O antigo ditador sérvio Slobodan Milosevic foi ontem encontrado sem vida na cama da sua cela na prisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) para a ex-Jugoslávia, em Haia. O Tribunal enjeita responsabilidades na morte e afirma não haver indícios de suicídio. Em todo o caso só após autópsia poderá ser determinado o que pôs termo à vida do homem considerado responsável pela morte de milhares de pessoas nas guerras que devastaram os Balcãs entre 1992 e 1999.
“Não há sinais de suicídio. Mas não podemos afirmar para já que a sua morte foi natural”, referiu fonte do TPI, considerando que é necessário aguardar os resultados dos exames médicos e do inquérito entretanto ordenado no estabelecimento prisional de Scheveningen.
Recorde-se que Milosevic, de 64 anos, estava desde 2001 a ser julgado por crimes de guerra e genocídio. Para muitos peritos não restam dúvidas que lhe cabe a grande responsabilidade pelo banho de sangue que varreu a antiga Jugoslávia.
Zdenko Tomanovic, advogado de Milosevic, apresentou um requerimento para que a autópsia seja realizada em Moscovo, mas o TPI rejeitou horas depois o pedido. Tomanovic justificou o requerimento salientando que Milosev lhe garantiu, na véspera da morte, “que estava a ser envenenado na prisão e que as autoridades queriam manter este facto escondido da Rússia”. Tomanovic assegurou que o suicídio estava fora de causa. “Há uma história de suicídio na sua família [tanto o pai como a mãe de Milosevic se suicidaram, e ele tinha frequentes episódios depressivos] mas a sua atitude era muito diferente. Estava determinado a continuar a lutar até ao fim na sua defesa”, afirmou Kay, adiantando que essa era a razão pela qual exigia uma assistência médica que alegadamente não lhe foi concedida.
TRATAMENTO DEFICIENTE?
Esta acusação prende-se com o facto de o TPI ter rejeitado em Fevereiro um pedido formal da Rússia, que ofereceu repetidamente os seus préstimos e deu garantias de que Milosevic seria devolvido a Haia após tratamento.
Sabe-se, entretanto, que os cardiologistas que assistiam o antigo ditador alertaram para a gravidade do seu estado de saúde, frisando que o tipo de hipertensão de que sofria podia causar danos muito graves e irreversíveis não só no coração como nos rins e no sistema nervoso central.
O irmão e a viúva de Milosevic, respectivamente Borislav e Mirjana, acusam o TPI de homicídio. “Toda a responsabilidade cabe ao Tribunal”, frisou Borislav, que actualmente reside na Rússia. Em tom mais contundente, os socialistas sérvios, de Milosevic, afirmaram: “Os canalhas mataram-no”, e os nacionalistas do Partido Radical classificaram-no como um herói assassinado e exigiram que seja sepultado com honras de Estado no panteão nacional.
REACÇÕES CONTRASTADAS
A procuradora-geral do TPI, Carla del Ponte, lamentou a morte, mas por razões diferentes. “Após mais de três anos de julgamento estávamos muito perto do fim e isto é lamentável para todas as testemunhas, sobreviventes e vítimas que esperam que se faça justiça”, frisou. Para Del Ponte é preciso, no entanto, levar até ao fim o julgamento dos outros seis homens acusados de crimes semelhantes aos de Milosevic. Dois dos principais, o antigo presidente sérvio da Bósnia, Radovan Karadzic, e o seu comandante militar, Ratko Mladic, estão ainda em fuga.
Por seu lado o responsável da política externa e segurança da União Europeia, Javier Solana, considerou que embora lametável para o processo jurídico, o desaparecimento de Milosevic pode “abrir caminho” ao fechar das feridas ainda abertas nos Balcãs.
O ARQUITECTO DA 'GRANDE SÉRVIA'
Herói, oportunista ou ditador assassino, Slobodan Milosevic fica para sempre associado a algumas das páginas mais negras do séc. XX. O homem que tentou levar à prática o ideal da ‘Grande Sérvia’ nasceu em Pozarevac, Sérvia e Montenegro (1941) e foi criado durante a ditadura comunista do general Tito. O pai, Svetozar, suicidou-se quando Slobodan finalizava o Ensino Secundário, e a mãe, Stanislava, enforcou-se 10 anos depois.
