Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
8

O homem que abalou a banca

Reservado e pouco sociável, com um passado académico modesto e uma posição laboral relativamente pouco importante, Jérôme Kerviel não era considerado uma das estrelas da divisão de futuros da Société Générale, o segundo maior banco francês. Por isso, foi ainda maior a surpresa dos seus superiores quando descobriram que o discreto corretor, de 31 anos, foi o responsável pela maior fraude financeira de sempre, que custou qualquer coisa como 4,9 mil milhões de euros aos cofres do banco e ajudou a abalar os mercados mundiais nas últimas semanas. E, talvez o mais surpreendente em tudo isto, é que Kerviel não desviou um único euro para o seu bolso.
2 de Fevereiro de 2008 às 00:30
Quando o escândalo rebentou, o jovem corretor foi inicialmente descrito como “um génio informático” dotado de uma “inteligência maquiavélica” que lhe permitiu ocultar durante meses a fio as apostas arriscadas que fazia com o dinheiro do banco. Mas as informações vindas a público desde então permitem traçar um retrato bem diferente: o de um funcionário banal, sem ponta de talento, que olhava com inveja para os chorudos salários e bónus dos colegas e que quis dar passos maiores que as pernas.
Filho de uma cabeleireira e de um operário metalúrgico, Kerviel formou-se em Economia na Universidade de Nantes e fez mestrado em gestão e organização de mercados financeiros da Universidade de Lyon – duas escolas com pouca tradição na formação de elites da alta finança. Não deixou grandes recordações: era um aluno banal, esforçado, que tinha boas notas sem nunca ser brilhante. “Se era um génio ninguém deu por isso”, afirmou uma antiga professora.
Apesar de tudo, conseguiu em 2000 um emprego no segundo maior banco francês. Começou por baixo, pelo ‘back-office’, onde se controla e regista as transacções feitas pelos verdadeiros ‘tubarões’, os corretores dos fundos de risco. Kerviel ambicionava ser um deles e em 2005 conseguiu a desejada promoção mas nunca se destacou nas novas funções. “Era demasiado introvertido. Tentava agradar aos chefes mas não tinha aquilo que é preciso para ser um bom corretor”, afirmou um ex-colega. “Nunca foi uma das nossas estrelas”, confirmou um superior.
Com um salário anual a rondar os 100 mil euros anuais, era um dos mais mal pagos da divisão de fundos de risco, e terá sido o desejo de emular os ganhos astronómicos dos colegas mais experientes que o levou a arriscar. Começou a apostar somas cada vez maiores e – graças aos conhecimentos adquiridos quando esteve no ‘back-office’ – a inventar ao mesmo tempo negócios fictícios para justificar as movimentações de capital. O primeiro negócio ocorreu em 2005 e envolveu a compra de títulos da seguradora Allianz. Pouco tempo depois, o mercado afundou-se devido aos atentados de Londres e Kerviel teve um lucro de 500 mil euros. “Um resultado destes gera a necessidade de continuar, é como um efeito bola de neve”, explicou à polícia. Em finais de 2007, tinha conseguido um lucro de 1,4 mil milhões de euros para o banco. “Estava orgulhoso mas não sabia como explicá-lo”, admitiu. Acabou por finalizar o ano com a modesta marca de 55 milhões de euros, que mesmo assim lhe valeu um bónus de 300 mil euros.
Logo a seguir, a sua sorte mudou, e os lucros rapidamente se transformaram em prejuízo. Foi apostando mais e mais, acreditando que conseguiria dar a volta. Quando o escândalo viu a luz do dia, Kerviel tinha 50 mil milhões de euros apostados. Em pânico, a SocGen tentou desfazer os negócios e conseguiu escapar com um saldo negativo de ‘apenas’ 4,9 mil milhões de euros, o maior valor alguma vez perdido por um banco graças à acção de um único funcionário.
Quando foi interrogado pela polícia, Kerviel – que não tirava férias há oito meses, com receio de ser descoberto – teve dificuldade em enfrentar a verdadeira dimensão do escândalo. Mal saiu da esquadra foi fazer testes psicológicos, e os colegas manifestaram o receio de que tentasse suicidar-se. Apesar de tudo, incorre numa pena de apenas três anos, por abuso de confiança e falsificação de registos informáticos, já que não há provas de que tenha beneficiado pessoalmente do esquema. “Só queria ganhar dinheiro para o banco”, afirmou.
Muitos analistas financeiros duvidam de que tenha agido sozinho. O próprio Kerviel deixa no ar a dúvida: “Não acredito que os meus superiores não tivessem conhecimento de nada. Enquanto estava a ganhar dinheiro, eles faziam vista grossa”, alega.
UM RAPAZ NORMAL
Jérôme Kerviel nasceu em 1977 na pequena localidade de Ponty-l’Abbé, Bretanha. Estudou Economia nas universidades de Nantes e Lyon – era bom aluno mas sem ser brilhante. Em 2000 entrou para a Société Générale como funcionário de ‘back-office’. Cinco anos depois subiu à divisão de fundos de risco, onde perpetrou aquela que é considerada a maior fraude bancária da História. Descrito como um “rapaz normal” pelos vizinhos e amigos de infância, tem como hobbies o judo e a vela.
PROBLEMAS PESSOAIS
O descontrolo de Jérôme Kerviel poderá ter sido provocado por duas tragédias na vida pessoal que o marcaram profundamente no último ano – a morte do pai, vítima de cancro, e a separação da mulher. A dor de ambas as perdas, juntamente com o medo de ser apanhado, terá tido um profundo efeito psicológico sobre o corretor, atirando-o para um mundo de fantasia ao convencer-se de que tinha descoberto o esquema ideal para proporcionar lucros gigantescos ao banco. Mesmo depois de o escândalo rebentar, continuou convencido de que seria apenas uma questão de tempo até a sorte mudar...
UMA ACTIVIDADE STRESSANTE
Corretor de fundos de risco é uma das profissões mais aliciantes nos meios financeiros, devido às astronómicas remunerações, mas também uma das mais stressantes. Um bom corretor pode fazer o banco para o qual trabalha ganhar milhões de euros e levar para casa bónus chorudos mas pode também perder tudo num minuto. Os corretores de grandes bancos como a Société Générale estão divididos por divisões, cada uma destinada a produtos financeiros específicos. No caso de Kerviel, apostava na subida ou descida futura dos índices das principais bolsas europeias.
De modo simplificado, o mercado dos futuros funciona da seguinte maneira: o corretor compromete-se a comprar ou vender um determinado produto a um certo preço numa dada altura. Se o corretor julgar que o preço de um produto, como por exemplo o petróleo, vai subir em breve, pode comprometer-se a comprá-lo daqui por três meses ao preço de hoje. Se o preço subir, já ganhou dinheiro. Se descer, tem de pagar a diferença.
Ver comentários