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Padre católico condenado por homicídios e torturas

Chamavam-lhe o ‘padre do Diabo’. No auge da ‘guerra suja’ argentina, Christian von Wernich percorria os infames centros de detenção da ditadura e oferecer consolo aos detidos para lhes ganhar a confiança. Depois contava tudo aos torturadores.
11 de Outubro de 2007 às 00:00
Padre católico condenado por homicídios e torturas
Padre católico condenado por homicídios e torturas FOTO: Enriqe Marcarian / Reuters
Ontem foi finalmente condenado a prisão perpétua por crimes contra a Humanidade, no primeiro julgamento a expor publicamente as ligações incómodas entre a Igreja Católica local e a antiga ditadura militar argentina.
Wernich, actualmente com 69 anos, era capelão da polícia de Buenos Aires nos anos da ‘guerra suja’ (1976/1983). Sob as ordens do sanguinário general Ramón Campos – conhecido como o ‘Carniceiro de Buenos Aires’ – o padre visitava os centros de detenção e tortura da ditadura, oferecendo consolo aos detidos. Mas a verdadeira missão era ganhar a confiança destes e escutar as confissões, que depois relatava aos torturadores.
Segundo vários sobreviventes, o próprio Wernich chegou a participar em dezenas de interrogatórios, não para apelar pela vida dos detidos, mas para agravar ainda mais o seu sofrimento. “Vocês têm de pagar pelos vossos actos contra a Pátria. Fizeram mal ao país e a dor é a única forma de redimir esse mal. Têm de abraçar a vossa cruz, como Jesus abraçou a dele”, afirmava, ao mesmo tempo que incitava os verdugos, garantindo que estavam a fazer “o trabalho de Deus”.
Após a queda do regime militar, o padre fugiu para o Chile, onde viveu vários anos sob falsa identidade até ter sido localizado e extraditado. Ontem, ao cabo de três meses de julgamento, foi condenado a prisão perpétua pelo envolvimento em sete casos de homicídio, 42 de sequestro e 31 de torturas. Os primeiros dizem respeito a sete jovens estudantes do ensino Secundário, detidos e torturados pela Polícia Militar na cidade de La Plata. Durante vários dias Wernich participou nos interrogatórios dos jovens, ao mesmo tempo que extorquia dinheiro aos pais, afirmando que era capaz de arranjar maneira de os fazer sair do país clandestinamente. Certa noite, foi buscá-los à cela, acompanhado por soldados, afirmando que iam transportar os jovens ao aeroporto. Pelo caminho a carrinha militar parou num local ermo e os jovens foram fuzilados: Von Wernich voltou à cadeia com a sotaina manchada de sangue e não mostrou o mínimo remorso.
Este foi o primeiro julgamento a expor de forma pública a cumplicidade entre a Igreja Católica argentina e a ditadura militar, algo que a hierarquia eclesiástica sempre negou, afirmando – como fez ontem – que se tratava de “actos isolados” da responsabilidade pessoal dos padres envolvidos. O que não explica, por exemplo, porque razão os vigários castrenses argentinos, designados pelo Vaticano, diziam que o país devia ser “purificado por um rio de sangue” ou porque é que a cúpula da Igreja sancionou como forma “cristã” de eliminação os chamados voos da morte, em que presos políticos eram atirados ao mar a partir de aviões.
PERFIL
Christian von Wernich nasceu a 27 de Maio de 1938 na localidade argentina de Concórdia. Enveredou pelo sacerdócio e enquanto capelão da Polícia Militar de Buenos Aires visitava frequentemente os presídios e centros de tortura da ditadura, para oferecer consolo aos detidos. A sua missão, no entanto, era outra: ganhava a confiança dos presos e depois repetia aos ouvidos dos torturadores tudo aquilo que eles lhe diziam em confissão. Chegou a participar em vários interrogatórios, durante os quais zurzia os detidos e absolvia os verdugos. Após a queda da ditadura fugiu para o Chile, onde viveu sob nome falso até ser detido e extraditado em 2003.
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