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Correio da Manhã

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NON, MONSIEUR BUSH

Na Cimeira de líderes da NATO que terminou esta terça-feira em Istambul, o presidente francês pouco ou nada disfarçou a sua oposição geoestratégica ao homólogo norte-americano. Jacques Chirac disse que George W. Bush nada tem a ver com a entrada da Turquia na União Europeia, bloqueou o uso da Força de Reposta aliada no Afeganistão e declarou que a NATO não deve ter qualquer papel no Iraque.
29 de Junho de 2004 às 17:51
“Somos amigos (dos EUA), somos aliados. Não somos criados. E quando não estamos de acordo não o dizemos de forma agressiva, mas dizemo-lo de forma firme”, explicou Jacques Chirac, em conferência de imprensa em Istambul. E firmeza, de facto, foi o que não faltou ao presidente francês face à condução da agenda dos aliados por parte dos norte-americanos nesta cimeira.
A cimeira começou com um jantar informal, no domingo à noite, provavelmente dominado pela questão da escolha do próximo presidente da Comissão Europeia, com Durão Barroso a aproveitar o momento para contactos pessoais com parceiros europeus na Aliança Atlântica.
Pela manhã de segunda-feira, os chefes de Estado e de Governo aliados preparavam-se para dar início à cimeira em Istambul quando foram surpreendidos pela notícia da concretização da devolução da soberania aos iraquianos. A transferência foi antecipada em dois dias, coincidindo com o início da cimeira da NATO e servindo bem o apelo que o novo primeiro-ministro iraquiano, Iyad Allawi, fez chegar à cimeira da Aliança, fortemente apoiado pelos EUA.
IRAQUE
O novo governo interino iraquiano pediu e a delegação norte-americana em Istambul negociou o envolvimento militar da NATO no Iraque. George W. Bush, que vai manter 140 mil soldados norte-americanos no Iraque, está sob forte pressão interna (em ano de presidenciais) para provar que tem aliados na sua política iraquiana. Jacques Chirac resistiu o máximo que pôde e após difíceis negociações os aliados conseguiram concordar apenas na disponibilidades da NATO em ajudar na formação do futuro Exército iraquiano.
O documento que sustentou esta decisão tem um texto vago, não definindo em concreto os moldes dessa missão de formação, que serão negociados mais tarde. Os norte-americanos apressaram-se a interpretar o acordo como viabilizando o envio de uma missão militar da NATO para o Iraque. Mas Chirac, mais uma vez, veio a público dizer que não entende a missão de formação como obrigando ao envio de unidades militares da NATO para o Iraque (bastarão instrutores) e insistiu em como a NATO não deve ter sequer um papel activo no Iraque.
AFEGANISTÃO
O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, pediu à NATO um reforço da sua presença militar naquele país por ocasião das eleições de Setembro próximo. Numa reunião entre ministros da Defesa de países membros da NATO, em Istambul, o norte-americano Donald Rumsfeld pediu o envio para o Afeganistão da recém-criada Força de Resposta da NATO (NRF).
Também sobre esta matéria, Jacques Chirac disse ‘não’, alegando que aquela força foi criada para lidar com situações de emergência e não com casos velhos. Segundo comentaram diplomatas nos corredores, a França foi o único país a opor-se ao pedido de Karzai e isso deixou Rumsfeld furioso.
O secretário norte-americano da Defesa tentou ainda uma manobra politicamente deselegante, propondo a NATO recorresse, quando necessário, ao seu Comité de Planeamento de Defesa, para aprovar a deslocação da NRF. É que, como a França não está incluída na estrutura militar integrada da NATO, não tem assento naquele Comité. Mas também aqui Rumsfeld foi derrotado. Os aliados mantiveram a premissa de que o uso da NRF apenas pode ser decidido pelo Conselho do Atlântico Norte, a cimeira de líderes onde a França tem assento.
A Força de Resposta da NATO foi criada no ano passado, mas só deve estar completamente operacional em Outubro de 2006. Trata-se de uma força militar equipada com o mais moderno armamento, composta por até 20 mil soldados de elite, com um forte contingente francês, e dotada de grande mobilidade, criada para intervir rapidamente em momentos e zonas de crise.
Assim, o pedido de Karzai teve como resposta uma promessa de simples reforço da missão da NATO no Afeganistão. Essa missão, composta por 6.500 soldados, quase todos concentrados na zona da capital afegã, Cabul, vai ser reforçada em 1.500 homens. Mil vão para Cabul e 500 vão ser divididos pelas cinco equipas de reconstrução com apoio militar que estão espalhadas nas províncias do Norte do Afeganistão.
TURQUIA
Tentando apelar a alguns aliados também membros da União Europeia e estabelecendo uma ponte politicamente oportuna entre os mundos Ocidental e Muçulmano, George W. Bush defendeu na Turquia a adesão daquele país à União Europeia, uma decisão que os líderes europeus agendaram para Dezembro próximo.
Chirac, mais uma vez, foi a voz da discórdia. O presidente francês, forte opositor da adesão da Turquia, declarou publicamente que George W. Bush nada tem a ver com esta matéria. “Se o presidente Bush disse o que eu li, bem, ele não só foi longe demais como entrou num domínio que não é o seu (...) Era como se eu dissesse aos EUA como devem gerir as suas relações com o México”, declarou o presidente francês.
Neste particular Bush contra-atacou, repetindo hoje, numa universidade turca, a sua esperança de ver a Turquia na UE. É que esta linha é partilhada pela Alemanha, Reino Unido, Espanha e Itália e, ao insistir no tema, Bush está a devolver o incómodo político a Jacques Chirac.
O presidente francês apercebeu-se do impacte a prazo desta ingerência norte-americana nos assuntos comunitários europeus e não deixou o ‘amigo’ Bush sem resposta. Hoje mesmo, o presidente francês enviou o seu ministro dos Negócios Estrangeiros ao encontro do presidente palestiniano, Yasser Arafat, na Cisjordânia. E Chirac reforçou esta sua decisão fazendo declarações públicas de crítica à estratégia de isolamento de Arafat seguida por Washington.
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