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Correio da Manhã

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O voto num país mergulhado na crise

O advogado Alberto Zambrano sente a crise como poucos: "Hoje, o nosso trabalho é vender as casas que as pessoas entregam aos bancos por não conseguirem pagar as hipotecas", diz. Sentado no escritório da sua imobiliária, em Ayamonte, traça o perfil dos tempos difíceis que se vivem na Andaluzia, espelho da imensa Espanha, onde a taxa de desemprego ultrapassa os 20%. É neste cenário dramático que os eleitores escolhem hoje quem os irá conduzir pelos tortuosos caminhos da austeridade.
20 de Novembro de 2011 às 01:00
O PSOE não parece  capaz de resistir ao apelo de mudança do PP
O PSOE não parece capaz de resistir ao apelo de mudança do PP FOTO: Maria João Marques

"Em 2004, 2005, deu-se um ‘boom’ imobiliário", explica, "havia dinheiro para comprar casas, até uma segunda casa, os bancos emprestavam sem grandes dificuldades", recorda Alberto Zambrano.

De facto, na Andaluzia, e na região de Ayamonte em particular, os britânicos, com a libra forte, entravam pelo escritório de Zambrano à procura de casas de férias. Muitos bancos, como o Barclays, abriram sucursais na localidade. Depois, chegou a crise e tudo mudou, com a Banca a fechar portas ao crédito. "As casas deixaram de se vender", resume Zambrano: "Casas vendidas a 500 mil euros estão agora no mercado por menos de 200 mil e não se vendem."

O ‘fecho’ do crédito atingiu também os empreiteiros. O caso mais emblemático é o gigantesco empreendimento Costa Esuri, sobre o Guadiana. Hoje, está às moscas. O centro comercial e o hotel de quatro estrelas estão a meio. E, das casas construídas, a maior parte não está ocupada. Curiosamente, quando entrou no mercado, o Costa Esuri era promovido junto do mercado britânico como… o Algarve de Espanha.

ZAPATERO ALERTA PARA A 'BOLHA IMOBILIÁRIA'

O ainda primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, afirmou no último dia de campanha, num jantar-comício na sua terra natal, León, que ainda demorará algum tempo para que a economia "consiga absorver todo o excesso irracional da bolha" imobiliária. Zapatero, que se despediu garantindo a solvência financeira do país, mesmo "sem ajuda do PP", anunciou que regressará a León.

"GASTARAM MAIS DO QUE TINHAM"

A crise no sector imobiliário em Espanha atirou milhares e milhares de jovens e menos jovens para o desemprego. Fernando Murillo foi um entre muitos que perderam o emprego de serralheiro na construção civil e um salário de 3500 euros mensais. Depois de longa ‘travessia do deserto’, encontrou uma oportunidade num posto de combustíveis junto à fronteira com Portugal. Fernando, que vive em Badajoz, na Extremadura, acabou por perder 2300 euros por mês. Mas diz que esta redução salarial é o espelho de um país com quase cinco milhões de desempregados. Espera agora que o Partido Popular destrone os socialistas nas eleições parlamentares para dar um novo impulso à economia espanhola. "Os últimos governos gastaram mais do que tinham. Mas nós temos ainda a oportunidade de não cair nesse buraco", referiu.

"NÓS ESTAMOS COMO EM PORTUGAL"

A Galiza atingiu, em 2011, um número histórico de desempregados: cerca de 250 mil pessoas à procura de trabalho. Empresas a fechar portas é o cenário do dia-a-dia dos galegos. Sentem--se deprimidos e temem perder os apoios que ainda têm. Já viram serem reduzidos alguns dos subsídios, como o de natalidade, e os abonos de família.

Com o olhar no vizinho Portugal, os funcionários públicos receiam também perder o subsídio de férias. "Não estamos melhor do que em Portugal". diz ao CM Mercedes Neira, de 50 anos, que cuida de idosos para manter a família. O eleitorado galego é tradicionalmente PP, mas em tempos de crise não acredita que a mudança traga melhores dias. O desânimo sente-se nas ruas. Em Tui, junto à fronteira com Portugal, José Fernández fala da crise: "Não há milagres com a mudança de governo", refere.

RAJOY A CAMINHO DE VITÓRIA ESMAGADORA

A Espanha é hoje chamada pela 11ª vez a eleger as suas Cortes, 36 anos após a morte do ditador Francisco Franco. As sondagens apontam para uma esmagadora vitória do PP, de Mariano Rajoy, que apenas prometeu pragmatismo para cumprir as metas da UE.

Com a aposta ‘Junta-te à mudança’, poderá eleger 192 a 196 deputados e aproximar-se do recorde de 202 lugares atingido pelo PSOE de Felipe González em 1982 com o slogan ‘Mudança’.

Esta é a terceira vez que Rajoy, de 56 anos, tenta a eleição. Em Março de 2004, era favorito, mas, após os ataques terroristas de dia 11 em Madrid, o PP perdeu a confiança dos espanhóis. Em 2008, não teve argumentos para o primeiro-ministro socialista José Luis Zapatero, que ostentava um ‘superavit’ nas contas públicas.

Desta vez, os socialistas estão vergados por um défice de 9,8%, e o próximo governo tem de tapar um buraco de 17 mil milhões de euros. O candidato do PSOE, Alfredo Pérez Rubalcaba, de 60 anos, prometeu negociar a austeridade, mas ninguém lhe prestou atenção. A crise financeira e os quase cinco milhões de desempregados obrigam a Espanha a mudar de rumo.

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