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Neoconservador com coração

Grande parte do que foi escrito sobre mim não passa de uma caricatura sem fundamento.” O desabafo é de Paul Wolfowitz, actual presidente do Banco Mundial, antigo ‘número dois’ do Pentágono e frequentemente descrito na Imprensa como ‘falcão da direita’, ‘arquitecto da invasão do Iraque’ e ‘alto sacerdote’ dos neoconservadores da administração Bush. A sua nomeação para o Banco Mundial foi vista por muitos como uma tentativa da Casa Branca para controlar a organização, mas foi o escândalo de favorecimento da namorada que o deixou com a cabeça no cepo numa altura em que tentava instituir o combate à corrupção como principal bandeira da organização.
21 de Abril de 2007 às 00:00
Neoconservador com coração
Neoconservador com coração FOTO: d.r.
Pode uma pessoa que passou praticamente toda a sua carreira política a defender a supremacia da América, tanto no plano político como militar, assumir da forma isenta a presidência de uma instituição de cariz global e independente dedicada a combater a pobreza no Mundo sem olhar a regimes políticos e interesses geoestratégicos? Foi esta a principal questão levantada quando da nomeação de Wolfowitz para a presidência do Banco Mundial, em 2005. Considerado um dos neoconservadores mais influentes da administração Bush no período pós-11 de Setembro, Wolfowitz tinha contra si o facto de ter sido um dos principais arquitectos, juntamente com Donald Rumsfeld, da invasão do Iraque, para além do facto de não ter nem o perfil nem a experiência necessários para o cargo. Muitos administradores do Banco Mundial, principalmente os europeus, encararam a sua nomeação com desconfiança, receosos que Wolfowitz não passasse de um ‘peão’ da administração Bush com a missão de submeter o Banco Mundial aos interesses estratégicos norte-americanos.
Apesar de na juventude ter abraçado os ideais democratas – chegou a participar na marcha pelos direitos cívicos de Martin Luther King Jr, em Washington – Wolfowitz acabou por virar à direita após uma passagem pela Universidade de Chicago, onde conheceu Leo Strauss e Albert Wohlstetter, percursores da corrente neoconservadora, cujos ideais viria a adoptar e desenvolver. Já em 1997, quando era director da Faculdade de Estudos Internacionais da Universidade Johns Hopkins, assinou com Zalmay Khalilzad (que viria a ser embaixador dos EUA em Bagdad) um artigo defendendo o “uso da força” como estratégia para libertar o Iraque da tirania de Saddam Hussein, uma ideia que voltou a defender com veemência logo após o 11 de Setembro e que acabaria por dar frutos em 2003.
Quem o conhece de perto descreve um homem sensível e de bom coração, que mais não faz que defender os ideais em que acredita. John Cassidy, jornalista da revista ‘New Yorker’ que acompanhou Wolfowitz, de 63 anos, numa recente visita à Turquia, relatou o seu à-vontade no contacto com os pobres e o genuíno interesse que manifestou pelos seus problemas.
Apesar de toda a sua influência na administração Bush, Wolfowitz nunca ocupou uma posição de liderança e responsabilidade até ser nomeado para a presidência do Banco Mundial – durante muito tempo foi mesmo considerado “o subalterno mais eficiente de Washington”. Causou surpresa, por isso, a forma determinada como assumiu o novo cargo e ousou colocar em causa um dos pilares do seu funcionamento: a distribuição de ajuda ao desenvolvimento, que procurou condicionar à honestidade dos governos. Tal zelo na luta contra a corrupção não deixa de ser irónico para um homem que é agora acusado de nepotismo por ter mandado aumentar e promover a namorada.
FEZ CARREIRA NA POLÍTICA
Nascido a 1943 em Brooklyn, Nova Iorque, filho de um imigrante polaco, Paul Dundes Wolfowitz estudou Ciências Políticas e começou a trabalhar para o governo mal deixou a Universidade de Chicago. Fez carreira no Departamento de Estado, passando por várias comissões e gabinetes antes de ser nomeado embaixador na Indonésia.
Depois de uma breve passagem pelo ensino durante a administração Clinton, regressou à política como vice-secretário da Defesa do governo Bush – tendo sido um dos principais defensores da invasão do Iraque – cargo que abandonou em 2005 para ocupar a presidência do Banco Mundial. É divorciado e tem três filhos do primeiro casamento.
ACUSADO DE NEPOTISMO
Como presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz fez do combate à corrupção a sua grande prioridade. No entanto, ele próprio é acusado de nepotismo, por alegadamente ter favorecido a namorada, também ela funcionária do Banco Mundial. Quando tomou posse, em 2005, Wolfowitz tornou pública a sua relação com Shaha Riza, funcionária do Departamento do Médio Oriente da organização.
Para evitar potenciais “conflitos de interesse”, Riza foi transferida para o Departamento de Estado, mas não sem antes receber dois generosos aumentos e uma promoção. Wolfowitz reconheceu ter errado, mas recusou demitir-se.
SALIVA E MEIAS ESBURACADAS
Apesar de reconhecidamente inteligente e politicamente brilhante, Paul Wolfowitz tem um certo ar simplório que não deixa de ser explorado pelos críticos. Duas imagens contribuíram para essa ideia: a primeira é do filme ‘Fahrenheit 9/11’, de Michael Moore, e mostra Wolfowitz a cuspir uma dose generosa de saliva para um pente para alisar o cabelo antes de uma entrevista; a outra é a das meias esburacadas apanhadas pelos fotógrafos quando se descalçou durante uma recente visita a uma mesquita na Turquia.
As suas declarações polémicas também não ajudaram. Ainda hoje, muitas pessoas se lembram da forma entusiástica como o então vice-secretário da Defesa dos EUA defendeu a invasão do Iraque, afirmando que os soldados norte-americanos seriam recebidos de braços abertos pela população, e de como garantiu que a guerra seria confortavelmente paga com a exploração dos recursos petrolíferos iraquianos.
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