Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
5

MILÍCIAS REFORÇAM DEFESAS

Os milicianos fiéis ao radical xiita Moqtada al-Sadr não vão abandonar a mesquita do imã Ali, em Najaf, onde estão entrincheirados há mais de duas semanas. Prova disso é o facto de ontem terem erguido barricadas à entrada do templo, desta forma reagindo ao apertar do cerco dos tanques e tropas dos EUA.
24 de Agosto de 2004 às 00:00
Ontem foram ouvidas pelo menos 15 explosões junto ao recinto do templo, que ficou envolvido por grossas colunas de fumo e, segundo alguns, foi mesmo seriamente atingido durante os raides nocturnos.
Sinal claro do avanço progressivo dos americanos, os disparos de metralhadora eram ontem efectuados a escassos 300 metros do templo.
Depois de um fim-de-semana de incerteza e de promessas não cumpridas por al-Sadr, em vez da prometida retirada os milicianos reforçam a segurança do recinto sagrado, fazendo frente ao apertar do cerco, e insistem na retirada americana antes de entregarem as armas.
Segundo dados do governo iraquiano, 114 pessoas morreram nos combates de sábado e domingo, número esse aumentado pelos recontros de ontem, dos quais resultaram pelo menos três mortos e 18 feridos.
O ayatollah Ali Sistani, maior autoridade xiita no Iraque, mantém, apesar de tudo, a sua oferta para receber as chaves da mesquita e assegurar a sua defesa. Recorde-se que Sistani está em Londres a recuperar de uma cirurgia ao coração.
SADR REFUGIADO NO NORTE?
Entretanto, ninguém sabe ao certo onde se encontra al-Sadr. Segundo rumores que circulavam ontem na cidade, estaria refugiado no Norte do país, de maioria curda, mais exactamente em Sulaimaniya. No entanto, fontes próximas de Sadr e responsáveis do governo da cidade curda negaram as insinuações.
MAUSOLÉU DO IMÃ ALI SAGRADO PARA XIITAS
A cidade santa de Najaf tem bem no seu centro a mesquita e mausoléu do imã Ali, herói, profeta e “santo” fundador do islamismo xiita. A importância deste centro de peregrinação dos xiitas de todo o mundo está, pois, directamente relacionada com a vida e morte do profeta, figura que é para os xiitas talvez tão importante como a Virgem Maria para os católicos.
Os xiitas acreditam que o profeta Maomé, pouco antes de morrer, nomeou o seu primo e genro Ali como seu sucessor. No entanto, contra a vontade do Profeta, dizem ainda os xiitas, a comunidade islâmica primitiva foi primeiro chefiada por três califas: Abu Bakr, Omar e Othman ibn Assan. Só após o assassinato de Othman, em 665, é que Ali foi nomeado califa, isto é, dirigente político e religioso islâmico. Mas as querelas pelo poder continuaram e em 661 Ali foi assassinado frente a uma mesquita de Kufa, cidade vizinha de Najaf. Dando sentido a uma profecia atribuída a Abraão, Ali foi sepultado em Najaf, repousando o seu corpo no local onde hoje se ergue o majestoso mausoléu a si dedicado. Os imensos tesouros que albergava foram saqueados inúmeras vezes ao longo da história. O próprio Saddam Hussein invadiu e danificou o mausoléu quando em 1991 esmagou a revolta xiita, aumentando entre os seguidores deste ramo do Islão o ódio pelo ditador. A morte de Ali consagrou definitivamente Najaf, mas já antes as suas palavras tinham consolidado a mística associada ao vale onde se ergue, encarado como uma porta de acesso ao Paraíso. “Ali” é hoje uma palavra santa impressa nos corações dos xiitas, que vêem nele um intermediário para aceder a Deus. Najaf e o santuário dedicado a Ali são, por tudo isto, símbolos estimados pelo islamismo xiita, sendo considerada profanação grave a violação dos seus muros.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)