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Correio da Manhã

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O espanhol tranquilo

Moderado e conciliador são os adjectivos que melhor definem a personalidade pessoal e política de José Luis Rodríguez Zapatero. Foi, aliás, com um apelo à moderação que tomou posse do cargo de secretário-geral do PSOE, em 22 de Julho de 2000, afirmando que a mudança que pretendia incrementar no partido era “tranquila, serena e disciplinada”.
1 de Abril de 2006 às 00:00
Mas a tranquilidade e moderação não o impediram, enquanto primeiro-ministro, de levar por diante, com pertinácia e disciplina, uma reforma de fundo da sociedade espanhola que, segundo os críticos, ameaça desagregar o país, mas que, segundo os adeptos, pode enfim trazer a paz e a harmonia a uma Nação dividida em nações com convivência frequentemente pouco pacífica com o poder centralizado.
A postura discreta de Zapatero tem, por isso, contrastado com a visibilidade e a polémica causada por inúmeras das suas medidas desde a eleição para primeiro-ministro, em 14 de Março de 2004, três dias após os sangrentos atentados no coração de Madrid. No discurso de tomada de posse, a 15 de Abril, voltou a prometer uma “mudança tranquila” e garantiu que governaria “com base no diálogo” mas “firme nos princípios”. Talvez seja por isto mesmo que a agenda reformista do governo ainda não deixou de incomodar os sectores mais conservadores.
A polémica começou cedo. Depois de mudar a lei para facilitar os processos de divórcio, o líder do governo causou um abalo ainda mais severo nos valores tradicionais da Espanha católica ao legalizar o casamento entre homossexuais. As medidas tendentes a alterar o financiamento da Igreja Católica e a modificação dos princípios da educação religiosa na escola revelam, segundo os críticos, a vontade deliberada de atacar a Igreja. Curiosamente, o escândalo e a revolta repercutiram sobretudo na hierarquia religiosa, pois a maioria da população mostrou-se favorável à reforma em curso.
NEGOCIAR COM A ETA
Mas os aspectos da política interna de Zapatero que nos últimos meses mais tinta têm feito correr são, sem dúvida, o alegado diálogo secreto que manteve com a ETA e a negociação de um novo estatuto autonómico para a Catalunha. As negociações com os terroristas bascos foram duramente criticadas pelo Partido Popular (PP) e pelo seu líder, Mariano Rajoy, mas o tom deste suavizou-se depois de a ETA anunciar, há pouco mais de uma semana, uma trégua definitiva.
O anúncio dividiu a Espanha entre os cépticos e os optimistas. Mas todos desejam que este seja o primeiro passo para o fim de quase 40 anos de luta armada pela independência do País Basco durante os quais foram assassinadas pelo menos 800 pessoas.
Perante a possibilidade de a consagração da paz poder implicar a libertação de terroristas condenados e o perdão a outros ligados a actos de sangue, como o líder do Batasuna, Arnaldo Otegi, os críticos voltam a lembrar a Zapatero as promessas reiteradas de que não teria “mão leve com os terroristas” e que não deixaria os nacionalismos ameaçarem a unidade de Espanha.
O alerta funda-se no facto de a negociação com a ETA e a abertura ao nacionalismo catalão, que esta semana viu aprovado no Parlamento Nacional o novo texto autonómico, se insinuarem como – na mais benigna das leituras – passos no sentido da criação de uma federação de Nações Ibéricas, que poderá, ou não, vir a ser unida simbolicamente pela figura do rei.
Se para uns este projecto é indefensável, e por isso Zapatero deve ser impedido de o realizar, para outros o que não tem perdão é a hipocrisia do líder do governo, que nega com a palavra o que dá com o gesto.
VIDA PESSOAL RESERVADA
José Luis Zapatero foi um jovem tímido e reservado, pelo que não se lhe conhecem desvarios durante os tempos de estudante. Segundo ele mesmo afirma, em 1981 apaixonou-se à primeira vista por Sonsoles Espinosa, colega no curso de Direito em Léon. O casamento aconteceu em 1990. Sonsoles é cantora clássica e integra o coro da RTVE.
Zeloso de manter reservada a vida pessoal, o casal comparece em público o menos possível e mantém longe da ribalta as filhas, Laura e Albal (de 12 e 10 anos). A Imprensa espanhola ironiza com a discrição de Sonsoles afirmando que, apesar de ser cantora, a maioria dos espanhóis não conhece a sua voz, pois nunca fala em público.
RELAÇÕES TENSAS COM GEORGE W.BUSH
A ‘inimizade’ entre José Luis Zapatero e os EUA começou por causa da guerra no Iraque numa altura em que o líder socialista ainda estava na oposição. A 12 de Outubro de 2003, durante um desfile militar, Zapatero permaneceu ostensivamente sentado quando a bandeira norte-americana passou frente a ele.
Como depois explicou, não quis ofender os cidadãos dos EUA mas sim protestar contra a guerra, encetada em Março desse ano. Na campanha eleitoral para as legislativas do ano seguinte, Zapatero prometeu retirar as tropas espanholas do teatro de operações se o controlo do Iraque não fosse concedido à ONU até 30 de Junho de 2004.
Eleito a 14 de Março, no cenário emocional dos atentados de Madrid, acabou por cumprir a promessa muito antes da data que ele mesmo estabeleceu. O presidente George W. Bush nunca perdoou Zapatero e , quando no final de 2004 foi reeleito, rejeitou atender o telefonema de felicitações do líder do governo espanhol.
A FIGURA
SOCIALISTA DE FAMÍLIA
José Luis Rodríguez Zapatero, nasceu em Valladolid (1960), numa família de classe média de convicções socialistas. Viveu e estudou em Léon, onde frequentou um colégio católico e se licenciou em Direito. Em 1976, um ano após a morte de Franco, assistiu ao primeiro comício socialista. A impressão que lhe causou marcou o seu futuro próximo.
Dez anos depois foi eleito pelo PSOE, tornando-se o mais jovem deputado da Assembleia. Conciliador mas determinado, teve ascensão rápida no partido, chegando à liderança em 2000. Quatro anos depois acedeu à chefia do governo, tornando-se, aos 43 anos, o quinto primeiro-ministro da democracia espanhola.
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