Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo

Ministro brasileiro da Defesa ameaçou presidente do parlamento com golpe militar se vontade de Bolsonaro não for obedecida

Presidente do Brasil pediu que as eleições sejam feitas em cédulas de papel, há muito abolidas no país.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 22 de Julho de 2021 às 17:09
Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro FOTO: Getty Images
O ministro brasileiro da Defesa, general Braga Neto, ameaçou o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, com um golpe militar e a não realização das presidenciais de 2022 se o parlamento não acatar a vontade de Jair Bolsonaro de que essas eleições sejam feitas em cédulas de papel, há muito abolidas no Brasil. A denúncia dessa ameaça de ruptura democrática foi feita esta quinta-feira, 22 de julho, pelo jornal O Estado de S. Paulo.

De acordo com o jornal paulista, Braga Neto, que tem sido fortemente criticado pela sua subserviência absoluta a Bolsonaro e por permitir a entrada da política nos quartéis, fez a ameaça dia 8 deste mês durante um encontro entre ele, Lira e os comandantes do Exército, Marinha e Força Aérea. O general terá dito ao presidente do parlamento que, sem voto auditável, os militares não permitirão a realização das presidenciais do ano que vem, na quais Bolsonaro disputa a reeleição mas cujas sondagens são lideradas neste momento com larga vantagem pelo ex-presidente Lula da Silva.

O "voto auditável" a que o general aludiu e é veementemente defendido por Jair Bolsonaro é o voto em papel, como se votava antigamente, pois o actual governante diz que as urnas electrónicas usadas hoje no Brasil são facilmemte adulteráveis. Ainda de acordo com a teoria da conspiração que Bolsonaro diz estar a ser articulada pelos que supostamente querem tirá-lo do poder, quem controla o sistema de apuração no Tribunal Superior Eleitoral, TSE, são comunistas e outros esquerdistas ligados ao Partido dos Trabalhadores, PT, de Lula, que estariam a planear fraudar a votação para dar o poder ao antigo presidente no ano que vem.

Ainda de acordo com o Estado de S. Paulo, Lira, após a clara ameaça de intervenção militar, foi relatar o caso a Bolsonaro no palácio presidencial, deixando claro que o apoiava para o que desse e viesse mas que não aceitaria uma ruptura institucional. Bolsonaro teria dito que não está a pensar num golpe de Estado, pois, terá asseverado a Lira, não obstante as suas posições firmes e em alguns casos extremistas, respeita a Democracia.

A denúncia do jornal paulista surge num momento em que chefes militares e o próprio Braga Neto têm atacado publicamente o Congresso, principalmente depois que vieram à tona esquemas de corrupção no Ministério da Saúde envolvendo militares de alta patente. No início do Mês, num comunicado conjunto do ministro da Defesa e dos comandantes das três armas, a cúpula militar afirmou que não permitiria que militares fossem acusados de irregularidades pelo parlamento, e ameaçou tomar medidas duras, que, no entanto, não foram especificadas, se a imagem das Forças Armadas continuasse a ser denegrida.

O voto impresso foi abolido há muitos anos no Brasil e o seu regresso às eleições no país já foi rejeitado pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Tribunal Superior Eleitoral, que garantem a confiabilidade das urnas electrónicas que passaram a ser usadas. No Congresso está em tramitação um projecto para voltar a instituir o voto em cédulas de papel, mas a rejeição da proposta é dada como certa, pois à excepção dos bolsonaristas mais radicais nenhum partido de expressão a apoia.
Jair Bolsonaro Braga Neto Arthur Lira Brasil O Estado de S. Paulo Lula da Silva Tribunal Superior Eleitoral
Ver comentários