnior, afirmou que “ele tem de responder pelo que fez quando foi deposto na sequência do conflito militar de 1998/99”.
O constitucionalista guineense Carlos Vamain, um dos autores da Carta de Transição, defendeu que ‘Nino’ e Kumba “estão impossibilitados, constitucionalmente, de concorrer às presidenciais, atendendo as cartas de renúncia assinadas por ambos.
POPULAÇÃO FOGE PARA O INTERIOR DO PAÍS
Algumas famílias guineenses aproveitaram o fim-de-semana prolongado – segunda-feira foi feriado – para abandonar a cidade de Bissau para o Interior devido ao clima de tensão que se faz sentir na capital, onde deverá ser anunciado, até sexta-feira, a confirmação, ou não, dos 21 candidatos às eleições presidenciais de 19 de Junho próximo, segundo fontes do nosso jornal em Bissau.
Por outro lado, de acordo com as mesmas fontes, “houve algumas outras famílias que optaram por fazer compras de géneros alimentícios de primeira necessidade para abastecer a casa”. Em causa estão as ameaças de distúrbios que podem ocorrer caso as candidaturas dos ex-presidentes da República João Bernardo ‘Nino’ Vieira e Kumba Ialá sejam recusadas pelo Supremo Tribunal de Justiça.
O primeiro-ministro guineense, em declarações proferidas ontem aos jornalistas em Bissau, admitiu o êxodo da população de Bissau para o Interior. Carlos Gomes Júnior disse que “tendo em conta o que aconteceu a 7 de Junho de 1998, o conflito militar de onze meses que culminou com o fim do regime do então presidente ‘Nino’ Vieira, é normal que as pessoas se sintam apreensivas”. “Mas eu penso que chegou o tempo de o próprio povo guineense, bem como os seus responsáveis políticos, tirarem ilações das consequências nefastas que estas situações de guerra trouxeram para o país”, advertiu. “Enquanto chefe do governo estarei no meu posto e convido todos os cidadãos a manterem-se firmes e coesos para mostrar que têm confiança neste governo e no próprio país”, concluiu.
DESENVOLVIMENTOS
CHISSANO PACIFICA
O enviado especial do secretário-geral da ONU para a Guiné--Bissau, o ex-presidente moçambicano Joaquim Chissano, chegou esta madrugada a Bissau para se inteirar da situação político-militar no país. Chissano vai estar uma semana em Bissau e tem previstas reuniões com as autoridades civil e militares. Por confirmar está a chegada a Bissau do actual presidente em exercício da União Africana, o chefe de Estado nigeriano Olusegun Obasanjo.
ONU PREOCUPADA
O representante residente do secretário-geral da ONU na Guiné-Bissau, o também moçambicano João Bernardo Honwana, coronel na reserva, tem dado conta a Kofi Annan, em sucessivas ocasiões, do aumento da tensão política e militar no país. Honwana lidera o Gabinete das Nações Unidas para a Consolidação da Paz na Guiné-Bissau, tendo chegado ao país em finais de Setembro de 2004, nas vésperas da insubordinação militar de 6 de Outubro do mesmo ano em que foi morto o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Veríssimo Correia Seabra e o general Domingos Barros.
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