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Nº 2 da al-Qaeda jura vingar morte de libaneses

Após 16 dias de guerra, a al-Qaeda emitiu um comunicado apelando a todos os muçulmanos para se unirem numa frente comum contra Israel e os ‘cruzados’ que os apoiam e vingar os libaneses mortos pelas “bombas sionistas”. A mensagem surgiu pela voz e imagem de Ayman al-Zawahiri, considerado o braço-direito de Osama bin Laden e arquitecto do atentado que em 2001 arrasou as Torres Gémeas de Nova Iorque.
28 de Julho de 2006 às 00:00
Nº 2 da al-Qaeda jura vingar morte de libaneses
Nº 2 da al-Qaeda jura vingar morte de libaneses FOTO: Reuters
No novo vídeo divulgado pela TV árabe al-Jazeera, Zawahiri afirma que não podia ficar mais tempo em silêncio perante “a guerra de cruzada sionista no Líbano e Palestina” e considera que os novos eventos tornaram “todo o Mundo um campo de batalha” da luta dos muçulmanos contra “a aliança de cruzados”.
“Assim como eles nos combatem em todo o lado, nós vamos combatê-los em todo o lado. Todos quantos se uniram neste crime têm de pagar o preço. Não podemos ver os mísseis a cair, lançando fogo sobre o povo do Líbano, e ficar impassíveis”, afirma Zawahiri, em imagens que o mostram no que parece ser um estúdio. No vídeo são visíveis, a certa altura, várias fotografias, entre elas uma das Torres Gémeas em chamas.
“A guerra contra Israel não depende de tréguas nem de disputas de fronteira. É uma Jihad [guerra santa] por amor de Allah, para libertar a Palestina, e todas as casas do Islão, dos cruzados. Durará até que a nossa religião prevaleça desde a Espanha ao Iraque”, afirmou ainda o líder terrorista, denunciando a traição de alguns “governos impo-tentes” de países árabes (que não nomeou) pela sua resposta frouxa à ofensiva de Israel.
‘PUBLICIDADE’ OPORTUNA
O aproveitamento dos acontecimentos em curso no Médio Oriente por parte da organização que se tornou símbolo do terrorismo islâmico no Mundo não deixa de ser curioso. É que o Hezbollah, movimento que está na origem do conflito em curso no Líbano, é de confissão xiita, a mesma que a al-Qaeda, sunita, tem visado em dezenas de atentados no Iraque. Aliás, noutros comunicados de Zawahiri e de bin Laden, os xiitas eram referidos como “infiéis”. Talvez por isso o Hezbollah não tenha sido referido no vídeo.
TERROR AINDA MAIS GLOBAL?
E a omissão é tanto mais flagrante quanto o acto que serviu de pretexto à guerra, o rapto de soldados israelitas, foi explicitamente referido. “Há dez mil prisioneiros de guerra nas prisões israelitas com os quais ninguém se preocupa, mas logo que três soldados de Israel foram apanhados o mundo todo ficou de pernas para o ar”, afirmou.
Além disso, o Iraque, e também o Afeganistão, foram recordados e ligados aos acontecimentos no Líbano para melhor mobilizar os ódios dos muçulmanos. Os acontecimentos no Líbano e Gaza (também alvo de uma incursão israelita) revelam a importância da batalha naqueles dois países, frisou Zawahiri. Para estas lutas foi pedido por isso, uma vez mais, o apoio dos muçulmanos de todo o Mundo.
Esta mensagem é já a sexta do n.º 2 da al-Qaeda desde o início do ano. A anterior foi divulgada no passado dia 7, aniversário dos atentados no Metro de Londres. Nesse dia, Zawahiri revelou que dois dos suicidas que levaram a cabo esse ataque foram treinados pela al-Qaeda.
PERFIL
Ayman al-Zawahiri é médico de formação e ocupa os tempos livres a escrever obras apologéticas e poesia. Nascido em 19 de Junho de 1951, no Egipto, liderou a organização Jihad Islâmica Egípcia até em 1998 integrar esse grupo na al-Qaeda, na criação da qual teve, segundo alguns, papel preponderante.
