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Correio da Manhã

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Não queríamos matar

O terrorista Osman Hussein, detido em Roma na sexta-feira, confessou tudo, mas afirma que a intenção dos atentados de dia 21, em Londres, era apenas “semear o terror”. “Não temos nenhuma relação com a al-Qaeda. Agimos sozinhos”, garantiu ainda, antes de enfrentar uma audiência para determinar a sua extradição para o Reino Unido.
31 de Julho de 2005 às 00:00
Hussein, o quarto bombista, surge com a barba cortada nas fotografias da polícia italiana
Hussein, o quarto bombista, surge com a barba cortada nas fotografias da polícia italiana FOTO: Alessandro Di Meo/EPA
Hussein acusou Muktar Said Ibrahim, um dos detidos de ontem em Londres, de ser o cabecilha do grupo. “Costumava frequentar um ginásio em Notting Hill onde conheci Muktar. Foi ele quem me deu as instruções para o atentado e ensinou-me a fabricar as bombas”, afirmou, sublinhando que a sua motivação nada tem a ver com a religião.
“Muktar mostrava-nos imagens da guerra no Iraque e dizia que tínhamos de fazer uma coisa em grande, uma acção violenta, mas sem provocar mortos, apenas como acto demonstrativo, para semear o terror”, afirmou ainda e garantiu que a sua ida para Itália não está relacionada com nenhuma intenção de levar a cabo novos atentados.
O jovem de 26 anos, natural da Etiópia e não da Somália, como inicialmente foi divulgado, terá fugido de Londres há dois dias, auxiliado por uma rede de cúmplices eritreus e etíopes, afirma a polícia italiana.
Antes de chegar a Roma, onde se hospedou na casa do irmão, passou por Paris, Milão e Bolonha, tendo mantido contactos telefónicos com várias pessoas, entre elas o pai, residente em Brescia.
Segundo fontes policiais, a intercepção das chamadas do telemóvel permitiu localizá-lo depois de as autoridades britânicas fornecerem aos italianos um número com o qual o suspeito mantinha contactos.
A sua captura aconteceu no apartamento do irmão, que forneceu a chave e descreveu a casa a pedido da polícia. Os agentes encontraram-no na sala e, segundo a sua descrição, não opôs resistência, nem mostrou medo. “Obedeceu às nossas ordens e até falou italiano. Não descobrimos armas ou explosivos em casa”, afirmou um dos agentes italianos.
O mesmo não aconteceu nas detenções de Londres, que forçaram os agentes a usar todos os meios. Segundo testemunhos ontem divulgados, Said Ibrahim recusava entregar-se dizendo ter medo de ser abatido, como o brasileiro Charles de Menezes. E gritava: “Tenho direitos”. Esta exigência de respeito pelos seus direitos humanos chocou alguns agentes, que pensaram: “Então e os direitos dos inocentes que queriam matar?”.
A captura encerrou as buscas pelos quatro bombistas dos atentados falhados de dia 21. Na quarta-feira tinha sido detido Yassin Hassan Omar, e sexta-feira, em Londres, foram detidos Ibrahim e Ramzi Mohamed – o bombista até agora por identificar – e Wahbi Mohamed, irmão de Ramzi.
Em Itália a prisão de Hussein levou a polícia a pelo menos 15 moradas suspeitas, de prováveis cúmplices.
POLÍCIA INICIA INTERROGATÓRIO DE SUSPEITOS
A polícia britânica começou ontem a interrogar os três suspeitos detidos em Londres na sexta-feira. Muktar Said Ibrahim e Ramzi Mohamed, estão identificados como dois dos quatro autores dos atentados falhados de dia 21, e o terceiro, Wahbi Mohamed, irmão de Ramzi, poderá ser o homem que largou uma bomba num parque de Little Wormwood, Oeste de Londres. O quarto suspeito, capturado em Itália, aguarda extradição.
Entretanto, dois novos suspeitos detidos ontem em Leicester foram libertados após algumas horas de interrogatório. A polícia negou qualquer relação entre as capturas e a investigação dos atentados dos dias 7 e 21.
Está ainda por esclarecer quem são as duas mulheres detidas também na sexta-feira, na estação de metro de Liverpool Street. Algumas fontes afirmam tratar-se de duas asiáticas, mas as autoridades não avançaram pormenores.
Saliente-se que até ao momento não foi encontrada qualquer relação entre o grupo de suicidas do massacre de 7 de Julho e os suspeitos agora detidos. O vice-comissário da Scotland Yard Peter Clarke considera que sexta-feira foi “o melhor dia” das buscas, mas sublinhou que as capturas não eliminaram o risco de novos atentados. “A ameaça permanece e é bem real”, afirmou, adiantando que o estado de alerta muito elevado vai permanecer em vigor por um prazo indeterminado.
À MARGEM
HOLANDA SOB AMEAÇA
A Holanda enfrenta uma ameaça de terrorismo “substancial”, afirmou ontem um responsável do governo. Tijbe Joustra, coordenador nacional da luta contra o terrorismo, defende o aumento dos esforços de prevenção e uma informação da população sobre os riscos. “Um ataque é muito possível”, afirmou, salientando que não se sabe quando nem como.
VIGILÂNCIA REFORÇADA
A Austrália vai reforçar as medidas de segurança contra o terrorismo nas principais cidades. Em Sidney vai ser colocado um esquadrão de 12 helicóptero ‘Black Hawk’ e cerca de 200 operacionais. Deslocado de Townsville, o esquadrão tem como missão principal “responder a ameaças terroristas contra a Austrália”, afirmou o ministro da Defesa, Robert Hill.
SEGURANÇA DE LADEN
Haroon Rashid Aswat, um britânico de 31 anos detido na Zâmbia e considerado o possível arquitecto dos atentados de dia 7, em Londres, afirmou que foi guarda-costas de Osama bin Laden, revela a Imprensa britânica. Citando fontes dos serviços secretos da Zâmbia, o jornal ‘The Times’ adianta ainda que o suspeito está em fuga desde 1999, altura em que terá sido enviado aos EUA por um pregador radical para criar um campo de treino no Oregon.
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