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MÍSSEIS IRAQUIANOS NO CENTRO DA POLÉMICA

Com a NATO bloqueada e em plena contagem decrescente para o Dia D no Conselho de Segurança da ONU, sexta-feira, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, declarou que a recente descoberta no Iraque de mísseis de alcance superior ao permitido pode constituir prova de “violação significativa” da Resolução 1.441.
13 de Fevereiro de 2003 às 15:55
No passado dia 27 de Janeiro, o chefe da Comissão da ONU de Monitorização, Verificação e Inspecção (UNMOVIC) do desarmamento iraquiano, Hans Blix, apresentou ao Conselho de Segurança um primeiro relatório sobre o andamento das inspecções impostas pela Resolução 1.441. Nessa intervenção, Blix disse que o regime iraquiano tinha importado material capaz de ser convertido no fabrico de mísseis de alcance superior ao que lhe é permitido pela ONU (o limite está nos 150 quilómetros).

Este primeiro relatório animou os Estados Unidos da América e o Reino Unido a prosseguirem com preparativos de guerra ao Iraque, considerando que o regime de Saddam Hussein não só não coopera com os inspectores internacionais como está em clara violação das suas obrigações perante a ONU. Mas, na segunda-feira, o ‘sussurro’ europeu que há muito se fazia ouvir, com alguma timidez política, contra uma guerra ao Iraque, assumiu-se como um ‘grito’ de bloqueio na NATO.

Alemanha e França (e Bélgica também) passaram das palavras à acção e bloquearam na NATO os preparativos para a defesa da Turquia contra uma eventual retaliação iraquiana em caso de ataque norte-americano ao Iraque. Recorde-se que o Norte da Turquia será uma das linhas da frente numa acção militar contra Saddam, apesar de Bagdad garantir que não atacará o país vizinho. A postura do eixo franco-alemão mobilizou de imediato a Bélgica e acabou por recrutar também a Rússia, criando consternação e indignação política em Washington.

IMPASSE ATÉ SEXTA-FEIRA

Desde segunda-feira que os aliados não conseguem chegar a um entendimento. Paris e Berlim já fizeram saber que não alteram a sua posição até esta sexta-feira, dia em que Blix apresenta novo relatório ao Conselho de Segurança, onde Alemanha e França deverão também apresentar um plano alternativo à guerra, que passa pelo reforço do sistema de inspecções ao desarmamento iraquiano.

E foi a escassos dias desta data crucial para a diplomacia mundial que os inspectores da ONU descobriram no Iraque mísseis com alcance superior ao permitido. Blair foi peremptório: “Não se trata apenas de uma recusa em declarar e apresentar informações, trata-se de uma violação da Resolução 1.441”. O ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Joschka Fischer, respondeu de imediato, declarando que “o Iraque não se encontra numa situação de violação grave da Resolução 1.441”, pelo que, concluiu, “não há motivo para desencadear uma guerra”.

O choque entre estes dois discursos vai acontecer amanhã, em Nova Iorque, na sede da ONU. Washington quer avançar de imediato para a guerra, mas admite negociar uma segunda resolução, pedida por Londres para apaziguar a opinião pública britânica. Por seu turno, Berlim e Paris deverão apresentar uma resolução alternativa, que afasta o espectro de guerra. Moscovo alinha com o eixo franco-alemão e não exclui a hipótese de recorrer ao direito de veto, para defender essa posição da postura bélica do eixo anglo-americano.

Recorde-se que França, Estados Unidos da América, Reino Unido e Rússia são membros permanentes do Conselho de Segurança, pelo que têm direito de veto sobre todas as resoluções emanadas daquele órgão. A China, o quinto membro permanente, também goza do mesmo estatuto. Curioso é o facto de a Alemanha ocupar actualmente a presidência do Conselho de Segurança, o que lhe dá vantagem no controlo da agenda política.

O momento político que amanhã se vive em Nova Iorque pode estabelecer importantes precedentes políticos para a ordem mundial. Exemplo da importância dessa jornada foi o facto de o presidente norte-americano, George W. Bush, ter telefonado ao Primeiro-Ministro Durão Barroso, pedindo-lhe que mobilizasse o voto de Angola, que é actualmente um dos membros do Conselho de Segurança. Durão admitiu ontem que fez o telefonema ao presidente angolano, José Eduardo dos Santos, mas não quis divulgar a posição de Luanda.
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