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Correio da Manhã

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O poder da conspiração

A noite estava serena e cálida. No Palácio de Katmandu a família real reunira-se, como habitualmente, para o jantar de sexta-feira. O rei Birendra e a rainha Aiswarya alimentavam a conversa. A ausência de Gyanendra, irmão do rei, talvez tenha sido comentada.
29 de Abril de 2006 às 00:00
Que facto urgente o levou, justamente naquela noite, 1 de Junho de 2001, a deslocar-se a Chitwan? A resposta, se é de alguém conhecida, não foi revelada até hoje, assim como não foram revelados, de forma satisfatória, os contornos da tragédia que manchou a noite e deixou o caminho do trono aberto ao ‘oportuno’ ausente: Gyanendra.
O príncipe herdeiro, Dipendra, retirou-se ao fim de 45 minutos. O relato oficial do drama afirma que estava ébrio e discutiu com a mãe, que recusava dar-lhe permissão para casar com a noiva da sua escolha. Dipendra cambaleava e foi em braços para o quarto. No entanto, num ataque de fúria, regressou à festa pouco depois e disparou indiscriminadamente, matando os pais e varrendo praticamente toda a linha de herdeiros.
O curioso é que, antes de despejar a fúria sobre a família tenha tido lucidez e calma para vestir o uniforme militar e apossar-se de três armas com as quais terá disparado mais de 70 vezes, a última delas na cabeça.
Esta versão dos acontecimentos não satisfez ninguém.
As teorias da conspiração que surgiram foram reforçadas pela primeira explicação dos acontecimentos, claramente disparatada. De facto, afirmou-se que uma arma automática disparou por acidente, atingindo 14 pessoas, nove delas de forma mortal.
Mas há mais de suspeito na tragédia que deu o trono a Gyanendra. Na verdade Dipendra, hospitalizado com vida, foi declarado monarca, mas reinou apenas dois dias, durante os quais esteve em coma.
Dois aspectos mais reforçam a ideia de conspiração: uma delas é o facto de a mulher e o filho de Gyanendra estarem presentes na cena do massacre e terem escapado; a outra é o relato final dos acontecimentos só ter chegado a público depois de revisto pelo novo rei.
O manto da suspeita tem pesado sobre o reinado de Gyanendra e envenenando todos os seus passos. Em 2002, um ano depois de assumir o poder, demitiu o primeiro-ministro Sher Deuba e nomeou Surya Thapa para o cargo. Este, fiel apoiante da monarquia, aceitou governar com poderes reduzidos e num quadro de adiamento indefinido de novas eleições.
Veio a ser demitido por protestos maciços em 2004 e Deuba regressou à chefia do executivo. Quando em Fevereiro de 2005 foi de novo demitido, Gyanendra instaurou a monarquia absoluta alegando que ao governo faltava mão firme para vencer a revolta maoísta, que em dez anos causou a morte a mais de 13 mil pessoas.
Esta semana, pressionado por protestos maciços e continuados, Gyanendra recuou e prometeu restabelecer as instituições democráticas. mas a promessa, considerada insuficiente pelos maoístas, dificilmente pode ser levada a sério, pois vem do mesmo homem que afirmou: “Democracia e progresso não são conciliáveis.”
REI COM DOIS REINADOS
Gyanendra, segundo filho do príncipe herdeiro Mahendra, reinou entre 1950 e 51, aos quatro anos de idade, depois de ser coroado pela chamada dinastia Rana, que forçou o exílio do resto da família real na Índia. O apoio do governo indiano permitiu o regresso do rei legítimo, Tribhuvan, avô de Gyanendra. Reempossado, Tribhuvan tornou-se o primeiro monarca com poderes efectivos depois da abdicação dos Rana, que lideraram de forma dinástica o país até 1951, confinando o rei a um papel simbólico.
Gyanendra foi coroado pela segunda vez em 2001, depois do massacre do rei, o irmão Birendra, e restantes herdeiros. Retirou poderes ao governo e declarou a monarquia absoluta antes de, forçado por manifestações violentas, declarar esta semana a restauração da ordem constitucional.
A SUPERIORIDADE DO 'SANGUE AZUL'
Quando o rei Gyanendra era ainda criança foi enviado, juntamente com os irmãos, para uma escola em Darjeeling, na Índia. O primeiro-ministro do país recém-independente, Jawaharlal Nehru, fez uma visita oficial àquela região e passou pela escola dos príncipes nepaleses. Os professores explicaram aos jovens que iriam ter a honra de presentear Nehru com uma flor. Gyanendra, no entanto, recusou. “Não faço tal coisa”, afirmou o pequeno, “sou superior a ele”.
Esta foi a precoce manifestação de uma ideia que acompanha o rei do Nepal: a da superioridade absoluta da família real.
Por acreditar nessa ideia de forma tão arreigada é que entrou em divergência com o irmão, o então rei Birendra, quando este em 1990, pressionado por violentas manifestações, aceitou abolir os poderes absolutos e fundar uma monarquia constitucional. Para alguns isso reforça a tese de que Gyanendra mandou matar o rei e herdeiros para restaurar o absolutismo real.
A FIGURA
AUTOCRATA E EMPRESÁRIO
Gyanendra Bir Bikram Shah Dev nasceu a 7 de Julho de 1947. Fez os primeiros estudos na Índia e na universidade, no Nepal. Casou em 1970 com Komal e teve dois filhos: Paras Shah, príncipe herdeiro, e a princesa Prerana Shah.
Apaixonado pela natureza, especializou-se nessa área enquanto escreve e publica poemas e canções sob o nome de G. Shah. Antes de ascender ao trono entrou no mundo dos negócios, sendo proprietário de um hotel em Katmandu e também de quintas de produção de tabaco e chá.
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