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Primeiro-ministro com blogue

Para a nova França de Sarkozy, o primeiro-ministro François Fillon é a cereja da modernização determinada no topo do bolo da vitória eleitoral. Homem de valores, princípios e raízes, o escolhido para controlar a mudança é exactamente o contrário do presidente. Em vez de tempestivo, agressivo e autoritário é temperado e educado como é normal nos filhos de boas famílias da província, mas nem por isso menos firme nas convicções e criativo na concertação. Curiosamente, mantém desde há ano e meio um blogue com o título ‘A França pode suportar a verdade’, onde expõe as suas opiniões e estados de alma e se confronta com o todo o género de críticas.
19 de Maio de 2007 às 00:00
Primeiro-ministro com blogue
Primeiro-ministro com blogue FOTO: Jacky Naegelen, Reuters
Quem quiser conhecer este homem em profundidade pode apreciá-lo em www.blog-fillon.com. Aos 53 anos de idade mantém antigas paixões. Pela história da França que bebeu no regaço da mãe historiadora e pelo desporto automóvel que há dezenas de anos marca a sua região, La Sarthe e a cidade de Le Mans com o circuito das ‘24 Horas’. A primeira alimenta-lhe o pensamento político. A segunda satisfá-la com alguns devaneios como participar numa prova das ‘24 Horas de Le Mans’ de clássicos, fazendo equipa com Henri Pescarolo, ao volante de um Ferrari.
Parece que também cultiva com afecto as suas origens rurais. Sempre que tem tempos livres dedica-se com paciência à restauração de uma casa de agricultor do séc. XVIII, que possui em Solesnes, onde é conselheiro municipal desde 2001. Antes fora ‘maire’ numa localidade vizinha, Sablé-sur-Sarthe, e vive por lá sem se preocupar com a iluminação dos media.
Este estilo pessoal facilita o seu acerto de posições com Sarkozy que quer ser o mais presidencialista de todos os presidentes da V República. A Fillon, com experiência de reformas à frente das pastas dos Assuntos Sociais e da Educação, está reservado o papel de n.º 2 que ele pretende desempenhar com brilho. Por alguma coisa disse em tempos: “Das presidências de Chirac só se recordará as minhas reformas”.
Classificado de ‘gaullista social’ mas mais liberal do que costumam achá-lo, tem pautado pela fidelidade. Foi de resto por bons serviços prestados ao líder político da sua região que, após a sua morte, conseguiu ser facilmente eleito para deputado em 1981, nas legislativas consequentes à vitória presidencial de François Mitterrand e marcadas pela maior maré-alta de sempre da Esquerda na Assembleia Francesa. Aos 27 anos, foi o benjamim do Parlamento lançado para uma carreira sem falhas. Foi reeleito em 1986, 1988 (outra vez contracorrente após reeleição de Mitterrand), 1993, 1997 e 2002. Por força da promoção política também será facilmente reeleito nas próximas legislativas de 10 e 17 de Junho.
Quanto à força política não há ilusões. Ele será o n.º 2, como sugere uma pequena história contada esta semana na revista ‘Nouvel Observateur’: o novo presidente requereu para si próprio a moradia ‘Pavillon de la Lanterne’ no parque do palácio de Versailles, residência oficial dos primeiros-ministros da V República, remetendo o novo chefe do governo para o castelo de Souzy-la-Briche, mais distante, no departamento de Essonne. Fillon estava obviamente avisado e reagiu com a fleuma habitual. Como não podia deixar de ser não deu importância ao caso.
À sua maneira, François Fillon tem, contudo, o seu sonho de França que é evidente em tudo o que escreve no seu blogue. Segue uma ideia de grandeza tão educada como determinada. Repete há cinco anos que a esquerda instalou no país uma ditadura da mediocridade, que destruiu a universidade, e uma tolerância demagógica, que paralisa a polícia e a justiça.
E contra este estado de coisas considera que a solução é a maior eficácia do Estado e a maior responsabilidade dos cidadãos. Já mostrou o seu talento na reforma da Segurança Social, a avaliar pela estabilidade que lhe dá o recente estudo do Banco de Portugal. As novas tarefas são impor o respeito das leis, libertar a educação de peias e melhorar a vida dos mais pobres e excluídos, porque é do seu desespero que se alimenta a violência. Dentro de seis meses ver-se-ão os resultados da nova política Sarkozy-Fillon.
PAI ATENTO COM 5 FILHOS
François Fillon nasceu a 4 de Março de 1954, em Le Mans, filho de uma historiadora de origem basca e de um notário. Ele e os três irmãos tiveram uma vida sem dificuldades, mas disciplinada e com um grande respeito pela História de França. Ainda hoje se emociona perante a beleza e a força de fé que se sente no Mont Saint Michel. E está preocupado em transmitir os seus valores e princípios aos cinco filhos – uma rapariga e quatro rapazes – por quem é capaz de deixar o gabinete mais cedo para ir dar um passeio educativo. Está casado há 27 anos com uma galesa, Pénélope Clarke.
OS NOMES MAIS SONANTES DA EQUIPA GOVERNAMENTAL ESCOLHIDA PELO PRESIDENTE NICOLAS SARKOZY
O presidente Nicolas Sarkozy nomeou oito homens e cinco mulheres para gerir os 15 ministérios, metade dos que existiam anteriormente. Cumpre assim a promessa de ter um executivo equilibrado entre homens e mulheres. Confirma-se também que é um executivo de consenso, que contemplou um socialista e um centrista. O ex-primeiro-ministro Alain Juppé regressa à vida política como todo-poderoso ‘superministro’. Rachida Dati, porta-voz da campanha de Sarkozy, é a primeira francesa pertencente a uma minoria étnica a ocupar um cargo ministerial (Justiça). A delicada pasta da Integração fica com Brice Hortefeux.
ALAIN JUPPE (Superministro)
‘Número 2’. Responsável pelo Ambiente, Energia, Transportes e Desenvolvimento Sustentável.
KOUCHNER (Chefe da diplomacia)
Fundador de Médicos sem Fronteiras. Foi ministro da Saúde. O PSF diz que já não é seu militante.
BORLOO (Ministro da Economia)
Ex-advogado era ministro do Trabalho. Combater o desemprego (8,3%) será uma das suas prioridades.
ALLIOT-MARIE (Ministra do Interior)
A mais experiente das mulheres do governo. Era titular da Defesa. É considerada discreta e eficiente.
RACHIDA DATI (Ministra da Justiça)
Estudou Direito e trabalhou para a ELF. Em 2002 foi trabalhar para Sarkozy, então ministro do Interior.
HORTEFEUX (Imigração e Integração)
É uma pasta que não existia que Sarkozy confiou ao seu amigo há mais de 30 anos.
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