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Correio da Manhã

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O terceiro homem

Sigam-no com atenção. Ele será presidente da República.” A afirmação pertence a François Mitterrand e foi feita a um conselheiro privado pouco antes da sua morte, no início de 1996. O líder da UDF (União para a Democracia Francesa) foi eliminado em 2002 na primeira volta, quedando-se, com quase 7% dos votos, atrás do socialista Lionel Jospin, ele também varrido do escrutínio pelo radical de direita Jean-Marie Le Pen.
17 de Março de 2007 às 00:00
Este ano, no entanto, François Bayrou revela uma muito maior taxa de apoio. Nas últimas semanas semeou o pânico nas sedes de campanha dos principais candidatos depois de quase igualar Nicolas Sarkozy (UMP) e Ségolène Royal (PS) nas sondagens. Alguns analistas, embora cépticos quanto à possibilidade de vitória, prevêem, ainda assim, a chegada de Bayrou à segunda volta.
O ‘Terceiro Homem’ da política francesa, como alguns já lhe chamam, pode afinal tornar-se o segundo e , com sorte, pode mesmo vir a ser o primeiro. “Em todas as eleições presidenciais anteriores houve surpresas, agora está outra em preparação”, afirmou em 2006. Crítico do distanciamento entre políticos e cidadãos, assume-se como reformador e promete acabar com a bipolarização esquerda/direita. Afirma que, a ser eleito, chamará ao governo personalidades de todos os quadrantes, podendo mesmo nomear um chefe de governo socialista. Bayrou resumiu recentemente o seu projecto numa frase: “Para ser eleito é necessária uma base de apoio de 15% dos eleitores. Depois, reúne-se mais apoios ou firma-se alianças.”
Os críticos consideram o ‘não alinhamento’ do líder centrista a artimanha de um homem de direita para conquistar os votos dos desiludidos, tanto na ala socialista como conservadora. O antigo ministro da Cultura, o socialista Jack Lang afirma, por seu lado, que o objectivo de Bayrou é “eliminar a esquerda”.
A acusação parece emanar, não tanto da análise dos factos como do medo de ver repetida a hecatombe socialista de 2002, pois se é certo que Bayrou integrou os governos de direita de Edouard Balladur e Alain Juppé (1993 a 1997), é também verdade que em 2002 recusou fundir o seu partido democrata-cristão com a RPR (Reunião pela República) para formar a UMP (União para uma Maioria Presidencial – rebaptizado União para uma Maioria Popular). A fusão de partidos foi proposta por Jacques Chirac, sob o impacto do escândalo da passagem à segunda volta das presidenciais do nacionalista xenófobo Le Pen. Depois, opõe-se às políticas dos governos de Chirac, tanto o de Jean-Pierre Raffarin como o de Dominique de Villepin.
A atitude de independência e luta contra uma ‘dinastia’ bipartidária em França tem sido, aliás, a imagem de marca do líder da UDF. Escreveu uma popular biografia de Henrique IV (1553-1610) intitulada: ‘O Rei Livre’. Quando agora defende a criação de um governo multipartidário recorre ao exemplo desse monarca, fazendo notar que reuniu católicos e protestantes, assim evitando o perpetuar de guerras religiosas; e ainda ao de Charles de Gaulle, que em 1945 governou com comunistas, socialistas e centristas, assim evitando uma guerra civil. Hoje o desafio é, em sua opinião, salvar a democracia.
O jovem Bayrou foi simpatizante da ideologia pacifista, sobretudo da comunidade de Lanza del Vasto (filósofo, poeta e artista francês inspirado por Ghandi), mas na década de 1980 militava já na UDF. Em 1982, aos 30 anos, obteve a primeira vitória eleitoral, integrando o conselho municipal de Pau (Pirenéus). Quatro anos depois é eleito deputado pela primeira vez, renovando o mandato em 1988, 1993, 1997 e 2002.
O homem de segundo plano está agora na luz da ribalta. A subida nas sondagens deu-lhe enorme alegria e comentou-a sem falsa modéstia. “É uma coisa emocionante e muito forte ver um povo que, de súbito, decide sair dos esquemas habituais em que têm querido encerrá-lo desde há um quarto de século”, afirmou, assumindo-se como a alternativa e acrescentando: “Costuma dizer-se que a eleição presidencial é o encontro de um homem e um povo: creio que nada há de mais verdadeiro, é isso mesmo que está a acontecer agora, pela primeira vez no século XXI.” De homem de estado Bayrou tem, para já, a postura, falta-lhe ‘só’ a legitimação do voto para cumprir a profecia de Mitterrand.
ATAQUE AOS MEDIA
A Comunicação Social é um ‘ódio de estimação’ de François Bayrou. O líder da UDF acusa o candidato da direita Nicolas Sarkozy de ter alianças com os grandes grupos económicos que dominam os media e ataca a forma como estes têm noticiado a campanha eleitoral. “É claro que vocês desejam uma segunda volta entre Sarkozy e Ségolène Royal; isso seria uma garantia para o vosso presente e o vosso futuro. Mas nós, os franceses, não cederemos às manipulações”, afirmou. A insatisfação com os media é uma das razões por que assume o desafio de acabar com a bipolarização política em França.
CATÓLICO E DEFENSOR DO LAICISMO
“Não sucumbir ao modelo de sociedade onde o dinheiro é rei.” Esta é uma das consequências directas do credo católico na vida política, segundo François Bayrou. Em entrevista de Outubro de 2006, o líder da UDF (partido democrata-cristão fundado em 1978 a partir da fusão de seis partidos de centro e direita) considerou ainda que o respeito pelos outros credos resulta também directamente da sua vivência espiritual de católico praticante.
Das suas investigações históricas (é formado em Clássicas e escreveu quatro livros históricos, todos eles relacionados com as querelas religiosas) reteve a ideia, afirma, “de que a religião é explosiva e que a única maneira de evitar essas explosões é a laicidade”. Separar fé e lei é, afirma, a única forma de manter a concórdia e o funcionamento regular das democracias. “Não misturem a religião e o Estado, é demasiado perigoso”, afirmou, no quadro do debate sobre o financiamento estatal dos vários credos religiosos em França.
A FIGURA: POLÍTICO E AGRICULTOR
François René Jean Lucien Bayrou nasce em Bordères (1951) filho de camponeses. Casa aos 20 anos e pouco depois fica órfão de pai. Forma-se em Clássicas e dedica-se ao ensino enquanto ajuda a mãe a manter a pequena exploração agrícola familiar. Além da vida política mantém viva a ‘costela’ rural (cria cavalos puro sangue para competição), e tem 12 livros publicados, sobre temas políticos e históricos. Europeísta convicto, classificou a União Europeia como “a mais bela construção da humanidade”. Tem seis filhos e 12 netos.
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