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"Se o Governo não tem capacidade, o crime resolve": Milicianos impõem recolher obrigatório em favelas do Brasil

"Quem for visto na rua após este horário vai aprender a respeitar o próximo", foi a mensagem enviada àquela população.
Lusa 23 de Março de 2020 às 19:37
Favela no Rio de Janeiro
Favelas sem recursos básicos para enfrentar coronavírus
Favelas sem recursos básicos para enfrentar coronavírus
Favela no Rio de Janeiro
Favelas sem recursos básicos para enfrentar coronavírus
Favelas sem recursos básicos para enfrentar coronavírus
Favela no Rio de Janeiro
Favelas sem recursos básicos para enfrentar coronavírus
Favelas sem recursos básicos para enfrentar coronavírus

Milicianos e traficantes do estado brasileiro do Rio de Janeiro impuseram um toque de recolher obrigatório às comunidades de favelas daquela região de forma a travar a disseminação do novo coronavírus, segundo o portal de notícias G1.

De acordo com moradores das favelas de Muzema, Rio das Pedras e Tijuquinha, localizadas na zona oeste do Rio de Janeiro, as mensagens foram enviadas pelas redes sociais, e indicam à população que não saia de casa depois das 20:00 (hora local, 23:00 em Lisboa).

"Atenção todos os moradores de Rio das Pedras, Muzema e Tijuquinha! Toque de recolher a partir de hoje 20:00. Quem for visto na rua após este horário vai aprender a respeitar o próximo!", diz a mensagem divulgada pelo G1.

"Queremos o melhor para população. Se o Governo não tem capacidade de dar um jeito, o crime organizado resolve", indica uma outra mensagem.

Até ao último domingo, o Rio de Janeiro tinha 186 casos de coronavírus, dos 1.546 registados em todo o Brasil, sendo o segundo estado mais atingido, atrás de São Paulo.

A covid-19 já chegou também às favelas, com a comunidade da Cidade de Deus, também na zona oeste do Rio de Janeiro, a registar no último fim de semana o seu primeiro caso positivo, situação que preocupa moradores e especialistas, devido à falta de recursos básicos para enfrentar a pandemia.

"A chegada do vírus nas favelas deveria ser alvo de um planeamento estruturado por parte da prefeitura e dos governos estadual e federal porque, se tudo nos falta, a tendência é que isto se alastre de forma a que o controlo, que as entidades governamentais estão a tentar manter, seja perdido", afirmou à agência Lusa Jota Marques, morador da Cidade de Deus.

A falta de água canalizada está entre os problemas enumerados, o que inviabiliza os mínimos da higiene básica, como uma eficaz lavagem de mãos.

"O nosso grande temor, pensando nas periferias do Brasil, é a falta de saneamento básico, que vai prejudicar não apenas a prática de prevenção, mas também prejudicar na hora de diminuir o contágio. Por exemplo, aqui, na região da Cidade de Deus, não há água canalizada. Como é que os moradores não infetados poderão fazer a sua higiene pessoal, e como é que os infetados se vão cuidar neste processo?", questionou Jota Marques.

Apesar do isolamento domiciliar ter sido recomendado como medida preventiva contra o novo coronavírus, Jota Marques, que é também conselheiro tutelar daquela região, assegura que tal é impossível para a maioria dos moradores de favelas, que vivem em "barracos" de reduzidas dimensões.

"Impossível ficarem em isolamento. Estamos a falar de regiões onde as pessoas vivem em barracos, onde não tem como se isolar. Estamos a falar de um barraco onde, num só espaço, está a cozinha, a sala de estar e o quarto. Quase ninguém mora sozinho. Há, no mínimo, dois a três membros em cada família, a conviver num espaço que é do tamanho de um quarto de uma casa normal", descreveu Marques à Lusa.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 345 mil pessoas em todo o mundo, das quais mais de 15.100 morreram.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

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