Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
7

POWELL LEVA PROVAS À ONU

O secretário de Estado norte-americano vai hoje apresentar perante o Conselho de Segurança da ONU as provas que prometeu contra o Iraque. Na véspera, Colin Powell avisou que não levará uma prova flagrante, mas sim documentos que indicam que Bagdad não está a cumprir a resolução 1441, que exige ao regime a destruição de todas as armas de destruição maciça.
5 de Fevereiro de 2003 às 00:00
“Não haverá evidências flagrantes, mas provas relativamente a programas de armas, que o Iraque tanto se esforça para esconder” – informou Powell num comentário ao Wall Street Journal, rematando: “Em suma, vamos demonstrar clara e sobriamente que Saddam Hussein está a ocultar provas sobre o seu programa de armas de destruição maciça”.

Durante aproximadamente uma hora, Powell vai apresentar documentos, fotografias de satélite e provavelmente também transcrições de conversas interceptadas entre oficiais iraquianos que provarão, eventualmente, que o Iraque está a ocultar armas aos inspectores da ONU. Ontem, circulavam nos bastidores informações de que Powell poderá igualmente apresentar imagens de laboratórios móveis para o fabrico de armas biológicas.

De referir que o secretário de Estado recebeu ajuda de Emma Nicholson, vice-presidente da Comisão dos Negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu, que afirma ter entregue ao chefe dos inspectores da ONU, Hans Blix, provas fornecidas por iraquianos sobre aquisição e armazenamento de armas de destruição maciça. Nicholson não adiantou de que tipo de provas se tratava.

Com ou sem provas conclusivas, a verdade é que um ataque contra o Iraque não reúne o consenso dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Ainda ontem Moscovo emitiu um comunicado em que afirmava taxativamente que os elementos sobre os programas de armamento que os EUA apresentarem hoje perante a ONU devem servir para o prosseguimento das inspecções pelos especialistas em desarmamento. Igor Ivanov, chefe da diplomacia russa, adiantava que todas as informações que os norte-americanos apresentarem devem ser ‘atentamente examinadas’ pelos inspectores da ONU e da Agência Internacional de Energia Atómica, que ontem encontraram mais uma ogiva química vazia.

A França, que também tem direito de veto mostra-se, tal como a Alemanha, grande resistência a dar o aval ao ataque (ver página 21). O mesmo sucede com a China, que tem insistentemente apelado ao diálogo.
Mas Washington há muito que fez saber que poderá avançar sem o acordo da ONU. Para tanto conta já com uma dezena de aliados, entre os quais Portugal, que assinaram um manifesto de apoio aos EUA. A Turquia, que não figura entre os países que assinaram o manifesto, prepara-se para dar ‘luz verde’ à passagem de 30 mil soldados en trânsito para o Iraque.

No Golfo, o cenário está montado, com soldados americanos à espera apenas da ordem para avançar.

SADDAM NEGA LIGAÇÕES À AL-QAEDA

Numa entrevista ao Channel Four, cadeia de televisão britânica, o presidente iraquiano negou quaisquer ligações com o grupo terrorista al-Qaeda, de Osama bin Laden, e afirmou que os EUA e o Reino Unido estão decididos a avançar com a guerra para controlar o petróleo no Médio Oriente.

“Se tivessemos alguma relação com a al-Qaeda e acreditássemos nela, não teríamos vergonha de o admitir” – afirmou o líder iraquiano na entrevista feita na semana passada pelo antigo deputado britânico Tony Benn e ontem transmitida pela Channel Four.

Saddam insistiu ainda que o seu país não tem armas de destruição maciça e acusou a Grã-Bretanha e os Estados Unidos de quererem a guerra para controlar o petróleo do Médio Oriente. “O Iraque não tem qualquer interesse numa guerra, nenhum cidadão ou governante iraquiano expressou qualquer vontade de guerra” – afirmou ainda o presidente do Iraque, num tom interpretado por muitos analistas como moderado, face à inflamada retórica das últimas semanas.

Refira-se que a entrevista foi conduzida pelo ex-deputado trabalhista Tony Benn, considerado uma figura emblemática da esquerda britânica. O antigo parlamentar tem criticado duramente o apoio do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, à política bélica norte-americana contra o Iraque, tal como têm feito actuais deputados trabalhistas.

DESENVOLVIMENTOS

OCUPAÇÃO

Oficiais britânicos de alta patente receberam ordens para preparar a ocupação do Iraque, que poderá durar até três anos após a guerra.

ESPIÕES

O Reino Unido acusou agentes iraquianos de instalar microfones nos telefones dos inspectores da ONU e esconder documentos em mesquitas.

VOLUNTÁRIOS

Perto de 50 mil voluntários iraquianos desfilaram ontem em Mossul, sob o olhar atento do ‘número dois’ do regime, Ezzat Ibrahim.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)