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Correio da Manhã

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POWELL APRESENTA PROVAS CONTRA O IRAQUE

O secretário de Estado norte-americano (ministro dos Negócios Estrangeiros), Colin Powell, apresentou ao Conselho de Segurança fotografias de satélite e gravações de conversas telefónicas que alegou constituírem provas de que o regime iraquiano não cumpriu a “última oportunidade” dada pela Resolução 1441 para se desarmar.
5 de Fevereiro de 2003 às 17:44
Durante quase uma hora e meia Powell discursou à mesa do Conselho de Segurança (CS), intercalando a retórica com a reprodução de gravações e de imagens, na presença do embaixador do Iraque junto da ONU, convidado pela presidência alemã do CS para se sentar à mesa do debate.

O chefe da diplomacia norte-americano começou por referir que o Iraque violou 16 resoluções emitidas pelo CS nos últimos 12 anos e concluiu que não cumpriu a mais recente, a 1441, pelo que, e citamos, se “colocou à mercê de enfrentar graves consequências”. Para consubstanciar as acusações, Powell apresentou provas, ressalvando: “Não posso dizer-vos tudo o que sabemos”.

“CAMPANHA DELIBERADA”

Para provar que o Iraque desenvolve uma – e citamos – “campanha deliberada para impedir inspecções eficazes (...), num esforço sistemático para esconder materiais e pessoas”, Powell começou por apresentar a alegada gravação de uma conversa telefónica entre um general e um coronel da Guarda Republicana, o corpo militar mais fiel ao líder Saddam Hussein. Nessa conversa, datada de 26 de Novembro de 2002 (véspera do início das inspecções pela ONU), o coronel informa o general de que já tem “o veiculo modificado” e garante: “Evacuámos tudo”.

Uma segunda gravação, datada de 30 de Janeiro (dez dias depois de Bagdad garantir que iria ajudar a procurar mais munições capazes de serem equipadas com agentes químicos, na sequência da descoberta de quatro, a 16 de Janeiro), reproduz uma comunicação entre o quartel-general da Guarda Republicana e um comandante no terreno. Nessa gravação, o quartel-general avisa que os inspectores vão visitar aquele local e ordena que seja tudo escondido e a mensagem destruída.

Powell revelou, nessa fase do discurso, que Saddam Hussein tem uma comissão especialmente formada para espiar os inspectores, constituída por um vice-presidente do regime, por um filho seu e pelo general que é o principal elo de ligação com os inspectores. Washington garante, através de informação recolhida por espiões, que em Dezembro Saddam deu ordens para esconder documentos e discos rígidos de computador nas residências particulares de cientistas, membros do partido no poder (Baas) e membros do governo; e mandou retirar todas as armas escondidas nos seus palácios. Facto é que foram encontradas duas mil páginas de documentos na residência de um cientista. “Devemos visitar a casa de toda a gente?”, perguntou Powell.

O chefe da diplomacia norte-americana revelou ainda que está constituída, com base próxima de Bagdad, uma brigada militar com a única missão de dispersar material comprometedor. Estes serviços de limpeza foram ilustrados com fotos de satélite de locais de armazenamento de munições tiradas muito antes e pouco antes das visitas dos inspectores. Nas imagens eram vistos camiões junto aos locais.

Powell acusou ainda Saddam de ter ameaçado todos os cientistas no país e de ter treinado agentes em contra-inteligência, para substituir os trabalhadores de algumas fábricas durante as inspecções. Por tudo isto, Powell concluiu: “Basta!”

PROGRAMAS DE ARMAS

Powell referiu que o Iraque demorou três anos até admitir à UNSCOM (missão de inspecções expulsa do Iraque em 1998) que tinha armas biológicas. Num momento encenado, o chefe da diplomacia norte-americana pegou num pequeno frasco, lembrando que uma colher de chá de antraz forçou á evacuação do Capitólio, para referir que o Iraque admitiu ter produzido 8.500 litros daquela substância mortal. Os EUA calculam que o Iraque tenham produzido 25.000 litros.

Ao referir-se ao programa iraquiano para o fabrico de armas biológicas, Powell afirmou que a peça central desse programa são fábricas móveis, assentes em carris e sobre rodas. Washington alega que o Iraque tem 18 camiões-fábrica e que entre 3 a 4 juntos formam uma unidade de produção, capaz de ser instalada em qualquer lugar, em qualquer momento.

Garantindo que o Iraque já conseguiu transformar em arma pelo menos quatro agentes biológicos, Powell revelou que os iraquianos tentaram colocar tanques de dispersão de pó em aviões Mirage e MIG-21. O Iraque alega ter destruído agentes e quatro tanques, mas nunca apresentou provas disso.

Quanto às armas químicas e lembrando que Saddam já as usou contra a minoria curda (5 mil curdos mortos em 1988), Powell referiu que o Iraque deverá ter 500 mil toneladas de agentes químicos. “Temos provas que existira, não temos provas da sua destruição”, referiu. O diplomata norte-americano disse que Saddam planeou o seu programa químico por forma a poder ser inspeccionado sem compromisso, dispersando as componentes da produção por instalações civis legítimas.

Sobre o programa de armas químicas, Powell afirmou que Saddam tem uma rede clandestina para efectuar compras no estrangeiro, mostrou a foto de um local a ser ‘limpo’ (operação confirmada pelo testemunho de um desertor) e apresentou a gravação de mais uma conversas telefónica, na qual um comandante militar ordena a outro que nunca mais refira o termo “agente de nervos’ nas comunicações. Powell disse ainda que Saddam usou 1.600 presos como cobaias neste programa.

Sobre o programa nuclear, Powell referiu que se não fosse a Guerra do Golfo Saddam teria uma bomba atómica em 1993 e garantiu que o líder iraquiano continua empenhado em conseguir esse objectivo. De acordo com Washington, Saddam tá tem dois dos três elementos necessários para fabricar uma bomba atómica (recursos humanos e desenho), faltando-lhe apenas material físsil suficiente, o que tem tentado obter, comprando materiais (os ‘famosos’ tubos de alumínio) capazes de serem usados em centrífugadoras para enriquecer urânio.

Paralelamente ao desenvolvimento destas armas de destruição massiça, Saddam tem desenvolvido meios para as transportar, nomeadamente mísseis de longo alcance (que violam resoluções da ONU) e pequenos aviões não tripulados. Powell juntou à denúncia fotos de uma rampa de lançamento e de um pequeno UAV (veículo aéreo não tripulado), capaz de voar 500 quilómetros sem reabastecimento e de espalhar pó no ar.

LIGAÇÃO À AL-QAEDA

Em contradição directa com um alegado relatório elaborado pelos serviços secretos britânicos e hoje tornado público, Powell estabeleceu uma ligação directa entre o regime iraquiano e a organização terrorista al-Qaeda. A peça fundamental desse elo é Abu Musab Zarqawi, um colaborador próximo de Osama bin Laden que gere uma rede internacional com base em Bagdad.

Segundo Powell, os contactos entre Bagdad e a al-Qaeda remontam a 1996 e foram desenvolvidos pela necessidade de a organização terrorista ampliar as suas capacidades tóxicas. De acordo com Powell, existe um campo de treino de terroristas no Norte do Iraque, do qual apresentou uma imagem de satélite, especializado em guerra química.

Recordando ainda os actos de “crueldade calculada” praticados por Saddam contra os próprios iraquianos, sublinhando as suas ambições regionais e confrontando isso com as provas apresentadas, Powell garantiu que Washington não vai correr o risco de enfrentar um futuro com medo, concluindo que “Saddam pára por nada, até que alguém o páre”.
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