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Correio da Manhã

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O grito da liberdade

Faz amanhã 50 anos que uma manifestação popular em Budapeste se tornou a centelha que incendiou toda uma nação àvida de liberdade. A resistência durou até 4 de Novembro, quando, perante a total passividade do Ocidente, os tanques soviéticos esmagaram sem pudor a revolução do povo.
22 de Outubro de 2006 às 00:00
Nos arredores de Budapeste, a uma hora de autocarro do centro da cidade, fica um museu ao ar livre chamado Szobor Park, o Parque das Estátuas. Ali estão em exposição dezenas de esculturas, algumas de dimensões colossais, vindas de praças, estádios, edifícios públicos, quartéis e fábricas – relíquias do regime comunista que vigorou na Hungria desde o fim da II Guerra Mundial até à implosão da ditadura, em 1989.
Dos ícones do imaginário marxista-leninista um faz-se notar... pela ausência. Quando perguntei a um dos guardas mais velhos onde estava Estaline, ele respondeu, meio atrapalhado: “Estaline? Não sobrou nenhum.” Aproveitei para meter conversa e fiquei a saber que se referia à Revolução de 1956: a indignação do povo de Budapeste foi tal que nenhuma das dúzias de estátuas do seminarista georgiano – de corpo inteiro, meio-corpo, bustos e cabeças – tinha escapado à ira dos húngaros, entre 23 de Outubro e 4 de Novembro, faz agora 50 anos.
O RELATÓRIO SECRETO
No rescaldo da divulgação pública do Relatório Secreto de Kruchtchev ao XX Congresso do Partido Comunista da URSS (Fevereiro de 1956), condenando o culto da personalidade e levantando a ponta do véu sobre os crimes de Estaline, a Hungria – como aliás outras ‘democracias populares’, isto é, satélites de Moscovo – entrou em ebulição.
O estalinista Matyas Rakosi (1892--1971), chefe do governo e do partido comunista húngaros, vê-se obrigado a reabilitar o seu antigo rival Laszlo Rajk, executado na sequência da ‘purga’ de 1949. As honras fúnebres a Rajk, a 6 de Outubro de 1956, mobilizaram milhares de pessoas e foram o prenúncio do que estava para acontecer. Ciente da sua impopularidade, mesmo entre os comunistas, Rakosi demite-se. Sucede-lhe à frente do partido e do governo outro ‘duro’, Ernö Gerö (1898-1980), que fora dirigente do Komintern, a Internacional Comunista. Nas ruas de Budapeste sucedem-se as manifestações de apoio à Polónia, onde o reformista Gomulka substituíra a direcção estalinista. As manifestações são promovidas por intelectuais e estudantes organizados no Círculo Petöfi, uma associação político-cultural assim chamada em homenagem ao poeta Sandor Petöfi (1823-1849), herói da revolução democrática e nacionalista de 1848.
REVOLUÇÃO ANTICOMUNISTA
Incapaz de dominar a situação, Gerö readmite no partido o antigo primeiro-ministro Imre Nagy (1895-1958), caído em desgraça em 1955 por defender “um comunismo que não esquece o homem” – antecipação do “socialismo de rosto humano”, do checoslovaco Alexander Dubcek, que estará na base da Primavera de Praga, em 1967.
Para o dia 23 de Outubro, faz amanhã 50 anos, é convocada uma manifestação apelando à democratização do regime. Uma maré de mais de 100 mil pessoas espraia-se por Budapeste, agitando bandeiras e gritando poemas patrióticos de Petöfi. Os manifestantes passam pelo Parlamento, nas margens do Danúbio, e dirigem-se à praça onde se ergue a maior estátua de Estaline e deitam-na abaixo. De seguida, avançam para a sede da rádio nacional, onde são recebidos a tiro pela Polícia política (AVH). Muitos soldados, de armas na mão, põem-se do lado dos manifestantes. Na noite de 23 para 24 dão-se os primeiros ataques aos tanques russos que percorrem a capital.
Instalada a confusão, Gerö entrega o governo ao reformista Imre Nagy, enquanto um obscuro funcionário, Janos Kadar (1912-1989), se torna secretário--geral do partido único. Por toda a Hungria formam-se conselhos revolucionários anticomunistas. O governo decreta a lei marcial, à qual os revoltosos respondem com a greve geral. Os insurrectos incendeiam sedes do partido comunista e massacram quantos agentes da Polícia política conseguem apanhar.
O primeiro-ministro acaba por alinhar com a revolução. Após uma semana de confrontos, Nagy consegue negociar a retirada das tropas russas. Na rua, os insurrectos exigem eleições livres e a saída da Hungria do Pacto de Varsóvia. Animado pelo apoio popular e iludido pelas emissões da Rádio Europa Livre, que o levaram a acreditar no apoio das democracias ocidentais, Nagy anuncia reformas democráticas, incluindo a criação de partidos políticos, e apela à ONU para que garanta a soberania húngara.
O momento não podia ser pior. Por esses dias, o Ocidente estava a braços com a crise do Suez e os norte-americanos tiravam o tapete à França, à Inglaterra e a Israel, para gáudio do egípcio Nasser e dos seus apoiantes soviéticos.
