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Correio da Manhã

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O FIM DA COLIGAÇÃO DE BUSH

Em Março de 2003, quando a ONU se negou a elaborar uma resolução de apoio à invasão do Iraque, um alto funcionário de George W. Bush anunciou a formação de uma coligação disposta a atacar aquele país, a qual, segundo a sua perspectiva, tornaria desnecessário o aval das Nações Unidas.
21 de Julho de 2004 às 00:00
O sequestro de um filipino precipitou a decisão de manila, que retirou as suas tropas
O sequestro de um filipino precipitou a decisão de manila, que retirou as suas tropas FOTO: Mohammed (EPA)
"Muitos países contam com a resolução bem como com a 'força' para actuar contra a ameaça que pende sobre a paz e, por isso, estamos a formar uma grande coligação para fazer cumprir as exigências do Mundo. O Conselho de Segurança das Nações Unidas não soube estar à altura das suas responsabilidades, mas nós saberemos assumir as nossas", afirmou então.
Tratava-se de uma aliança sem nenhuma semelhança à que participou na Guerra do Golfo de 1991, quando a comunidade internacional - incluindo as nações árabes - se mobilizaram contra Saddam Hussein depois de este ter invadido o Koweit. Em 2003, entre os aliados que apoiaram a guerra de Bush, figuravam vários países sem peso estratégico nem militar, como a Mongólia, Honduras ou Filipinas - um exemplo da escassa credibilidade que oferecia.
Na realidade, a coligação criada por Bush era pura maquilhagem para revestir uma invasão de carácter quase colonial, já que seriam as tropas norte-americanas e britânicas as únicas que entrariam em combate. Em Julho daquele ano, cerca de 180 mil soldados internacionais chegaram ao largo da antiga Mesopotâmia.
Mas 18 meses depois da guerra, a coligação desmorona- -se. Das 32 nações que se envolveram na invasão, quatro abandonaram-na, outras quatro estão a retirar-se e mais três poderão fazê-lo no próximo ano.
Inevitavelmente, o princípio do fim da coligação foi marcada pela Espanha, com a sua polémica retirada. Quando, em Abril passado, Rodriguez Zapatero anunciou a retirada dos 1300 espanhóis, muitos países puseram em causa a sua implicação.
Os aliados tinham enviado milhares de homens para reconstruir e ajudar a normalizar um país arrasado, mas a situação que encontraram no terreno foi bastante diferente: qualquer soldado estrangeiro era visto como um inimigo e essa realidade obrigou as tropas a alterar a sua missão humanitária para uma autodefensiva baseada num único objectivo: ter o menor número possível de baixas.
Depois de Espanha seguiram-se os contingentes latino-americanos. Honduras e República Dominicana retiraram os seus homens pouco depois da saída dos espanhóis; a Nicarágua fê-lo um pouco antes. No total, os Estados Unidos fica-ram com menos dois mil homens.
Era apenas o início. Pouco depois as Filipinas, Noruega, Nova Zelândia e Tailândia expressavam o seu desejo de abandonar a coligação, uma vez que as suas tropas tinham cumprido a sua missão inicial. Manila já retirou as suas tropas, mas é de supor que os restantes três consumarão a sua retirada antes do Outono. A Noruega finalizará a sua retirada este mês, sendo que a Nova Zelândia e a Tailândia têm previsto fazê-lo em Setembro.
No caso das Filipinas, o regresso foi antecipado depois do sequestro de um cidadão filipino. O grupo que o capturou exigiu, em troca da sua libertação, a evacuação imediata dos soldados filipinos e Manila cedeu à chantagem.
RETIRADA FILIPINA
Na realidade, estes contingentes representam uma pequena parte dos mais de 160 mil soldados estacionados no Iraque: apenas 740. Mas Bush enfrenta agora um verdadeiro problema. A Polónia, com 2400 soldados sob o seu comando posicionados na zona Sul do Iraque, advertiu que poderia retirar-se em 2005, enquanto a Holanda o poderia fazer meses antes.
Para o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Richard Boucher, a 'fuga' de aliados supõe uma concessão aos terroristas. "Pensamos que a retirada poderá induzir em erro e que nos devemos manter firmes perante os terroristas", afirmou. No entanto, as retiradas em larga escala estão mais relacionadas com o aumento dos ataques, com a situação que se vive no Iraque - mergulhado numa onda de violência -, e com a vaga de terror.
Se bem que alguns países como a Coreia do Sul, Azerbeijão e Geórgia prometeram aumentar o seu número de soldados, de modo a compensar as 'fugas', o fracasso da coligação criada por Bush é evidente e acontece no pior momento para o líder dos EUA quando, absorvido na sua campanha eleitoral, tenta convencer a opinião pública de que a guerra não foi um erro.
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