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Portugueses fora da guerra civil

A noite de quarta-feira foi a mais violenta de uma semana de confrontos em cidades e bairros dos arredores a norte de Paris. Dezenas de jovens, alguns deles armados, atacaram a polícia e as equipas de bombeiros, ferindo quatro agentes e dois soldados da paz.
4 de Novembro de 2005 às 00:00
Um imenso rasto de destruição continua a crescer nos arredores da capital francesa
Um imenso rasto de destruição continua a crescer nos arredores da capital francesa FOTO: TRAVERS/EPA
Pelo menos 177 veículos foram incendiados e uma escola, um centro comercial e uma esquadra da polícia foram saqueados. Interpelados pelo Correio da Manhã, representantes da comunidade portuguesa afirmam não haver até ao momento casos conhecidos de jovens lusos envolvidos na violência. Mas o secretário de Estado das Comunidades, António Braga, garantiu que “caso os portugueses tenham problemas de insegurança devem contactar o consulado, embaixada e conselheiros das comunidades portugueses”, que já accionaram planos para o efeito.
Um cenário de verdadeira guerra civil foi o que restou de uma noite infernal vivida em nove subúrbios da capital francesa. Pela primeira vez, os revoltosos usaram armas de fogo, facto que põe em relevo o provável envolvimento de grupos de crime organizado nos tumultos.
“Estes são bairros onde já moraram muitos mais portugueses do que agora”, explicou ao CM Carlos Pereira, presidente do Conselho das Comunidades Portuguesas, salientando que se trata de bairros sociais degradados. Paulo Marques, vereador de Aulnay-sous-Bois, cidade onde ontem os confrontos foram mais violentos, explicou, por seu lado, que a maioria dos habitantes das zonas de conflito é magrebina. “Esta é uma cidade de 80 mil habitantes, cinco mil dos quais são portugueses”, afirmou, explicando que, “no bairro onde se deram os confrontos, a Roda dos Ventos, residem cerca de uma centena de portugueses”.
O vereador luso salientou ainda a preocupação que se vive na comunidade lusa, mas mostrou-se convicto de que “não há portugueses envolvidos nos distúrbios”. Não há também, garantiu, casos conhecidos de empresários e comerciantes lusos directamente atingidos pelo rasto de destruição dos confrontos.
INQUÉRITO TARDIO
O ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, anunciou ontem, algo tardiamente, a abertura de um inquérito à morte dos jovens. O procurador, François Mollins, revelou que as investigações até agora realizadas confirmam a versão dos agentes da autoridade, segundo a qual os jovens não eram perseguidos quando entraram num transformador eléctrico de Clichy-sous-Bois.
EXCLUSÃO SOCIAL TAMBÉM ATINGE LUSOS
“Os portugueses estão um bocadinho fora disto. Mas, apesar disso, há alguma revolta e solidariedade com aquilo que se passa, sobretudo da parte dos jovens”, afirmou ao CM o jornalista Armando Silva, da Rádio Alfa, em Paris, salientando que não há, até agora, “casos concretos conhecidos” de envolvimento de luso-descendentes nos conflitos dos arredores da capital francesa.
Apesar disso, o jornalista frisa a probabilidade de isso acontecer, em parte de devido à progressiva desagregação da comunidade lusa. “Havia até há pouco tempo uma certa solidariedade entre famílias e o seguimento de um certo número de princípios, mas isso começa a perder-se”, afirmou.
Armando Silva considerou ainda que a violência foi empolada pelo governo, que nada tem feito para combater as causas da exclusão social.
CRISE REACENDE RIVALIDADES POLÍTICAS
Os graves confrontos nos arredores de Paris puseram uma vez mais em relevo a rivalidade entre o primeiro-ministro, Dominique de Villepin (foto de cima), e o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy.
O facto de serem ambos candidatos às presidenciais de 2007 explica muita coisa e leva alguns a acusá-los de empolar a crise para se promoverem. Sarkozy incendiou os ânimos ao classificar de “escória” os jovens envolvidos nos primeiros incidentes e falhou, até agora, o cumprimento da promessa de impor a lei e a ordem.
Uma semana depois, Villepin saiu a terreiro, como um eco de Sarkozy, a prometer que “a lei e a ordem terão a última palavra”. Se a paz voltar nos próximos dias, é certo que ambos tentarão recolher os louros.
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