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Correio da Manhã

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Portugueses de férias já saíram

Há cinco anos na Guiné--Bissau, Pedro B., de 41 anos, empresário no ramo alimentar, já assistiu a tudo. A ponto de, hoje, já nem encolher os ombros, resig-nado: "Nas minhas contas, já levo cinco golpes de Estado. Alguns sangrentos, ainda que os três últimos não fizessem vítimas", diz ao CM. Sentado na esplanada da piscina de um hotel de Bissau, de calções e t-shirt com o símbolo dos AC/DC e de chinelos, fuma desalmadamente uma imitação de tabaco americano e bebe um refrigerante com muito gelo.
18 de Abril de 2012 às 01:00
Militares proibiram novas manifestações em Bissau e ameaçaram com “repreensão severa”
Militares proibiram novas manifestações em Bissau e ameaçaram com “repreensão severa” FOTO: Andre Kosters/Lusa

Em quinze minutos recebeu mais de dez chamadas da família e dos amigos. "Tudo bem por aqui. Por enquanto não penso em sair", diz, tranquilo. "Tudo o que tinha em Portugal foi deslocado para Bissau, portanto agora sou mais daqui", conta. A namorada, uma guineense, sorri, apenas mostrando os dentes imaculadamente brancos.

Até ontem a embaixada de Portugal teve apenas conhecimento da saída, pela fronteira terrestre de N’Pack, em direcção a Ziguinchor, no Senegal, de dez portugueses, de férias na Guiné--Bissau, apanhados no fogo cruzado. "Saíram e já estão em Portugal", garantiu ao CM uma fonte da representação diplomática portuguesa em Bissau.

"Recebemos telefonemas de portugueses residentes no país a perguntar sobre o evoluir da situação, mas nem seria necessário, pois a embaixada contactará cada português em caso de necessidade de uma evacuação", acrescentou a mesma fonte.

DIÁRIO DE BISSAU

A MISSIONÁRIA DE BRAGANÇA

Quero contar-lhe a minha história", diz-me a missionária Maria P., agarrando--me pelo braço. É pequenina, frágil, usa óculos de graduação forte, mas nada lhe escapa. "João" – diz para o doente guineense, "avisa os outros que está na hora do banho, pois daqui a duas horas desligamos o gerador." Leva-me à cozinha, bem ventilada, com tachos enormes arrumados a uma canto – e depois à despensa. O hospital tem arroz para cerca de um mês (os pacientes não chegam a trinta), mas começa a faltar o mais essencial, a água. "Como andamos a poupar no gasóleo, e temos vários depósitos de 10 mil e mais litros, enchê-los leva um bom tempo", lamenta. A irmã Maria é portuguesa da fria e distante Bragança. Esteve na Venezuela e na Bolívia, antes de rumar a África. Não sente saudades de nada. Olha-me fixamente e pergunta, embaraçada: "Quando é que tudo isto acaba?". Boa pergunta, para os militares responderem…

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