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MILITARES PREPARAM FUTURO GOVERNO

O líder da rebelião militar que afastou do poder o presidente da Guiné-Bisau, Kumba Ialá, já iniciou os contactos exploratórios para a formação de um governo de transição.
16 de Setembro de 2003 às 00:00
Militares guineenses controlam as ruas de Bissau. Mas a vida corre normalmente
Militares guineenses controlam as ruas de Bissau. Mas a vida corre normalmente FOTO: Ricardo Bordalo (EPA)
No topo da lista de preferências do general Veríssimo Correia Seabra há dois nomes. O primeiro é o de Francisco Fadul, antigo primeiro-ministro durante a transição pós Nino Vieira, que, coincidência, ou talvez não, regressou a Bissau poucos dias antes do golpe. Fadul tem a seu favor a experiência governativa mas também o facto de ser respeitado pela comunidade internacional. Outro aspecto que poderá levar a balança a pender para o seu lado tem a ver com o facto de ser meio balanta. Porquê? As novas autoridades militares irão certamente fazer tudo para não hostilizar a etnia de Kumba Ialá.
O outro nome que consta na lista de Verísimo Seabra é o de Helder Vaz Lopes. Antigo homem forte de um dos principais partidos da oposição guineense, a RGB- Movimento Bafatá, e antigo ministro da Economia do Governo de Unidade Nacional, Vaz Lopes é amigo pessoal do militar que derrubou Kumba. “São amigos e vivem ambos em Chão de Papel (um bairro de Bissau), diz fonte contactada pelo CM.
O governo de transição vai ter por principal missão organizar as próximas eleições gerais. Apesar de oficialmente marcadas para o dia 12 de Outubro irão certamente ser adiadas. Aliás este cenário foi admitido pela Comissão Nacional de Eleições ainda antes do Golpe de Estado. As razões invocadas são perfeitamente plausíveis. Ainda só se fez o recenseamento em Bissau, falta pois cobrir todo o interior do país e o estrangeiro. Para mais, logo após o fim do recenseamento, há uma série de passos e prazos legais a serem respeitados. Por isso, e apesar das pressões da comunidade internacional, o bom senso aconselha a realização do acto eleitoral só lá para o príncipio do próximo ano.
Quanto ao deposto presidente está em prisão domiciliária desde as primeiras horas da manhã de ontem. A casa de Kumba Ialá, situada no Bairro internacional, em Bissau, encontra-se vigiada por soldados armados com armas ligeiras. O futuro do homem do barrete vermelho permanece no entanto uma incógnita. Tudo leva a crer que permaneça no país mas as novas autoridade militares poderão impedi-lo de exercer qualquer actividade política no seio do PRS, o partido mais votado nas últimas eleições legislativas.
Entretanto o aeroporto de Bissau foi reaberto enquanto na cidade a vida decorre com aparente normalidade. Pela aparência ninguém diria que a Guiné-Bissau foi no domingo passado palco de um golpe de Estado.
A SOMBRA PERIGOSA DE NINO
Apesar de ter prometido não exercer qualquer actividade política quando Portugal lhe ofereceu asilo político, a verdade é que o antigo presidente da Guiné-Bissau continuou a mexer os cordelinhos do poder. Aliás circulavam informações em Bissau que o apontavam como principal financiador de Kumba Ialá.
Oficialmente Nino Vieira vive entre Cascais e Vila Nova de Gaia. Mas o certo é que nos últimos tempos tem sido visto muito em Bruxelas, onde a sua mulher é cônsul honorária da Guiné-Conacri.
A pretexto das novas funções da mulher, Nino tem-se deslocado ao país vizinho da Guiné-Bissau. Ao que tudo indica, era ali que se encontrava na altura do golpe de Estado liderado por Veríssimo Correia Seabra. Ou seja estava a dois passos do país que dirigiu com ‘mãos de ferro’ durante mais de uma década. Este facto poderá, aliás, ter precipitado a decisão de avançar com a rebelião militar. É que para alguns dos revoltosos “não há coincidências”. É o caso dos generais Tagma Na Wae e Watna Na Lay, dois balantas que nutrem um ódio de morte pelo antigo presidente.
BISPO APOIA GOLPE MILITAR
O bispo de Bafatá, a segunda maior cidade de Guiné-Bissau, foi uma das primeiras personalidades a apoiar o golpe de estado que derrubou o presidente Kumba Ialá. D. Carlos Villi justificou a sua decisão com uma frase lapidar: “ o país precisa de mudar”. E depois acrescentou: “é fundamental encontrar tempos novos para a Guiné-Bissau”.
Deve ser a primeira vez que Igreja Católica apoia uma rebelião militar. Mesmo nos conturbados tempos de então presidente Nino Vieira a Igreja procurou manter-se à distância das querelas políticas só aceitando missões cujo objectivo era “promover o diálogo entre as partes”.
Este apoio de D. Carlos Villi é precioso para as novas autoridades. Apesar dos católicos não representarem mais de três por cento da população, a verdade é que a Igreja Católica é das instituições mais respeitadas na Guiné-Bisau. Tem um força enorme, uma força que é sobretudo moral. Durante anos foi a “única tábua de salvação” para um povo que vive no limiar da pobreza. Mais ainda. Nunca discriminou os crentes de outras religiões na altura de distribuir a desejada ajuda humanitária.
REACÇÕES
ONU QUER ELEIÇÕES
O representante especial do secretário-geral da ONU para a África ocidental apelou à manutenção das eleições legislativas a 12 de Outubro. Ahmed Ould Abdallah lamenta, no entanto, o golpe que segundo ele já “era esperado por muitos observadores”.
BRASIL LAMENTA
O governo de Brasília lamentou o golpe e exortou os militares e políticos guineenses a “instalar a ordem constitucional”. E afirma esperar que as eleições se realizem “rapidamente, com rigor e transparência”.
CABRAL DESILUDIDO
Luís Cabral, o primeiro presidente da história da Guiné-Bissau, disse que o golpe de estado de domingo passado foi um “mal menor” para o futuro do país. O antigo chefe de estado guineense, que presidiu ao país entre 24 de Setembro de 1973 e 14 de Novembro de 1980, declarou ainda que Kumba Ialá o desiludiu “totalmente”.
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