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Correio da Manhã

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Portugueses em fuga do Egipto

Um grupo de 47 portugueses residentes no Egipto passou ontem horas de tensão e angústia no aeroporto do Cairo devido ao atraso do voo de repatriamento para Portugal. O avião enviado para realizar a operação, um C130 da Força Aérea Portuguesa, tinha partida prevista para as 10h30, mas atrasos sucessivos fizeram com que ao fim do dia aguardasse autorização de partida, o que acabou por acontecer pouco antes das 21h30 (23h30 no Cairo).
2 de Fevereiro de 2011 às 00:30
Entre os cidadãos de regresso a Portugal estão uma mãe e o seu bebé de seis meses
Entre os cidadãos de regresso a Portugal estão uma mãe e o seu bebé de seis meses FOTO: Manuel de Almeida/Lusa

Composto por residentes que decidiram deixar o país devido à instabilidade causada pelos protestos contra o regime do presidente Hosni Mubarak, o grupo passou um dia de imensa angústia fechado no aeroporto da capital egípcia.

A maioria deles chegou bem cedo à embaixada, deslocando--se depois para o aeroporto em dois autocarros escoltados por elementos do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP.

Mas às 16h30 (18h30 no Cairo), Pedro Nunes, um dos portugueses, contou que estavam ainda "na zona de controlo de passaportes, com a esperança de partir dentro de uma hora, mas sem quaisquer certezas."

Mais de três horas volvidas, Rafael Nunes, outro elemento do grupo, mostrava-se desanimado e revoltado: "Estamos na fila há várias horas e temos receio de que os funcionários se vão embora e o aeroporto encerre, deixando-nos aqui mais uma noite."

Insurgindo-se contra a desorganização do processo, acrescentou: "Percebo que é uma situação difícil, mas cheguei às oito da manhã e estou aqui sem saber se vou e quando vou."

O embaixador de Portugal, Aristides Vieira Gonçalves, explicou que o atraso se ficou a dever "inteiramente a questões burocráticas", não estando relacionado com as dificuldades de deslocação numa cidade invadida por dezenas de milhares de pessoas.

"Isto é uma situação atípica, e eles [autoridades egípcias] não estão preparados. Há papéis a preencher e formalidades a cumprir, e é isso que está a atrasar o processo", assegurou o embaixador à TSF, confirmando que a bordo do voo de ontem viajaram 47 portugueses.

Hoje, um segundo C130 partirá do Cairo, confirmou ainda Aristides Gonçalves: "Com menos portugueses, naturalmente, mas o avião foi posto à disposição de cidadãos de outros países europeus, como a Irlanda, e países de expressão portuguesa, como a Guiné, o Brasil e Moçambique."

Entretanto, sete portugueses que estavam no Egipto ao serviço da Cimpor chegaram a Lisboa ao início da tarde num voo da TAP. O voo partiu de Milão, para onde foram transportados num voo fretado pela empresa.

MARÉ HUMANA NO CAIRO

Um milhão de pessoas inundou ontem as ruas das principais cidades do Egipto, naquele que foi o mais gigantesco protesto em oito dias de manifestações contra os trinta anos de ditadura do presidente Hosni Mubarak. Ao início da noite, o presidente anunciou na TV que não se recandidata em Setembro, e promete liderar uma transição pacífica.

Na praça Tahrir (ou praça da Liberdade), foco das manifestações no Cairo, dezenas de milhares de pessoas revezaram-se ao longo do dia, numa maré humana que não parou de gritar contra o regime. "Ele vai, mas nós não", cantavam centenas de vozes em coro.

Como que em resposta, Mubarak prometeu, em directo: "Morrerei no Egipto e só a História me julgará."

Mas, nas ruas, nem a noite nem o discurso fizeram esmorecer o entusiasmo. Tendas, sacos-cama e fogueiras eram visíveis na praça Tahrir, sinal da intenção de não recuar.

"Estamos aqui porque queremos ser ouvidos. Não partiremos até Mubarak se demitir", afirmou à BBC um dos manifestantes.

O Nobel da Paz e líder oposicionista Mohamed ElBaradei frisou que tem de sair até sexta-feira e que só haverá diálogo para a transição depois disso.

Entretanto, EUA, Turquia e União Europeia aumentaram a pressão, instando Mubarak a preparar a transferência de poder.

"MUÇULMANOS COM CRISTÃOS": Manuel José, Treinador do al-Ahly, Egipto

Correio da Manhã – Como foi o dia da greve geral?

Manuel José – As coisas acalmaram. Estou na varanda do hotel e vejo muita gente com megafones. Muçulmanos e cristãos estão unidos nesta altura.

– Mas continua o clima de tensão?

– Fugiram mais de três mil presos de uma cadeia. Muitos têm fugido. Os ladrões aparecem sempre e já ocorreram saques. A polícia desapareceu, mas vê-se militares nas ruas.

– Mantém a sua rotina diária?

– Hoje não saí do hotel. O recolher obrigatório começou mais cedo e fomos ficando por aqui, sem problemas. Os militares controlam os carros, fazem revistas, mas apenas isso.

– Está calmo?

– Sim. Por isso não vejo razões para sair daqui, a não ser que a situação se agrave.

REI JORNADO DEMITE 1º MINISTRO

O rei Abdullah da Jordânia, aliado dos EUA, nomeou ontem Marouf Bakhit para substituir Samir Rifai na chefia do governo, na sequência de protestos inspirados nas manifestações das últimas semanas na Tunísia e no Egipto.

Bakhit, antigo conselheiro militar, foi nomeado após o monarca ter aceite a resignação de Rifai, cuja demissão foi exigida numa série de protestos por todo o país. No entanto, a oposição considera ainda insuficiente a nomeação de um novo primeiro-ministro.

SINAGOGA ATACADA NA TUNÍSIA

O Exército tunisino regressou ontem às ruas, depois de desconhecidos terem incendiado uma sinagoga na cidade de Gabes (sul) e grupos de jovens terem atacado escolas e intimidado populares na capital, Tunes, e noutras cidades.

As autoridades atribuem estes actos de violência a grupos de delinquentes, pagos pelo deposto presidente Ben Ali ou pelo seu partido RDC, para semear o caos.

Em Kasserine, onde na segunda--feira grupos armados com armas brancas e paus vandalizaram lojas e intimidaram residentes, centenas de pessoas saíram ontem à rua para exigir mais segurança.

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