Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
8

Net ajuda mulher violada a sobreviver

É uma história de horror , ainda sem final feliz mas com alguma esperança. Mukhtar Mai, mulher paquistanesa e analfabeta, foi violada em 2002 por uma turba de energúmenos. Por lei. o seu corpo foi tomado por ordem das autoridades locais.
16 de Abril de 2006 às 00:00
Mukhtar Mai assistiu ao julgamentos dos homens que a violaram
Mukhtar Mai assistiu ao julgamentos dos homens que a violaram FOTO: EPA
O crime: o irmão tinha-se relacionado com uma mulher de casta superior. Uma tão ‘justa’ tradição deveria ter depois o seu epílogo: Muktar tinha de se suicidar. Recusou. Contra tudo e contra todos. Abraçou a internet, criou uma ONG e abriu duas escolas de autodefesa. Um milagre de sobrevivência.
Quando tinha 18 anos, Mukhtar foi casada à força com um homem que nunca tinha visto. “Um preguiçoso” e “um inútil”. A tal ponto que até o pai a ajudou, pouco depois, a obter o divórcio. Sem saber ler nem escrever, aprendeu o Corão de memória. “Era a única coisa que me podia salvar”, afirma. Foi também o Corão que apertou contra o peito quando os pais, aterrorizados, lhe pediram para ir entregar-se à família Mastoi.
O seu irmão, Shakkur, de 12 anos, tinha sido visto com Salma, de 20. Os Mastoi pertenciam a uma casta superior e esperavam-na, cerca de 150, ávidos de sangue e vingança. Vingança essa permitida pelo mullah local, que estava presente.
Mukhtar prostrou-se ante os Mastoi, em sinal de submissão. Quatro deles agarraram-na, meteram-na num estábulo, “e perdi a noção do tempo”. De seguida expulsaram-na, meia despida. Como um cão. “Nunca poderei esquecer”, afirmou em Madrid, no passado dia 29 de Março. Rebelou-se contra o que o seu instinto lhe dizia ser uma injustiça. Apesar de tudo em seu redor a convidar a calar-se e a morrer.
Fez contactos. Atraiu a atenção internacional. Conseguiu, de forma tenaz, que julgassem os seu violadores. A internet foi a salvação de Mai. O seu caso espalhou-se como pólvora, e dos EUA e França chegou uma pressão poderosa. No julgamento dos seus violadores chegou a intervir o próprio presidente Musharraf.
Todo o poder de Mai se concentra agora numas quantas letras:mukhtarmaiww@yahoo.com. Graças ao seu ‘mail’ e à palavra solidariedade, Mai criou uma ONG de autodefesa e duas escolas em Meerwala. “Comecei com três crianças, agora há 300”. Não perdeu a fé no Corão: Não teve nada a ver com a injustiça que se cometeu comigo”. Pelos seus violadores ainda sente “raiva”, mas, se os tivesse frente a si, não lhes diria “nada, porque não quero olhar para trás”.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)