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Correio da Manhã

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MORREU YASSER ARAFAT

Yasser Arafat, presidente da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), morreu esta quinta-feira às 3h30 (2h30 em Lisboa), no hospital militar de Percy, nos arredores de Paris, onde estava internado desde 29 de Outubro. Tinha 75 anos. A confirmação da morte do líder palestiniano, depois de vários dias de contradições em torno do seu estado de saúde, levantou uma onda de mensagens de consternação e de esperança de que o conflito no Médio Oriente tome agora um novo rumo.
11 de Novembro de 2004 às 10:50
"O senhor Arafat, presidente da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), faleceu no hospital militar de Percy, em Clamart, às 3h30", afirmou numa breve declaração o responsável dos serviços médicos do exército francês, o general Christian Estripeau.
Em Ramallah, o secretário de Arafat, Abed Abdelrahim, tinha anunciado, uns minutos antes na Muqata, quartel-general da ANP, a morte do líder e afirmou que "a direcção palestiniana envia as suas condolências ao povo palestiniano e aos países árabes".
"Hoje perdemos o filho da Fatah e o seu líder, o presidente da OLP e o chefe da ANP, o líder que lutou pela liberdade e pela unidade nacional", disse Abed Abdelrahi.
O ex-ministro da Informação, Yasser Abed Rabbo, declarou que o funeral nacional de Arafat se celebrará no próximo sábado em Ramallah, onde será enterrado na Muqata.
Segundo o mesmo responsável, o corpo do presidente palestiniano é transladado hoje de Paris para o Cairo, Egipto, onde na sexta-feira receberá honras de chefe de Estado. Por precaução, não foram ainda reveladas as horas a que o corpo será transferido.
O ministro para as Negociações da ANP, Saeb Erekat, afirmou que "hoje é um dia negro para todos os palestinianos". Em declarações à rádio do exército, aquele responsável afirmou que os restos mortais de Arafat serão enterrados um dia na mesquita de al-Aksa na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém, "quando os palestinianos alcançarem a paz com Israel".
A ANP decretou 40 dias de luto nacional, sete dias para as instituições públicas e três para o comércio e organismos privados, durante os quais as bandeiras palestinianas estarão colocadas a meia haste.
As facções palestinianas Hamas e Jihad Islâmica expressaram hoje a sua dor pela morte do presidente Yasser Arafat e apelaram à unidade nacional nos territórios ocupados, enquanto a Brigada dos Mártires de Al-Aqsa apelou à luta.
As representações diplomáticas ocidentais, sedeadas em Jerusalém, também já hastearam as bandeiras a meia haste em sinal de luto.
A confirmação oficial da morte de Yasser Arafat surge depois de vários dias de uma tensa espera, depois do seu estado de saúde se ter deteriorado na passada segunda-feira, quando entrou num coma mais profundo.
ISRAEL FECHA FRONTEIRAS
Numa primeira reacção à confirmação da morte de Yasser Arafat, Israel encerrou as fronteiras da Cisjordânia como medida.
O ministro israelita da Justiça, Yossef Lapid, congratulou-se
pela morte do líder palestiniano, Yasser Arafat, afirmando à rádio militar israelita que "é bom que o Mundo se tenha desembaraçado dele".
Entretanto, o exército israelita, que ocupa grande parte dos territórios palestinianos da Cisjordânia e a Faixa de Gaza, colocou em marcha a operação "Nova Página", com cercos às cidades da Cisjordânia e reforços no controlo militar.
Na Faixa de Gaza, milhares de palestinianos saíram em manifestação para as ruas com bandeiras palestinianas e retratos de Yasser Arafat.
O presidente do Conselho Legislativo Palestiniano, Rauhi Fatuh, será proclamado presidente interino da ANP após o enterro de Arafat em Ramallah, afirmou o ministro do Trabalho, Ghassam Jatib.
PERFIL
Ex-líder da guerrilha, Yasser Arafat, de 75 anos, era tido pela grande maioria da população palestiniana um ícone da luta pela preservação do Estado Palestiniano, uma guerra iniciada nos anos 60.