A aprendizagem política do futuro líder jugoslavo aconteceu em Belgrado, onde se revelou um fervoroso comunista. Em Abril de 1987 Milosevic foi enviado para a província do Kosovo, onde os 10% de sérvios afirmavam estar a ser alvo de perseguições por parte da maioria albanesa e essa foi a missão que lançaria o seu ataque ao poder. Perante uma multidão de sérvios enfurecidos, pronunciou a frase que marcaria o futuro próximo: “Ninguém se atreverá a agredir-vos de novo”. Para os sérvios este foi o grito de guerra que incendiou os ódios ancestrais.
Milosevic ascendeu à presidência em 1989 e quando dois anos depois se consumou a secessão da Croácia e Eslovénia, deu início à guerra que espalharia o caos nos Balcãs. A Bósnia foi palco de alguns dos episódios mais sangrentos: o massacre de Srebrenica (que vitimou mais de oito mil muçulmanos) e o cerco de Sarajevo (que ceifou mais de 10 mil vidas).
Em 1995 assinou a paz mas voltou às armas para esmagar a revolta no Kosovo, em 1998. A NATO bombardeou as forças sérvias e meses depois a evidência dos crimes promovidos por Belgrado fez com que Milosevic se tornasse o primeiro presidente em exercício a ser acusado de crimes contra a Humanidade.
CINCO ANOS NUMA CELA LUXUOSA
As queixas e acusações de Slobodan Milosevic ao TPI não comovem os mais críticos, que consideram que o antigo ditador e criminoso de guerra passou os seus cinco últimos anos de vida em condições muito próximas do luxo.
É certo que para quem estava habituado à opulência o contraste podia ser doloroso, mas o antigo presidente sérvio dormia numa cela muito parecida à de uma residência universitária de topo, onde podia ver televisão e ouvir CD de músicos da sua preferência, como Frank Sinatra.
Tinha, além disso, liberdade para conviver com outros presos acusados de crimes de guerra, designadamente o líder sérvio da Croácia, Milan Babic, que se suicidou depois de testemunhar contra Milosevic.
OS ÚLTIMOS DOS QUE FIZERAM A PAZ DE DAYTON
A morte de Slobodan Milosevic faz com que não sobreviva hoje nenhum dos três presidentes que em 1995 formalizaram os chamados Acordos de Paz de Dayton.
Em Dezembro de 1999 desapareceu Franjo Tudjman, presidente da Croácia, que em 1990 proclamou a independência da antiga república jusgoslava. Em Outubro de 2003 foi a vez de Alija Izetbegovic, presidente da Bósnia e Herzegovina de 1996 a 2000.
Quando os três presidentes assinaram a paz, em Paris – em cerimónia patrocinada pelos EUA, UE e Rússia – pensava-se que tinha chegado ao fim o sofrimento dos Balcãs, mas a guerra teve novo capítulo sangrento no Kosovo entre 1998 e 1999.
"É pena que não tenha sobrevivido o suficiente para ser sujeito a julgamento", Freitas do Amaral, MNE português.
"A sua morte não altera a necessidade de resolver os problemas do passado", Ursula Plassnik, em nome da UE.
"Morreu um dos principais actores, senão o principal actor, das guerras dos Balcãs", Philippe Douste-Blazy, MNE francês.
"É pena não ter sido condenado e não termos ouvido a sentença. No entanto, Deus castigou-o", familiares das vítimas de Srebrenica.
"Foi ele que colocou a máquina da guerra em acção com as suas políticas agressivas", Stejpan Mesic, presidente da Croácia.
"Seria mais justo que vivesse até ao dia da condenação e pagasse pelos seus crimes", representante dos muçulmanos bósnios.
"Era um criminoso, um inimigo do povo do Kosovo e de toda a Humanidade", Fatmir Sejdiu, presidente do Kosovo.
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