REPRESSÃO SANGRENTA
Ciente de que as democracias não vão mexer um dedo para defender os húngaros, Kruchtchev manda avançar o Exército Vermelho. Na madrugada de 4 de Novembro, quatro divisões protegidas por mil tanques e apoiadas pela aviação cercam Budapeste. A cidade é conquistada rua a rua, em combates sangrentos. Os insurrectos resistem durante uma semana. Cerca de 20 mil morrem a lutar, na capital e na província. Dezenas de milhar fogem para a Áustria.
O secretário-geral do partido comunista, Janos Kadar, aparece em público e revela que foi ele quem pediu aos soviéticos para esmagar a “contra-revolução”. Quanto a Nagy, é dado como desaparecido. Na verdade fora feito prisioneiro e levado para fora do país. Acabou por ser enforcado, em Junho de 1958. A ordem imposta pelo Exército Vermelho voltara a reinar na Hungria – até 1989 quando, após a queda do comunismo, Nagy foi reabilitado e sepultado com honras de herói da liberdade.
CRONOLOGIA
23/10/1956
Uma grande massa de húngaros une--se ao protesto estudantil. Os primeiros confrontos acontecem frente à sede da Rádio de Budapeste, deixando vários mortos.
24/10/1956
Tanques soviéticos avançam sobre Budapeste. Os insurgentes húngaros recebem-nos com cocktails molotov.
25/10/1956
Tropas soviéticas disparam sobre manifestantes em frente ao Parlamento: 60 mortos.
01/11/1956
O primeiro-ministro Nagy, informado dos planos soviéticos de sufocar a Revolução, proclama a saída da Hungria do Pacto de Varsóvia.
04/11/1956
Os tanques soviéticos entram de novo em Budapeste, desta vez de forma tão maciça que os manifestantes não resistem. Nagy refugia-se na embaixada da Jugoslávia mas acaba por ser detido pelos soviéticos, que o enforcam em Junho de 1958.
UM HÚNGARO EM FÁTIMA
O padre Luís Kondor, nascido em Csikvánd, na Hungria, em 1928, acompanhou a partir de Portugal os acontecimentos de 1956. Membro da congregação do Verbo Divino, foi enviado para o nosso país em 1954. Curiosamente, foi em 1956, o ano da insurreição húngara, que o padre Kondor se encontrou pela primeira vez com a Irmã Lúcia, vidente de Fátima. Desde esse primeiro encontro, iniciou um trabalho de promoção do catolicismo na Europa de Leste, incluindo a Hungria, para onde enviou, durante décadas, literatura e imagens de Nossa Senhora de Fátima. Em 1961 foi nomeado vice-postulador da causa da canonização dos Pastorinhos Jacinta e Francisco, beatificados em 2000. A IGREJA AO LADO DO POVO
Desde o início, a Igreja Católica foi solidária com a insurreição de Budapeste. Um dos primeiros gestos dos revolucionários foi a libertação do cardeal Jozsef Mindszenty (1892-1975), que fora preso, torturado e condenado a prisão perpétua em 1949 por traição. Mal saiu do cadeia, o cardeal manifestou desde logo, pela rádio, o seu apoio aos insurrectos. No dia 4 de Novembro, perante a invasão dos tanques do Exército soviético, foi aconselhado pelo primeiro-ministro Imre Nagy a pedir asilo político na embaixada dos Estados Unidos, de onde não pôde sair durante 15 anos. Só em 1971 foi autorizado a partir para o exílio, em Viena, onde permaneceu até à morte.
O QUE DISSE O PCP
Em Outubro de 1956, Álvaro Cunhal (1913-2005) estava preso no Forte de Peniche. A posição do PCP sobre os acontecimentos de Budapeste e sobre a campanha anticomunista lançada pelo governo de Salazar, a pretexto da solidariedade com o povo húngaro, foi divulgada pela direcção da Organização Regional do Norte , num documento com o título ‘A Reacção Mundial Lança a Confusão sobre a Hungria! Abaixo a Histeria Salazarista’, citado por Pacheco Pereira, na biografia de Cunhal: “A intervenção das Forças Armadas soviéticas [...] ajudou o povo húngaro a salvaguardar as suas conquistas históricas e socialistas. Os trabalhadores do mundo inteiro acusariam a União Soviética se não tivesse correspondido aos apelos do povo húngaro para o ajudar a derrubar os contra-revolucionários armados pela reacção fascista.”
CAVACO SILVA EM BUDAPESTE
O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, chega hoje a Budapeste para participar nas cerimónias do 50.º aniversário da evolução húngara de 1956, que decorrem em simultâneo com violentas manifestações contra o primeiro-ministro socialista húngaro, Ferenc Gyurcsany.
Nas cerimónias, que decorrem amanhã, o Chefe de Estado português junta-se a 15 outros presidentes, dois monarcas (Juan Carlos, de Espanha, e Harald V, da Noruega), vários primeiro-ministros, ao secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer, e ao presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. Hoje, Cavaco Silva participa numa gala na Ópera de Budapeste e num jantar oferecido pelo seu homólogo húngaro, Lászlo Solyom, no Museu de Belas Artes de Budapeste.
Amanhã, o presidente português mantém encontros com três homólogos: Horst Khler (Alemanha), Lászlo Solyom (Hungria) e Viktor Yushchenko (Ucrânia).
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