Erro humano ou assassinato? As dúvidas e as teorias de conspiração persistem no dia em que se assinalam duas décadas sobre o acidente aéreo que vitimou o primeiro presidente e pai da independência de Moçambique, Samora Machel. Talvez o inquérito prometido no início do ano pela África do Sul venha ajudar a esclarecer o mistério, mas por enquanto ainda nada foi feito.
Samora e a sua comitiva regressavam de uma cimeira internacional na Zâmbia quando, na noite de 19 de Outubro de 1986, o Tupolev 134 presidencial se esmagou contra uma montanha na localidade de Mbuzine, no extremo nordeste da África do Sul, junto à confluência das fronteiras sul-africana, moçambicana e da Suazilândia. Das 44 pessoas a bordo, 34 perderam a vida no acidente, incluindo Machel e grande parte do ‘staff’ presidencial.
A causa oficial do acidente foi erro humano. Segundo a comissão de inquérito sul-africana, a tripulação soviética do avião cometeu vários erros, incluindo reduzir a altitude do aparelho para a aproximação ao aeroporto de Maputo sem vislumbrar as luzes da pista e ignorar o sinal de alerta do sistema de aviso de proximidade ao solo.
Outra teoria, apoiada pela investigação realizada na União Soviética (como país de origem do aparelho e da tripulação) aponta para a possibilidade de atentado, ao indicar que o aparelho terá sido desviado da rota por um falso farol de navegação, alegadamente montado pelos serviços secretos sul-africanos para fazer o avião embater na montanha.
Apesar de a própria Graça Machel, viúva do presidente moçambicano e actual esposa de Nelson Mandela, ter várias vezes falado numa “conspiração interna” envolvendo generais e elementos da Frelimo, o alegado envolvimento do regime do ‘apartheid’ da África do Sul na morte de Samora Machel é, ainda hoje, a hipótese que mais adeptos tem em Maputo. O apoio de Machel e de Moçambique ao ANC terá feito do presidente moçambicano um alvo a abater por Pretória, que também não via com bons olhos a sua crescente influência regional.
A alegada conspiração foi investigada na África do Sul após a queda do regime do ‘apartheid’, em 1994, mas as conclusões não foram significativas.
Em Fevereiro deste ano, o ministro sul-africano da Segurança, Charles Nqakula, prometeu reabrir o inquérito, mas até ao momento nada foi feito. Ainda na semana passada, o presidente sul-africano, Thabo Mbeki, considerou “lamentável” o facto de não se saber ainda se Machel foi ou não morto pelo regime da minoria branca da África do Sul.
FAMÍLIAS DE MBUZINE ESQUECIDAS PELO ESTADO
Vinte anos depois do acidente aéreo que vitimou Samora Machel e grande parte da sua comitiva, os familiares de algumas das vítimas dizem-se esquecidos pelo Estado. As pensões de sangue foram insuficientes para colmatar a perda dos chefes de família e muitas crianças foram obrigadas a abandonar os estudos para ajudar a sustentar os familiares.
Hoje reclamam maior ajuda da parte do Estado moçambicano, o qual acusam de nada ter feito por eles, apesar de os seus familiares terem morrido ao serviço do país. A ex-primeira-dama moçambicana Graça Machel deu-lhes recentemente razão, considerando “justas” as suas reivindicações. “É natural que as famílias tenham razões para se sentirem marginalizadas”, afirmou.
MULHER DE DOIS PRESIDENTES
Viúva do presidente Machel, Graça Machel acabou por casar, em Setembro de 1998, com outro presidente, Nelson Mandela, quando este tinha já 80 anos e depois de alguns anos de atribulada polémica face ao conflituoso divórcio de Winnie Mandela.
O namoro e posteriormente o enlace entre Graça e o Nobel da Paz foi alvo de grande curiosidade nos media de todo o Mundo. Desde então o casal dedica-se de corpo e alma a causas sociais e humanitárias.
MONUMENTO AO ABANDONO
Numa altura em que o governo moçambicano anuncia a construção de onze bustos de Samora Machel em cada uma das onze capitais provinciais do país, o único monumento ao antigo presidente existente em Maputo encontra-se votado ao abandono. Degradado, com letras desaparecidas e outras a caírem, a estátua de Machel no Jardim Tunduro tem sido apontada como um exemplo da política do ‘deixa andar’ tão criticada pelo presidente Armando Guebuza, principal promotor do culto à figura de Samora Machel, que tem vindo a ganhar cada vez mais força na sociedade moçambicana.
Exemplos disso são a colocação do rosto do antigo presidente nas novas notas moçambicanas ou a decisão de Guebuza de mandar construir os bustos do antigo presidente nas onze capitais provinciais, criticada por muitos como “despesista”.
MAIS CONHECIDO PELAS ANEDOTAS
Para grande parte dos portugueses, principalmente para as gerações mais jovens, o falecido presidente moçambicano Samora Machel é mais conhecido pelas anedotas grosseiras que se contam sobre a sua pessoa do que propriamente pelo seu papel histórico na independência de Moçambique. Trata-se de um reflexo dos tempos que se viveram em Portugal a seguir à descolonização, segundo afirmou ao Correio da Manhã o sociólogo Paquete de Oliveira.
“Tem a ver com o contexto político da altura, que era mais favorável a ajustes de contas. Havia uma tendência para sobrevalorizar os aspectos negativos da figura de Samora Machel em detrimentos dos aspectos positivos”, afirma o sociólogo.
Muito populares em finais dos anos 70 e no princípio dos anos 80, inclusive após a trágica morte do presidente moçambicano, em 1986, as anedotas do Samora, como eram conhecidas, sobreviveram até aos nossos dias.
De cariz extremamente racista e depreciativo para a figura do presidente moçambicano, essas anedotas eram, para Paquete de Oliveira, o reflexo de todo o ressentimento causado pela descolonização. “Era um contexto muito marcado pela descolonização, por um discurso mais popular, sobretudo da parte dos retornados, que tinham determinados preconceitos”, afirma. Um ressentimento que, adianta, explica em grande parte por que razão “a sobrevalorização desse aspecto mais popular foi superior à do papel de Samora Machel como chefe de Estado e que a História tem reconhecido”.
10/10/86. Circulam rumores em Moçambique de que um comando sul-africano se infiltrou em Maputo.
11/10/86. O governo moçambicano emite um comunicado, acusando a África do Sul de preparar um ataque a Maputo.
16/10/86. O jornalista Carlos Cardoso escreve que o “assassínio de Samora Machel pode estar nos planos dos generais sul-africanos”.
18/10/86. Manifestação em Maputo pela “defesa da integridade da pátria socialista”.
19/10/86. No regresso ao país após um encontro com Kenneth Kaunda e José Eduardo dos Santos, o avião presidencial choca contra uma colina em Mbuzini, na África do Sul.
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