Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo

Não deixo a família

O Bairro de Musharrafia, no centro de Beirute, onde vive uma larga comunidade cristã, foi ontem atingido por uma potente bomba israelita. A portuguesa Maria Margarida dos Santos, de 50 anos, vive nesse bairro, apenas a um quarteirão do local do impacto.
20 de Julho de 2006 às 00:00
O bombardeamento de ontem, o primeiro a visar o interior da capital libanesa, aumentou a ansiedade de Maria, que receia pela vida dos cinco filhos e três netos. Quando falou com o Correio da Manhã, a portuguesa não soube esconder uma ansiedade cansada, de quem vê aproximar-se o perigo sem poder fugir. Tudo porque as autoridades portuguesas há três anos adiam a resposta ao processo de naturalização dos seus filhos.
O estrondo causado ontem pelas bombas foi imenso, sendo sentido até no porto da cidade, a vários quilómetros de distância. Maria já tinha medo, agora não aguenta a tensão. Na família, apenas ela tem passaporte português, apesar de desde há três anos as suas três filhas adultas fazerem tudo para obter nacionalidade portuguesa.
“Queremos partir, mas todos juntos”, salientou ao CM Fhadia, de 29 anos, filha mais velha de Maria. Casada há um mês com Timothy Smith, analista de computadores inglês, Fhadia é professora de Francês em Beirute. Regressou há apenas dez dias de Londres e agora vê-se confrontada com a guerra e com um dilema que não sabe como solucionar. “Podia ir para Inglaterra, mas não quero deixar a família”, refere, salientando que o marido, que permanece em Londres, está preocupado mas percebe a sua reticência em deixar a mãe, irmãos e sobrinhos.
A revolta de Fhadia com as autoridades portuguesas torna-se evidente ao longo da conversa. “Agora que precisamos de partir dizem que não podemos porque temos passaporte libanês, mas isso não é culpa nossa”, sublinha, salientando que em três anos têm batido a todas as portas apenas para se deparar com um muro de burocracia e inércia. “Aqui o consulado diz-nos para falar para Ankara, mas de lá dizem-nos que não têm nada a ver com o caso, pois não vivemos na Turquia. E têm razão.”
CONDENADAS PELA INÉRCIA
Além desta remissão, algo estranha, para a capital turca, só explicável por razões de proximidade, ela e as irmãs têm sido ainda remetidas para a representação diplomática no Congo, devido aos laços de Maria com esse país. Mas também aí nada tem sido feito. “A única coisa que fizeram até hoje foi dar-nos números de telefone. Até parece que estão a brincar com a nossa cara”, frisa Fhadia. “Não queremos esmolas”, salienta a jovem luso-descendente, “apenas que nos tirem do país em segurança”.
Revoltada e desiludida, esclarece que não se trata de vir para Portugal, apenas de embarcar para o Chipre. Mas nem isto parece possível. “O cônsul português [Carlos Boudlos] hoje foi muito claro e até brutal. Disse-nos que sem documentos nada pode fazer. Vou tentar convencer a minha mãe a partir, pois anda demasiado nervosa, mas a mim só me resta ficar, pois não vou deixar as minhas irmãs e as crianças.” Nesta altura, a voz determinada que falava ao telefone perde a firmeza e é possível sentir as lágrimas perto de cair.
ABANDONADOS
Mas Maria também não quer separar-se de Fhadia e das outras filhas: Rima, de 24 anos, e Nadia, de 28. Esta, a filha do meio, foi abandonada pelo marido, que sem mesmo pedir o divórcio a deixou com os três filhos menores nas mãos: Antoine, de dez anos, Morgane, de sete, e Joane, de três. Nesta numerosa família há ainda Albert, de 14 anos, e Rima, de dez, filhos mais novos de Maria.
“Parti para o Líbano depois da morte do meu marido”, revela a portuguesa, natural da Guarda, cidade onde já não tem família. “Tenho alguns tios a viver na Bélgica”, refere, salientando que esse é o país para onde poderia partir.
A sua vida adulta está ligada ao Congo, onde viveu com o marido, um libanês, e onde nasceram e viveram os filhos até há pouco mais de três anos, quando o Líbano foi destino escolhido para trazer mais perto a memória do marido. Agora, mais do que a memória, é a violência e a morte que rondam esta portuguesa que o seu País não quer ajudar apenas porque aos filhos faltam os papéis que as nossas autoridades lhes têm negado.
