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Correio da Manhã

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O PRIMEIRO DEBATE A DOIS E O JOGO DAS EXPECTATIVAS

Esta noite, na Universidade de Miami, em Coral Gables, tem lugar o primeiro dos três debates de 90 minutos entre os dois candidatos. Um acordo de 32 páginas, negociado entre as candidaturas, foi necessário para que se concretizassem. O de hoje é sobre política externa e segurança nacional, coisas em que Bush está mais à-vontade.
30 de Setembro de 2004 às 00:00
O acordo explicita que nenhum dos candidatos pode usar artifícios para o tornar mais alto – John Kerry, com o seu 1,90 m não precisava – e também diz a distância (3,20 m) a que devem estar os dois púlpitos (assim não se verá tanto a diferença de alturas) e a área em que os candidatos se podem mover (mas não se sabe muito bem o que acontece se ultrapassarem essa linha – um cartão amarelo?…).
E diz mais: as televisões não podem mostrar as reacções do opositor quando o outro estiver a falar e o moderador deve usar determinadas expressões para interromper Bush ou Kerry.
O moderador de hoje, o jornalista Jim Lehrer, é da PBS, a estação pública dos EUA que não assinou o acordo. Tal como não o fez a Comissão dos Debates. As televisões já disseram que farão o que jornalisticamente acharem melhor.
O debate é crucial para John Kerry, já que as sondagens lhe apontam um atraso notório. O que se joga, perante uma audiência de milhões, é mais a forma que a substância, mais as expectativas e o que se dirá depois. Ambos os campos põem pressão no adversário:
“John Kerry é o homem que melhor debate a dois desde Cícero”, exagerou Mathew Dodd, assessor da Bush. Kerry é considerado bom a debater mas, como dizem os assessores, “Bush nunca perdeu um debate, nem com Al Gore”.
Muitos dos eleitores não vão, porém, ver os debates, mas estarão atentos ao que os media comentarem sobre a refrega. “Temos mais de cem pessoas para a operação pós-debate”, disse Mike McCurry, da equipa democrata. Porque, diz também, em 2000 a mensagem de Al Gore foi melhor do que a de Bush, mas a Imprensa deu muito peso a outras situações (como sorrisos trocistas de Gore, que não ficaram bem) e a percepção geral foi favorável a Bush.
O valor destes debates muito preparados – ambos os candidatos passaram os últimos dias a treinar com gente que fazia o papel do outro e do moderador – é difícil de avaliar. Às vezes valem pelos àpartes ou pela sinceridade nas respostas. Em 2000, quando perguntaram a Bush quem era o filósofo que mais apreciava, a resposta foi: “Jesus Cristo. Foi ele que mudou a minha vida”. As pessoas ficaram impressionadas com a sinceridade, embora Bush dificilmente pudesse ter um nome de um filósofo na boca, pois não parece dado a leituras.
Há debates que ficaram famosos, como o de Kennedy e Nixon, em que o fato deste não contrastava com o cenário e a sua imagem sofreu com isso; ou o de Bush I -Clinton, em que o então Presidente olhou várias vezes para o relógio, parecendo estar com outras preocupações. Desta vez, é decisivo para Kerry, que tem de jogar ao ataque, enquanto Bush pode perder por poucos sem demasiados problemas.
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