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Correio da Manhã

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Militares na rua contra protestos

A Junta Militar birmanesa enviou ontem centenas de soldados e polícias antimotim para as ruas de Yangon e ameaçou usar a força para esmagar a vaga de protestos pró-democracia liderada pelos monges budistas. Teme-se uma repetição da sangrenta repressão de 1988, que fez mais de três mil mortos.
26 de Setembro de 2007 às 00:00
Milhares de monges budistas desfilaram nos últimos dias pelas ruas de Yangon, nos maiores protestos das últimas duas décadas
Milhares de monges budistas desfilaram nos últimos dias pelas ruas de Yangon, nos maiores protestos das últimas duas décadas FOTO: Mizzima News
Mais de 40 mil monges e civis voltaram ontem a desfilar pacificamente pelas ruas de Yangon (antiga Rangum), exigindo “diálogo” e “democracia” à Junta Militar, que há mais de quatro décadas governa o país, naquela que é a maior vaga de protestos desde a repressão do movimento da década de oitenta.
Os protestos, diários, começaram na antiga capital birmanesa no passado dia 17 e espalharam-se rapidamente a outras cidades, forçando a Junta a mudar de estratégia: se inicialmente os militares optaram por ignorar os protestos, esperando que perdessem força, agora, face ao número cada vez maior de pessoas que desfilam pelas ruas – só na segunda-feira foram mais de cem mil – a Junta quebrou o silêncio, decretando o recolher obrigatório, e ameaçou recorrer à força para travar os protestos, que diz serem alimentados “pela imprensa estrangeira”.
Ontem, logo após as manifestações, dezenas de camiões militares avançaram sobre o centro da cidade de Yangon e ocuparam posições junto ao pagode de Sule, epicentro dos protestos, descarregando centenas de polícias e soldados armados com escudos, bastões e metralhadoras. Ao mesmo tempo, jipes com altifalantes começaram a percorrer as ruas, advertindo a população para “não seguir, encorajar ou tomar parte nas manifestações”. “Serão tomadas medidas contra todos aqueles que desobedecerem a estas ordens”, avisaram as autoridades, num gesto que faz lembrar as advertências que foram feitas antes da brutal repressão do movimento pró-democracia de 1988.
Ontem o ‘gabinete de guerra’ da Junta Militar esteve reunido em Naypyidaw, a nova capital do país, e, segundo várias fontes, terá dado ordens à 22.ª divisão do Exército – a principal unidade usada pela Junta para esmagar os protestos de 1988 – para avançar sobre Yangon, fazendo temer novo desfecho sangrento.
Face ao aumento da tensão, a comunidade internacional apelou à calma e até a China, principal parceiro comercial do regime de Myanmar, exortou a Junta a manter a estabilidade. Em Nova Iorque, o presidente norte-americano, George W. Bush, anunciou na assembleia geral da ONU a imposição de novas sanções económicas contra o regime birmanês e apelou ao resto da comunidade internacional para seguir o exemplo.
SAIBA MAIS
3000 foi o número aproximado de vítimas da brutal repressão do movimento pró-democracia em 1988.
1962 foi o ano em que a Junta Militar tomou o poder através de um golpe de Estado liderado pelo general Ne Win. O general Than Shwe é desde 1992 o líder da Junta e autoridade suprema do país.
FORÇA RELIGIOSA
Há centenas de milhar de monges budistas em Myanmar, um país com cerca de 56 milhões de habitantes. São muito respeitados.
AUNG SAN SUU KYI
A líder do movimento pró-democracia foi presa várias vezes desde 1990. Está sob prisão domiciliária há cinco anos.
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