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Correio da Manhã

Mundo

Papa sem palavras

De novo, o Papa não recitou o Angelus, a segunda vez no seu pontificado de 26 anos. Já tinha acontecido na semana passada, mas, apesar de não falar, fez-se ver.
7 de Março de 2005 às 00:00
De uma janela, no último andar, o décimo, do Policlínico Gemelli, hospital da Universidade Católica ‘Sacro Cuore’, finda a oração dita pelo cardeal Leonardo Sandri, a aparição sem voz, de novo.
Durante os sete minutos do Angelus – foram colocados altifalantes no exterior do hospital – a janela reflecte a penumbra. Ao meio-dia e oito, uma figura branca destaca-se no vidro da direita, solitária, com a cabeça pendente para a sua direita. Por três vezes, a mão direita, sublinhada pelas vestes alvas, abençoa.
Clímax para o momento mágico: reposteiros de tiras vão-se fechando de fora para dentro, ao mesmo tempo que o homem de branco recua, como que vogando. A janela encerra de novo o seu segredo. Acabou. Durou dois minutos.
Na semana passada, o jornal do Vaticano, ‘Observattore Romano’, titulava: “Extraordinário colóquio.” E, de facto, assim voltou a ser. Um homem que não fala e um povo ávido das suas palavras.
PORTUGAL PRESENTE
O cardeal Sandri recita a oração na Praça de São Pedro, a quatro quilómetros da que é hoje a casa obrigatória de João Paulo II. Mas os fiéis foram para o Gemelli, porque hoje quem quer ir ver o Papa é lá que tem de estar.
E da multidão à frente do hospital, o grupo maior é o português. Da Brandoa, São Domingos de Benfica e Nova Oeiras, 106 católicos vieram trazer o maior dos cartazes expostos: “Pedro estamos contigo – Comunidades de Neocatecumenos de Lisboa Saúdam o Papa”, com bandeira portuguesa pendurada.
A fachada do Gemelli é tão seca como o Hospital de Santa Maria. Com o aproximar do meio-dia foram saindo médicos de batas brancas e doentes de roupão – de dentro do hospital para fora, para ver o mais famoso hóspede que está lá dentro.
Um grupo coral de quinze homens, com ‘smoking’ e laço vermelho é dirigido por uma loura de vestido de veludo longo: “Somos americanos de origem polaca, de Nova Iorque, Long Island”. Uma garota nos ombros do pai atrai os fotógrafos. Tem um balão em forma de coração e rosa: “Papa te vogliamo tanto bene”. Queremos-te tanto. Um grupo de rapazes de boné amarelo faz claque como se torcesse pelo seu ponta-de lança: “Giovanni Paolo! Giovanni Paolo!”
Os portugueses postaram-se na rampa das ambulâncias. Eles iam em peregrinação ao Loreto e vieram ver o Papa, à sua nova casa. Clemente Sanches, da Brandoa, reformado de uma seguradora, acenou com lenço amarelo, gritou “Viva Papa”, enquanto a imagem de João Paulo II existiu e tirou fotografias depois de a janela se apagar.
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