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Correio da Manhã

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Noruega vira à esquerda

A democracia tem destas coisas. A Noruega é considerada pela ONU, desde 2001, o melhor país no Mundo para se viver. O período corresponde ao mandato governativo da coligação conservadora liderada por Kjell Magne Bondevik, mas os eleitores decidiram entregar o poder a uma aliança de esquerda, através da qual os socialistas chegam pela primeira vez ao governo do país.
13 de Setembro de 2005 às 10:04
As novas faces do poder na Noruega (da esq. para a dir.): a líder socialista Kristin Halvorsen, o trabalhista Jens Stoltenberg e a líder centrista Aslaug Haga
As novas faces do poder na Noruega (da esq. para a dir.): a líder socialista Kristin Halvorsen, o trabalhista Jens Stoltenberg e a líder centrista Aslaug Haga FOTO: Reuters
A aliança de esquerda "Vermelho-Verde", que integra o Partido Trabalhista, a Esquerda Socialista e o Partido do Centro, é liderada por Jens Stoltenberg, 46 anos, primeiro-ministro entre 2000 e 2001.
A coligação liderada por Stoltenberg conquistou maioria parlamentar, conseguindo 88 dos 169 assentos no Parlamento de Oslo, contra 81 assentos para a coligação de Bondevik - Partido Cristão do Povo (de Bondevik), Partido Conservador e Partido Liberal -, incluindo o aliado informal anti-imigração, Partido Progressista. "Não temos uma boa resposta", declarou Bondevik, 58 anos, quando interpelado pelos jornalistas sobre as razões que terão levado o eleitorado a optar pela alternância no país 'mais confortável' do Mundo.
Numa análise de pormenor verifica-se uma vitória ainda mais vincada dos trabalhistas, que subiram de 43 para 62 assentos parlamentares. Os socialistas, apesar de chegarem pela primeira vez ao poder (devido à aliança eleitoral que integram), perderam 8 assentos parlamentares (agora têm 15) para os trabalhistas. O Partido do Centro, também da coligação vencedora, conquistou mais um lugar, ocupando agora 11 assentios parlamentares.
Destaque ainda para o Partido Progressista, uma formação de extrema-direita equiparada á Frente Nacional francesa de Le Pen, que se tornou no segundo partido mais votado na Noruega, ao conquistar 37 assentos parlamentares. O Partido Progressista era aliado informal do governo de coligação conservador agora derrotado nas urnas.
Os resultados legislativos na Noruega foram surpreendentes. Se, por um lado, transformaram a extrema-direita na segunda formação politico-partidária do país, por outro lado devolveram o poder aos trabalhistas, partido dominante desde a década de 30, mas obrigaram esse partido a governar em coligação (o que nunca fizeram desde a II Guerra Mundial) e permitiram assim que os socialistas chegassem pela primeira vez ao governo de Oslo.
O que aconteceu? Nem o primeiro-ministro derrotado percebe. A Noruega beneficia do facto de ser o terceiro maior exportador de petróleo no Mundo. É um país rico, onde um fundo de reservas financeiras para futuras gerações atingiu recentemente os 190 mil milhões de dólares, ou 41 mil dólares para cada um dos 4,6 milhões de noruegueses. É considerado pela ONU o país mais 'confortável' do Mundo. Mas os eleitores optaram pela alternância, devolvendo o poder aos trabalhistas.
Mais surpreendente ainda é o facto de Stoltenberg ter dito que a Noruega pode fazer melhor com as volumosas receitas do petróleo e - pasme-se - ter proclamado que os cortes fiscais feitos pelo governo conservador não estão de acordo com a tradição nórdica. Stoltenberg ganhou as eleições prometendo à partida aumentar os impostos (para os níveis de 2004) e a despesa pública (aumento moderado, para não pressionar em demasia as taxas de juro).
E mais. Stoltenberg não vai governar sozinho. O primeiro-ministro eleito vai ter de formar uma coligação e para isso vai ter de conjugar os diferentes interesses dos três partidos da aliança "Vermelho-Verde". E, ao formar essa coligação, Stoltenberg vai, provavelmente, nomear o primeiro ministro socialista (ou ministros) na História da Noruega.
O que poderá ter convencido os noruegueses a optar pela esquerda é a garantia de segurança social absoluta sob protecção estatal. A via mais liberal, por onde porventura a coligação conservadora estaria a avançar, poderá ter assustado os noruegueses. Mas os trabalhistas são favoráveis à entrada da Noruega na União Europeia, o que poderá assustar ainda mais os noruegueses, pelo que é pouco provável que o assunto entre na agenda governativa. Mais provável é a retirada das tropas norueguesas do Iraque e do Afeganistão, uma promessa eleitoral que poderá também ter contribuído para esta surpreendente reviravolta.
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