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"Não podemos continuar como se nada tivesse acontecido": Merz em choque após vitória da extrema-direita

Chanceler alemão recusa demitir-se e promete reformas pata travar ascensão da AfD.

08 de setembro de 2026 às 01:30

O chanceler alemão, Friedrich Merz, admitiu esta segunda-feira que a vitória histórica da extrema-direita nas eleições da Saxónia-Anhalt “terá consequências” para a Alemanha e para a Europa. “Não podemos continuar como se nada tivesse acontecido”, afirmou Merz, que foi eleito há pouco mais de um ano com a promessa de travar a Alternativa para a Alemanha (AfD) e vê agora o partido de extrema-direita ficar à beira de conquistar o poder estadual pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

“Estamos todos profundamente chocados. Não esperávamos, de modo algum, este desfecho”, reconheceu o chefe do governo alemão e líder da CDU, admitindo que o seu partido sofreu “uma das piores derrotas eleitorais em muitos anos, ou mesmo décadas”, perdendo mais de metade dos votos num estado que liderou durante 24 anos.

Embora ainda não seja claro se a AfD conseguirá formar governo, Merz garantiu que as instituições são sólidas e estão preparadas. “Temos uma Constituição forte, temos todos os instrumentos para defender a nossa Constituição contra um governo estadual de extrema-direita”, assegurou, apesar de admitir que o resultado da extrema-direita representa “um abalo tectónico no nosso sistema partidário”.

Merz lembrou ainda que a vitória da AfD “foi festejada a 2500 quilómetros de distância”, numa referência à Rússia. “Não nos desviaremos um milímetro da nossa convição fundamental de que temos de defender a nossa liberdade. Provavelmente, terei de explicar isto melhor e mais frequentemente”, admitiu, frisando que a ameaça russa à segurança interna da Alemanha “não é abstrata, é muito concreta”. “O objetivo da liderança russa é desestabilizar o sistema de valores daquilo a que chamamos o Ocidente. E esses valores não são negociáveis”, garantiu.

Sobre os desafios do futuro, Merz admitiu que a Alemanha “precisa de reformas”. “Estou consciente da minha responsabilidade pessoal para com o nosso país e estou determinado em ir ao encontro dessa responsabilidade”, garantiu Merz, afastando a possibilidade de se demitir após não ter conseguido cumprir a promessa de travar a ascensão da extrema-direita. “Desistir não é um opção”, sublinhou.

'Cordão sanitário' ameaçado

O candidato da AfD na Saxónia-Anhalt insistiu esta segunda-feira que o partido de extrema-direita “conquistou um mandato claro para governar” e anunciou que vai iniciar conversações com todos os partidos e “deputados individuais” para garantir apoio no parlamento estadual. “Os eleitores votaram pela mudança e essa mudança deve ser implementada”, defendeu. A AfD ficou a três lugares da maioria absoluta e todos os grandes partidos já garantiram que não irão viabilizar um governo de extrema-direita, respeitando o ‘cordão sanitário’ contra o partido populista e anti-imigração. No entanto, a pequena Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), um pequeno partido de extreme-esquerda que elegeu cinco deputados, admitiu “conversar” com a extrema-direita. Apesar de estarem em polos opostos do espectro político, ambos os partidos partilham posições pró-russas e anti-imigração, e vários analistas acreditam que poderão chegar a algum tipo de entendimento. Por outro lado, para excluir a AfD do governo, seria necessária uma coligação de cinco partidos - CDU, SPD, Verdes, Linke e BSW - , algo que os analistas consideram pouco provável. No ano passado, após a vitória minoritária da AfD na vizinha Turíngia, CDU, SPD e BSW chegaram a acordo para formar uma coligação de governo alternativa.

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