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Correio da Manhã

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O terrorismo nunca pode ser justificado

Rosa Freijanes, esposa de Fernando González, preso por conspiração nos EUA há sete anos com quatro outros cubanos, veio a Lisboa para divulgar o caso de uma detenção e julgamento que um tribunal de apelação norte-americano e um organismo da ONU já consideraram injustos.
5 de Setembro de 2005 às 00:00
Correio da Manhã – Pensa que o seu marido e os outros são inocentes e devem ser libertados sem condições?
– Uma vez que a sentença foi revogada e o julgamento anulado pelo tribunal de apelações de Atlanta eles têm de ser libertados. Já cumpriram sete anos de prisão. Já foram julgados e expostos ao escárnio público. O Fernando está em Oxford, Wisconsin, numa prisão de alta segurança. Já não está em isolamento, mas esteve muito tempo isolado sem uma razão.
– Falou com os advogados do seu marido?
– Sim, falei. Estão prontos a ir com eles a um novo julgamento, se necessário, mas aguardam uma decisão do Ministério Público para decidir se pedem a revisão do caso ou fazem novo apelo. No julgamento, os advogados citaram como testemunhas responsáveis dos EUA e pediram-lhes que analisassem as provas. Declararam que nada do que tinham visto tinha a ver com a segurança dos EUA e nada se podia considerar espionagem.
– Quando visitou Fernando?
– Nestes sete anos vi-o quatro vezes. E tive sorte, pois ao fim de sete meses pude vê-lo pela primeira vez. Mas Gerardo não viu a esposa, e René não viu nem a esposa nem a filha mais pequena, porque não lhes autorizaram vistos.
– O que fazia o seu marido e como se viu envolvido na espionagem aos anticastristas?
– Trabalhava em Relações Económicas Internacionais. Cuba nos anos 90, quando se deu a derrocada do bloco socialista, perdeu o seu mercado privilegiado. E o país procurou compensar essa perda económica desenvolvendo o turismo. Mas é nessa década que se acentua a actividade do grupo de terroristas de Miami contra esse sector. Estas cinco pessoas tomaram a responsabilidade de infiltrar esses grupos para tentar prevenir mais atentados contra locais turísticos.
– E entraram legalmente nos EUA?
– Não. O meu marido entrou com identidade falsa. E isso ele admite, mas acontece que já cumpriu a pena por esse crime, que é de cinco anos, e ele já cumpriu sete.
– Podemos comparar este caso com os julgamentos políticos em Cuba...
– Não sei de nenhum caso de alguém que tenha lutado contra o terrorismo em Cuba e que esteja preso. As pessoas que hoje estão presas em Cuba foram julgadas por entrar no país com armas, por exemplo. Não se pode confundir uma coisa com a outra. Se o julgamento tivesse decorrido numa sede imparcial possivelmente não estaríamos a falar agora.Penso que uma vez que a realidade do caso seja conhecida, o povo norte-americano vai ajudar-nos. Assim como reclama a saída das tropas norte-americanas do Iraque ou a extradição de Posada Carriles para a Venezuela, também poderá sair à rua e reclamar a libertação dos cinco. O povo americano percebe que o terrorismo não tem justificação quando se realiza contra o ou quando tem como alvo o meu povo: as pessoas que morrem são sempre inocentes.
CASO 'CINCO DE MIAMI' IRRITA CASTRO
O caso dos ‘cinco de Miami’, uma das muitas questões que alimentam a ‘guerra’ entre Washington e Fidel Castro, remonta a 1998, altura em que o FBI prende alegados espiões, entre eles Fernando González e quatro outros cubanos: Gerardo Hernandéz Nordelo, René González Sehwerert, Ramón Labanino Salazar e Antonio Guerrero Rodríguez. O controverso caso já chegou às instâncias internacionais ‘pela mão’ do governo de Fidel Castro que tudo tem feito para chamar a atenção dos tribunais internacionais.
Os detidos alegam que estavam infiltrados junto dos grupos anticastristas em Miami para tentar obter informações sobre os que planeiam actividades para derrubar Fidel Castro. O julgamento tem lugar em Miami entre 2000 e 2001 e todos são dados como culpados. No início do mês passado, o Tribunal de Apelações de Atlanta anula o julgamento por falta de provas e parcialidade dos jurados. Mais: a Comissão de Direitos Humanos da ONU denuncia a parcialidade do julgamento e as irregularidades do processo, nomeadamente a “falta de acesso dos advogados de defesa às provas” apresentadas contra os seus clientes.
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