Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
9

MUDANÇA HISTÓRICA NO QUÉNIA

Pela primeira vez na história do Quénia independente, um presidente eleito vai suceder ao presidente em funções. O líder da oposição queniana, Mwai Kibaki, conquistou a presidência com vantagem expressiva sobre o candidato escolhido pelo ‘velho’ presidente Daniel Arap Moi, o seu próprio filho, e a Aliança do Arco –Íris (NARC) infligiu ao partido KANU a primeira derrota eleitoral desde a independência, em 1963.
29 de Dezembro de 2002 às 14:16
Mwai Kibaki foi o escolhido pelos quenianos
Mwai Kibaki foi o escolhido pelos quenianos
O candidato presidencial do KANU, filho do presidente cessante e empresário de sucesso, Uhuru Kenyatta, admitiu a derrota ainda antes de os resultados finais serem anunciados. Com dois terços dos votos às presidenciais escrutinados, Kibaki liderava com uma margem de três votos para cada um em Kenyatta. A comissão eleitoral queniana não quis fazer uma declaração definitiva enquanto não estiver na posse de todos os resultados, o que vai acontecer nas próximas horas, mas admitiu que, se o padrão do escrutínio se mantiver, Kibaki será o próximo presidente do Quénia.

Ao que tudo indica, Daniel Arap Moi entregará a presidência a Mwai Kibaki numa cerimónia oficial a realizar já amanhã (segunda-feira). É a primeira vez que um presidente queniano entrega o poder a um sucessor. Arap Moi preside ao Estado queniano há 23 anos, tendo assumido a presidência após a morte do fundador da independência, Jomo Kenyatta. Ele era um dos ilustres da velha geração de líderes políticos africanos pós-independência, que se caracterizam pela longa permanência no poder, pelo punho de ferro e pelo enriquecimento pessoal. Daniel Arap Moi estava constitucionalmente impedido de concorrer a estas eleições. A sucessão no Quénia marca uma viragem histórica que serve de exemplo e estimula a tendência que alastra a toda a África.

A presidência de Moi deu ao Quénia um longo período exemplar de crescimento económico, invertido apenas em 2000, primeiro ano desde 1963 que não registou crescimento na economia queniana. Apesar destes números, mais de metade da população queniana vive em condições de pobreza, com menos de um dólar diário por pessoa, e a corrupção administrativa reina.

Os quenianos mostraram nestas eleições um forte desejo de mudança. Não só rejeitaram o sucessor escolhido pelo ‘velho’ presidente, e por margem significativa, como impuseram ao KANU a sua primeira derrota eleitoral. Os resultados provisórios das eleições legislativas simultâneas, com 186 círculos eleitorais escrutinados, davam à NARC 121 deputados eleitos e ao KANU 52, com alguns assentos distribuídos por pequenos partidos. De fora do Parlamento queniano ficam alguns ministros importantes e o vice-presidente cessante, que não conseguiram votos suficientes para conquistar um assento de deputado.

Kibaki terá como primeira e difícil missão manter a unidade entre os dez partidos coligados na NARC para concorrer a estas eleições. E, depois, promete reavivar a economia queniana e acabar com o estilo político das cumplicidades entre o poder e o patronato.

O presidente eleito do Quénia tem boa formação para a tarefa que se avizinha, é formado pela Escola de Economia de Londres, mas também foi outrora, durante dez anos, vice-presidente de Moi, o que leva alguns críticos a dizer que a mudança é apenas uma ilusão. Mas o momento é, sem dúvida, histórico. É, como afirmou Raila Odinga, “o nascer de uma nova era”. E ele é o exemplo disso mesmo: foi um dos prisioneiros políticos que mais tempo esteve encarcerado durante o regime de Moi e agora vai ser primeiro-ministro do governo de Kibaki.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)