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Pode voltar a acontecer

A Polícia britânica pediu desculpa por ter morto a tiro o electricista brasileiro Jean Charles de Menezes, mas defendeu ontem a política de ‘atirar a matar’ e alertou para a possibilidade de mais inocentes poderem ser mortos por engano.
25 de Julho de 2005 às 00:00
Junto ao local onde o electricista brasileiro foi morto os londrinos erigiram um memorial condenando o erro policial
Junto ao local onde o electricista brasileiro foi morto os londrinos erigiram um memorial condenando o erro policial FOTO: Mike Finn-Kelcey (Reuters)
O comissário da polícia de Londres, Ian Blair, considerou o assassinato do brasileiro, abatido com cinco tiros na cabeça, “uma tragédia”. Pediu desculpa à família da vítima, mas defendeu os agentes que cometeram o erro salientando “que os tempos são muito difíceis”. “Fazemos o possível por agir de forma correcta, mas pode voltar a acontecer”, salientou, considerando que “há agentes que continuam a ter de tomar decisões difíceis todos os dias”.
Blair reiterou, apesar de tudo, a versão oficial de que Menezes, de 27 anos, estava a ser seguido depois de sair de um bloco de apartamentos no sul de Londres que estava a ser vigiado depois dos atentados de quinta-feira. Confirmou igualmente que o brasileiro entrou em fuga, ignorando ordens para parar.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Jack Straw, lamentou igualmente o “lamentável” erro policial mas considerou que ele não compromete a investigação em curso.
BRASIL EXIGE EXPLICAÇÕES
No entanto, o reconhecimento de que o brasileiro foi abatido por engano suscitou grande tensão diplomática entre Londres e Brasília. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Celso Amorim, exigiu explicações, afirmando que “todo o país está chocado” com os acontecimentos.
Em Londres, dezenas de brasileiros manifestaram o seu repúdio realizando ontem uma vigília junto do quartel central da polícia.
“Tinham de matar alguém para mostrar à população que estão a trabalhar para manter o país seguro”, afirmou Alex Pereira, primo de Menezes, acusando a polícia londrina de “incompetência”.
Reunidos debaixo de uma chuva miúda que não parava de cair, os brasileiros ostentavam cartazes com inscrições como: “Cinco balas nos nossos corações” ou “Pedir desculpa não basta”.
Sobre o porquê de o electricista ter fugido dos polícias, levando-os a abrir fogo, Brenda Tedroni, de 18 anos, considerou que “quando a polícia grita ‘fujam, fujam’ e todos se precipitam em fuga, nada tem de surpreendente começar a correr”.
O governo enfrenta uma onda crescente de críticas, nomeadamente dos líderes muçulmanos britânicos, preocupados com eventuais actos de violência policial. “São seres humanos que estão a ser alvejados, seja pelos terroristas ou, como neste caso, pelas pessoas que supostamente estão a perseguir os terroristas”, afirmou Azzam Tamimi, da Associação Britânica de Muçulmanos.
Robin Cook, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, aliou-se às críticas muçulmanas, mas afirmou-se convencido de que “as directivas” serão corrigidas para evitar que “erros semelhantes se repitam”.
EMIGROU PARA AJUDAR A FAMÍLIA POBRE
Os habitantes de Gonzaga, no estado de Minas Gerais, onde nasceu Jean Charles de Menezes, estão consternados. O jovem de 27 anos, que este ano passou sete meses na localidade com a família e só tinha regressado a Londres há três meses, era muito querido na região, onde, além da fama de namorador, era tido como muito trabalhador, comunicativo e solidário.
A avó, Zilda Ambrósio de Menezes, de 77 anos, não queria acreditar: “Fiquei muito assustada e não entendi bem o que tinha acontecido, mas depois uma vizinha explicou-me”, afirmou entre lágrimas.
Os pais, Matuzinho de Oliveira e Maria Otoni de Menezes, que são doentes, passaram muito mal ao saber da morte do filho. Jean deixou os estudos aos 15 anos e começou a trabalhar para ajudar a família. Aos 18 foi para São Paulo trabalhar e há cinco anos foi tentar a vida na Europa.
Depois de um ano em Portugal, mudou-se para Londres, onde trabalhava como electricista durante o dia e como ajudante de cozinheiro à noite. Oriundo de um país tropical, andava sempre com um casacão na fria Londres.
Na quinta-feira, após os atentados, comentou com um amigo que ia comprar uma mota, pois ficara perigoso andar de metro. A polícia não lhe deu tempo.
DESENVOLVIMENTOS
MAIS UMA DETENÇÃO
A polícia prendeu na noite de sábado, no sul de Londres, um terceiro suspeito de “cometer, preparar ou instigar actos de terrorismo” em relação aos atentados falhados de dia 21. Mas apesar de as fotos dos quatro principais suspeitos terem sido divulgadas na sexta-feira, a polícia continua sem saber quem são.
ATENTADOS LIGADOS?
A Imprensa britânica referiu ontem que as autoridades investigam uma pista relacionando os bombistas dos atentados de dia 7 e dia 21. Ao que se sabe, dois dos suicidas fizeram a mesma viagem que os suspeitos dos segundos atentados, indo ao País de Gales para fazer ‘rafting’ na mesma data.
HOMENAGEM
Os familiares das vítimas dos atentados de dia 7 foram ontem aos locais da tragédia, para poderem prestar uma homenagem aos seus entes queridos. Acompanhados pela polícia, desceram às estações de Metro de Aldegate e Edgware Road e ao local onde rebentou o autocarro para depor flores.
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