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Portugal pronto a ajudar

Portugal está pronto para ajudar a travar o surto de cólera em Luanda. “Caso o governo angolano se decida a apelar à ajuda portuguesa, a nossa resposta é rápida. Temos isso bem organizado”, esclareceu ontem ao CM Carneiro Jacinto, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
28 de Fevereiro de 2006 às 00:00
“É obvio que ajudaremos, mas como? De que forma? E com quê? Só depois da reunião de quarta-feira [amanhã] é que vamos saber.” A declaração de Carneiro Jacinto é simultânea com contradições vindas de Angola.
É que, no mesmo dia, fonte oficial da Embaixada de Portugal em Luanda garantiu ao CM que o consulado nunca foi informado desta reunião. Já o director da Delegação Provincial da Saúde de Luanda, Vita Vemba, continua a garantir que o pedido de ajuda a Portugal será analisado amanhã, no decurso dessa mesma reunião, com o sector da Cooperação da Embaixada de Portugal na capital angolana, à qual o próprio presidirá. Informação que o consulado nega: “Se houve intenção de fazer a reunião, o pedido nunca chegou a ser formalizado.
Por outro lado, a evolução do surto é amenizada pela mesma fonte. “Até ver, não existe razão para accionar mecanismos de cooperação internacional. Os meios do governo estão a ser MAIS DEZ CASOS
Relativamente à evolução da cólera em Luanda, o CM apurou que ontem se registaram mais dez casos, ascendendo o número total de casos para 102. Recorde-se que já morreram dez pessoas com a doença. No combate à cólera estão a trabalhar 70 elementos da Delegação Provincial da Saúde de Luanda, entre os quais 14 médicos, engenheiros sanitários e técnicos de saúde. Existe ainda uma equipa de técnicos do Ministério da Saúde que produz e distribui folhetos explicativos sobre a doença e a forma de a combater.
Também estão envolvidos na operação de apoio dez militares da Guarnição de Luanda que todos os dias visitam as casas do Bairro da Boavista para saber se há doentes que necessitam de ser encaminhados para o centro de tratamento de cólera que está instalado no mesmo bairro. A Protecção Civil de Luanda, as empresas de distribuição de água e de limpeza e saneamento também estão a trabalhar no terreno. Todos os dias são distribuídos 168 mil litros de água potável à população.
O nosso jornal apurou ainda que dois clínicos dos Médicos Sem Fronteira da Bélgica estão a colaborar. Esses médicos, que já se encontravam em Luanda no âmbito de outras operações de ajuda, ofereceram-se para apoiar as autoridades sanitárias de Luanda no combate à cólera.
"O APOIO DE LISBOA É BEM-VINDO"
O ministro angolano da Saúde, Sebastião Veloso, disse ontem ao Correio da Manhã que “por agora a situação está mais ou menos estável”, acrescentando que “ao nível do tratamento e de medicamentos não há para já problemas a registar”. Contudo, o ministro referiu que “registamos com conforto e agrado o facto de Lisboa estar disponível para nos ajudar, é a prova da amizade que existe entre os povos de Angola e de Portugal, por isso o apoio é bem-vindo”.
Sebastião Veloso frisou que “os materiais e medicamentos que estamos agora a utilizar no combate à cólera são ainda da oferta que Portugal fez a Angola quando da doença de Marburg”. “Para já não vamos fazer um apelo internacional de ajuda porque temos ‘stock’ de material e medicamentos para atender até 500 casos, mas caso seja necessário contamos já com a disponibilidade portuguesa”, acrescentou.
O ministro referiu ainda que visita duas a três vezes por dia o Bairro da Boavista, pelo que está a acompanhar, em conjunto com a Delegação Provincial da Saúde de Luanda, todas as operações no terreno.
"EDUCAÇÃO É ESSENCIAL PARA TRAVAR DOENÇA" (ALBINO ANTUNES, ESPECIALISTA EM MEDICINA TROPICAL)
Correio da Manhã – O que é a coléra?
Abílio Antunes – Trata-se de uma doença transmitida por uma bactéria, em que o contágio é feito através da água e dos alimentos contaminados.
– Como se contagia?
– Pode ser quando se manejam doentes ou cadáveres. Em determinadas zonas de África, quando uma pessoa morre, o corpo é velado durante dias pela família, vizinhos e amigos, muitas vezes sem cuidado. As pessoas tocam no corpo e, depois, sem lavar as mãos, vão manusear os alimentos. Nestes casos podem contrair a doença, o mesmo acontecendo com o pessoal médico que não tiver os devidos cuidados.
– Quais são os sintomas?
– Diarreia aquosa e, em muitos casos, vómitos.
– De que forma é feito o tratamento?
– A espinha dorsal está na reposição de água e sais perdidos. A doença pode ter uma taxa de mortalidade de 50 por cento, que se reduz até zero quando o tratamento é adequado.
– Não existem antibióticos ou vacinas?
– Sim, mas os antibióticos apenas são dados para reduzir o tempo de internamento do doente e libertar camas. Quanto às vacinas, elas existem, mas são caras.
– De que forma é que se pode travar a doença num país como Angola?
– Uma educação para a saúde é essencial. Deve explicar-se às pessoas que têm de beber água com qualidade, cozinhar os alimentos e mantê-los tapados, para evitar que os insectos, como as moscas, que estiveram em contacto com os esgotos os possam contaminar.
– Quais os conselhos para os visitantes destas zonas?
– Beber sempre água engarrafada, não consumir gelo ou saladas, uma vez que não se sabe qual a origem da água, assim como gelados e mariscos. É que, como os esgotos são lançados ao mar sem qualquer tipo de tratamento, as bactérias podem contaminar o marisco.
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