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Correio da Manhã

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MINISTRO FRANCÊS EM MISSÃO DE RESGATE

O ministro dos Negócios Estrangeiros Michel Barnier viajou domingo à noite para o Egipto com a missão de tentar angariar apoios árabes para a libertação de dois jornalistas franceses, sequestrados no Iraque por um grupo que exige a abolição da lei francesa que proíbe os véus islâmicos nas escolas públicas. O governo francês já garantiu que a lei vai entrar em vigor na data prevista, na próxima quinta-feira, dia de abertura do ano escolar em França.
30 de Agosto de 2004 às 10:25
O presidente francês, Jacques Chirac, fez ontem um apelo televisivo para a libertação dos dois jornalistas franceses, declarando que a França é um país de tolerância e garantindo que tudo será feito para conseguir a libertação dos dois profissionais da comunicação social sequestrados no Iraque. Logo após o discurso, o ministro Barnier viajou para o Cairo, presumindo-se que se desloque também ao Qatar. O chefe da diplomacia francesa tem a missão de procurar apoios árabes para conseguir a libertação dos dois jornalistas franceses.
Chirac adiou desta manhã para logo à noite a partida de Paris para uma cimeira na Crimeia com o seu homólogo russo e o chanceler alemão. Os três líderes são fortes opositores da guerra no Iraque.
Os jornalistas Christian Chesnot, da ‘Radio France Internacional’, e Georges Malbrunot, dos jornais “Le Figaro” e “Ouest France”, desapareceram na estrada que liga Najaf a Bagdad no passado dia 20, um dia depois de ter sido raptado o jornalista italiano Enzo Baldoni. O Exército Islâmico no Iraque, que na semana passada anunciou a execução de Baldoni, impôs no passado sábado um ultimato a Paris, concedendo ao governo francês 48 horas para abolir a chamada lei do véu. O grupo não chegou a dizer qual seria o destino dos seus dois reféns franceses caso Paris não cumpra a exigência... mas imagina-se.
Ontem, dia seguinte ao anúncio do ultimato, o governo francês reuniu o seu gabinete de crise. O ministro do Interior, Dominique de Villepin, surgiu na televisão flanqueado por líderes da comunidade islâmica francesa, composta por cerca de 5 milhões de pessoas. O ministro explicou que a lei que proíbe a exibição de símbolos religiosos nas escolas públicas francesas (não apenas o véu islâmico) destina-se a preservar o carácter secular do Estado francês e pretende promover a harmonia social. Alguns líderes islâmicos franceses, visivelmente nervosos, aproveitaram a ocasião para garantir nada terem a ver com o sequestro dos jornalistas no Iraque.
Este sequestro denota uma nova estratégia de influência desenvolvida por terroristas em solo iraquiano. Desta feita não se trata de tentar travar a participação na guerra de um qualquer país ou empresa estrangeira. Desta vez o alvo é um país que até se opôs e não tem qualquer envolvimento na guerra. E o objectivo do sequestro é tentar influenciar a política interna desse país, no caso a França. Até o presidente palestiniano, Yasser Arafat, já veio a público pedir a libertação dos jornalistas franceses, declarando-os amigos da causa palestiniana.
Paris não cede e garante que a polémica lei vai mesmo entrar em vigor na abertura no ano escolar, na próxima segunda-feira. O ministro Barnier está em missão de resgate, mas o tempo escasseia. O prazo do ultimato imposto pelos sequestradores iraquianos termina hoje à noite. E o que acontecer aos dois jornalistas franceses deverá traduzir uma nova medida de (in)tolerância. Afinal, os ditos resistentes iraquianos defendem o seu país da invasão estrangeira, ou pretendem servir-se dela para “invadirem” eles próprios a administração de outros países? Será uma medida de ataque e já não apenas de defesa. Será uma medida à imagem da organização terrorista al-Qaeda, que em Fevereiro último tinha denunciado a polémica lei francesa que na altura estava em discussão.
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