"VOU A FÁTIMA REZAR"
Muito cansada mas aliviada, a portuguesa Cremilde Maria Navalhinhas chegou ontem a Lisboa vinda do Líbano, após uma viagem forçada provocada pelo agravamento do conflito no Médio Oriente. E chegou com uma promessa para cumprir: “Vou a Fátima rezar pelo país.” Recebida pela filha, Cristina Cavaco, e um grupo de amigos, Cremilde, de 62 anos, não descarta a possibilidade de regressar ao Líbano, onde esteve 14 meses como dama de companhia de uma libanesa. Refira-se que ontem também chegou a Lisboa proveniente do Líbano o religioso marista Teófilo Minga.
O DIA MAIS SANGRENTO
As bombas israelitas visaram ontem o coração de Beirute, naquele que foi o dia mais sangrento desde o início do conflito. Pelo menos 62 civis morreram no Líbano, entre eles seis militantes do Hezbollah. Em resposta, o grupo radical disparou mais de 70 ‘rockets’ sobre localidades israelitas, entre elas Nazaré, onde morreram cinco pessoas, e durante cinco horas envolveu-se em confrontos com soldados de Israel na zona de fronteira.
A troca de tiros aconteceu depois de uma incursão terrestre israelita no Sul do Líbano. Entretanto, um atentado em Telavive forçou à declaração do estado de emergência.
PORTUGAL ADMITE ENVIAR TROPAS
O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, defende “um papel mais activo da comunidade internacional na crise do Médio Oriente” e admite a possibilidade de os portugueses integrarem uma missão da ONU no Sul do Líbano.
Falando com jornalistas à saída de uma audiência com a Comissão dos Negócios Estrangeiros da Assembleia da República, Amado adiantou: “Somos favoráveis a uma acção diplomática mais consequente com um papel mais activo da comunidade internacional.”
Para o chefe da diplomacia portuguesa, a força de ‘capacetes azuis’ deve ter uma componente forte da presença da UE e, caso o Conselho de Segurança venha a pronunciar-se nesse sentido e a missão seja aceite por ambas as partes, há possibilidades de Portugal vir a integrá-la. Amado salientou que a posição de Portugal é a mesma da UE.
HÉRCULES C-130 RESGATA
Amado fez estas declarações no dia em que o Governo português enviou um avião Hércules C-130 para o Mediterrâneo para resgatar portugueses apanhados no meio do conflito.
O aparelho já está operacional, devendo hoje transportar de volta os dez portugueses que ontem deixaram Beirute. Um grupo de seis portugueses já chegou mesmo ao porto de Larnaca. Segundo fontes governamentais, o C-130 deverá transportar ainda cidadãos de outros países.
BREVES DA GUERRA
EUA EVACUAM MILHARES
Os estrangeiros continuam a sair em massa do Líbano. Os EUA aceleraram as operações de evacuação e até sexta-feira deverão sair 6000 americanos.
OLMERT ACUSA
O líder israelita, Ehud Olmert, acusou o Hezbollah de ter coordenado o rapto dos soldados com o Irão para desviar a atenção do seu programa nuclear.
SÍRIA E IRÃO 'SALVOS'
O vice-primeiro-ministro israelita, Shimon Peres, garantiu que está fora dos planos do seu governo atacar o Irão ou a Síria.
DAMASCO QUER VOLTAR
O presidente dos EUA, acusou o Irão e a Síria de apoiarem o Hezbollah contra Israel. George W. Bush afirma que Damasco quer voltar a ocupar o Líbano.
HARPER 'DESVIA' AVIÃO
O primeiro-ministro canadiano, Stephen Harper, que regressava de uma visita ofcial a Paris, fez desviar o seu avião para o Chipre para resgatar canadianos.
SINIORA PEDE AJUDA
O primeiro-ministro do Líbano, Fouad Siniora, pediu ajuda internacional para pôr fim aos ataques israelitas contra o seu país.
BUSH ENVIA SOLDADOS
O presidente dos EUA deverá enviar soldados para o Líbano para proteger os cidadãos e os interesses americanos.
SOLANA PEDE LIBERTAÇÃO
O responsável pela diplomacia da UniãoEuropeia, Javier Solana, pediu em Jerusalém a libertação imediata dos soldados sequestrados.
GUTERRES PREOCUPADO
O alto comissário da ONU para os Refugiados, António Guterres, considera que a insegurança não permite auxílio humanitário no Líbano.
CRIMES DE GUERRA
Louise Arbour, responsável de Direitos Humanos da ONU, considera que a crise no Líbano e Israel pode envolver crimes de guerra.
DEEP PURPLE EM BEIRUTE
Os lendários Deep Purple, que sábado tocam em Faro, têm concerto marcado para dia 28 nos arredores de Beirute e vão realizá-lo.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)