Ayman nasceu no seio de uma família de classe média num subúrbio do Cairo e quando jovem era descrito como estudante pacato e trabalhador. Mas a sua vida deu cedo passos no sentido do extremismo, provável resultado da Guerra dos Seis Dias, em 1967.
Ainda adolescente, filiou-se na Irmandade Muçulmana, grupo radical islâmico, e nos anos 80 foi para o Afeganistão combater a invasão soviética. Em 1996 era considerado pelos EUA o terrorista mais perigoso do Mundo.
AMADO QUER PROTAGONISMO DA UE
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, defendeu ontem a necessidade de “preservar a coesão e garantir um maior protagonismo da União Europeia [UE]” no conflito israelo-libanês, reiterando a disponibilidade de Portugal para “avaliar” a sua participação numa missão de paz.
“Estamos perante uma crise que exige a afirmação de uma dimensão estratégica político-militar da União Europeia como nunca teve no Médio Oriente”, salientou Amado, num debate no Parlamento sobre o conflito no Líbano, considerando ser “imperativo preservar a coesão a nível europeu”.
Questionado pelos partidos sobre a posição do Governo português acerca do conflito, nomeadamente sobre um cessar-fogo imediato, o ministro dos Negócios Estrangeiros reiterou que “só no quadro da UE Portugal tem alguma relevância”.
“Não tendo Portugal, como não teve no passado, um envolvimento unilateral no processo de paz no Médio Oriente, temos de ter a noção clara de que se temos responsabilidades a exercer e que as temos de exercer no quadro da UE”, insistiu o ministro dos Negócios Estrangeiros português.
DIVISÕES
Por seu lado, a oposição já se manifestou, de diversas formas, sobre esta matéria, tendo-se mostrado claramente dividida. Assim, enquanto o PSD e o CDS se declararam a favor do envio de tropas, o PCP e o Bloco de Esquerda manifestaram-se contra.
ISRAEL DIZ TER APOIO DO MUNDO
Israel considera ter sido autorizada pelo Mundo a continuar a ofensiva no Líbano. A afirmação é do ministro da Justiça, Haim Ramon, e baseia-se no facto de, no encontro internacional de Roma, na quarta-feira, não ter sido alcançado acordo para exigir um cessar-fogo imediato.
A Finlândia, país que detém a presidência rotativa da União Europeia, considerou a interpretação errada e instou Israel a parar a ofensiva.
Depois do fracasso de Roma, o desacordo internacional marcou também a reunião de ontem do Conselho de Segurança da ONU, na qual os EUA recusaram considerar a morte de quatro observadores da ONU no Sul do Líbano resultado de um ataque “deliberado” de Israel. A China, país de que provinha um dos observadores mortos por um míssil israelita, avisou Washington de que esta postura prejudicará a negociação do dossiê do nuclear do Irão.
Israel recusou, entretanto, a intenção de alargar a ofensiva em curso. “Decidiu-se continuar com a mesma estratégia, combinando incursões pontuais por terra com ataques aéreos”, afirmou fonte do governo. No mesmo dia, o presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, anunciou a libertação iminente de um soldado israelita raptado há mais de um mês em Gaza. Mas pouco depois foi desmentido pelo governo do grupo radical Hamas.
RICE NA CIMEIRA DA ASEAN
ASEAN.
A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, deslocou-se ontem à Malásia, onde decorre a cimeira da ASEAN. Rice explicou a posição americana face ao conflito israelo-libanês e mostrou-se disponível para negociar um cessar-fogo sustentável.
NOTAS
BUSH NÃO SURPREENDIDO
O presidente dos EUA disse não estar surpreendido com o vídeo de Zawahiri. George W. Bush adiantou que não quer uma “paz falsa”.
CASAL BELGA PROCESSA
Ali Abdul-Sater e Farkad el-Husseini, um casal belga de origem libanesa, vai processar líderes israelitas pelos bombardeamentos no Líbano.
PORTUGUESA FICA
Nadia Faour, de 67 anos, veio para Portugal aos 16 anos e casou com um luso. Após morte do marido, foi para o Líbano. Queria voltar, mas decidiu ficar.
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