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Portugueses temem política norte-americana

A maioria dos portugueses considera os EUA a maior ameaça à paz mundial. Este é o resultado de uma sondagem realizada para o Correio da Manhã pela Aximage, segundo a qual 52,3% concordam com essa ideia, 37,6% não concordam e 10,1% não têm opinião sobre o assunto.
3 de Julho de 2006 às 00:00
Se é certo que a opinião dos cidadãos nacionais, tal como reflectida neste estudo, tem peso irrisório na orientação da política norte-americana é também verdade que indicia uma tendência cada vez mais consensual nos países europeus. Independentemente de a opinião ser verdadeira ou não, o aparente descrédito americano é o resultado, entre outras coisas, do impacto negativo da invasão do Iraque e da persistente insegurança em que o país está mergulhado, e ainda dos sucessivos escândalos de torturas a presos suspeitos de terrorismo.
O facto de até mesmo entre os votantes dos partidos tradicionalmente mais alinhados com os EUA, como o PSD, haver uma maioria de ‘anti--americanos’ revela até que ponto a crispação causada pelas políticas hegemónicas de Bush é alheia à filiação partidária, embora ganhe maior ênfase nos extremos. É, no entanto, entre os sociais-democratas que o equilíbrio entre ‘sim’ e ‘não’ é maior (46,6 e 44,3 respectivamente). A seguir ao Bloco de Esquerda o mais anti-americano é a CDU, com 70,6%, seguida do CDS/PP, com 63,7% a considerar os EUA a maior ameaça à paz mundial.
O estudo, realizado com base em entrevistas telefónicas recolheu opiniões de pessoas de ambos os sexos, com idades a partir dos 18 anos, de todos os níveis de escolaridade, regiões do País e tendências políticas. Tendo em conta os diversos níveis de análise possíveis, verifica-se, por exemplo, que a ideia tem maior apoio entre os seguidores do Bloco de Esquerda e menor entre os do PSD. O PS fica entre os dois, com 54,5%, mais apoio no Interior Norte do que no Litoral Norte e Centro-Sul e muito maior apoio entre mulheres do que homens (57,2% contra 46,7%).
Um aspecto significativo da sondagem é o facto de em nenhum dos parâmetros do estudo ter vencido a opinião dos que discordam deste ponto de vista. A única excepção é quando se considera os habitantes das cidades, mas mesmo aí a vitória do ‘não’ é residual: 45,5% disseram não contra 45,3 que disseram sim.
FICHA TÉCNICA
UNIVERSO: Indivíduos inscritos nos cadernos eleitorais em Portugal em lares com telefone fixo.
AMOSTRA: Aleatória estratificada por região, habitat, sexo, idade, instrução e voto legislativo, polietápica e representativa do universo, com 500 entrevistas efectivas, das quais 276 a mulheres. PROPORCIONALIDADE: a proporcionalidade pelas variáveis de estratificação é obtida com reequilibragem amostral;
TÉCNICA: Entrevista telefónica C.A.T.I. (computer assisted telephone interview); Trabalho de Campo: O trabalho de campo decorreu entre os dias 20 e 22 de Junho de 2006;
RESPOSTAS: Taxa de resposta de 70,5%. Desvio padrão máximo de 0,021.
RESPONSABILIDADE DO ESTUDO: Aximage Comunicação e Imagem Lda., sob a direcção técnica de Jorge de Sá.
COMENTÁRIOS
'PREOCUPANTE' (Loureiro dos Santos, General)
“É preocupante. Significa uma desconfiança da opinião pública face aos EUA, que representa a diminuição do seu poder, pois grande parte do poder de uma potência é determinado pelo grau de confiança que as populações têm nela. Relativamente à questão do Iraque, por exemplo, a reacção pública tem algum fundamento. Mas os EUA têm mantido outros comportamentos perturbadores. É o caso de Guantanamo ou de métodos de tortura no interrogatório de prisioneiros.”
'LIÇÃO A BUSH' (Medeiros Ferreira, Historiador)
“Penso que há um exagero nessa percepção, mas também pode ser que estas opiniões vão servindo de lição à administração Bush para ser menos aventureira nas suas fanfarronadas internacionais. Os EUA foram atacados mas a resposta de Bush não tem sido inteligente. Tem alienado muitos aliados. Os EUA eram vistos como uma potência amiga da paz e, por isso, há aqui uma mudança que indica inquietação com a forma que têm assumido, sobretudo desde o Iraque”.
'FIZERAM ERROS' (Ângelo Correia, Empresário)
“Discordo dos resultados da sondagem. Mas os EUA têm dois problemas, o primeiro é serem uma potência hegemónica mundial, a ponto de vivermos uma situação de uma quase ‘unimultipolaridade’; em segundo lugar, porque fizeram alguns erros, que em vez de potenciarem o seu estatuto de potência hegemónica, criaram vulnerabilidades para si e para a Europa. Ou seja, prejudicaram a relação transatlântica.”
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