Figura de alguma controvérsia, foi vencedor do Prémio Nobel da Paz, ao lado dos líderes israelitas Yitzhak Rabin e Shimon Peres, pelos acordos de paz interinos assinados com israel em 1993. Um feito que não foi bem recebido pelos ultranacionalistas judeus e que levou ao assassinato de Rabin, a 4 de Novembro de 1995.
A legitimidade internacional do líder palestiniano surgiu com os acordos de Oslo, que garantiram à Palestina uma auto-governação. A moeda de troca foi o reconhecimento do Estado israelita e a renúncia à violência.
No entanto, a sua caminhada por um Estado palestiniano perdeu força perante Israel e os Estados Unidos, que abdicaram das negociações com Arafat depois de falhada uma cimeira de paz – organizada pelos EUA – em 2000, e de infrutíferas tentativas para pôr fim a já quatro anos de guerra. Yasser Arafat negou repetidamente as acusações de que incitava os ataques contra israelitas.
Arafat não contestou o plano unilateral israelita de retirar da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. Nos últimos meses, o líder palestiniano enfrentou uma grande instabilidade entre os palestinianos, enquanto os seus opositores tentavam chegar ao poder, por si detido com mão de ferro.
A crescente onda de violência no Médio Oriente conduziu à determinação de medidas extremas. Israel determinou que Arafat ficasse confinado ao seu quartel-general, na Faixa de Gaza, a Mukata, onde o líder palestiniano permaneceu até à sexta-feira passada, altura em que foi transferido para um hospital militar em Paris, devido a um estado de saúde agravado.
REACÇÕES
"Arafat morreu, mas o povo palestiniano está vivo", líder israelita trabalhista Shimon Peres
"A morte de Yasser Arafat pode constituir o início de um novo capítulo. Espero que a nova direcção palestiniana siga um novo caminho tendo em vista colocar um fim ao terrorismo e à violência, o que permitirá o reinício das negociações". presidente isarelita, Moshé Katzav
"Espero que a nova liderança entenda que o progresso nas nossas relações e a resolução dos problemas dependem em primeiro lugar do fim do terrorismo e de esforços sérios e reais para combater o terrorismo que opera a partir dos seus territórios", primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon
”Espero para o povo palestiniano que o futuro traga paz e o cumprimento das suas aspirações de uma Palestina independente, democrática e que esteja em paz com os seus vizinhos". presidente dos Estados Unidos, George W. Bush
"Com ele desaparece o homem de valor e convicção que encarnou, durante 40 anos, o combate dos palestinianos pelo reconhecimento dos seus direitos nacionais", presidente francês, Jacques Chirac
"Quero exprimir as minhas condolências à família do presidente Yasser Arafat e ao povo palestiniano", primeiro-ministro britânico, Tony Blair
"Os esforços que Yasser Arafat fez durante toda a sua vida foram para conduzir os palestinianos à independência e para criar um Estado palestiniano soberano e com condições para existir", chanceler alemão, Gerhard Schroeder
"O líder Arafat era um proeminente dirigente, um político destacado, toda a sua vida lutou pela recuperação dos direitos legais do povo palestiniano", presidente chinês, Hu Jintao
"Durante cerca de quatro décadas, ele exprimiu e simbolizou as aspirações nacionais do povo palestiniano. O presidente Arafat vai continuar na memória como aquele que em 1988 conduziu os palestinianos a aceitar o princípio de uma coexistência pacífica entre Israel e um futuro Estado palestiniano". secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan
"Morreu um dirigente político de envergadura mundial, que consagrou toda a sua vida à justa causa do povo palestiniano, à luta pela realização do seu direito inalienável de criar um Estado independente, existindo em paz com Israel no quadro de fronteiras seguras e reconhecidas". presidente russo, Vladimir Putin
"Paz na Terra Santa, com dois Estados independentes e soberanos, plenamente reconciliados entre si". Papa João Paulo II
"Uma luta muito esforçada, arriscada, nem sempre isenta de controvérsias. Mas (Arafat) foi alguém que soube protagonizar como ninguém a causa palestiniana". Presidente português, Jorge Sampaio
"Foi um lutador, um combatente, naturalmente com uma actuação muitas vezes controvertida, mas no momento em que deixa este mundo é hora de lembrar essa essência da vida, lutar por convicções". Primeiro-ministro português, Pedro Santana Lopes
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