Adulai faz relatos com uma imitação perfeita da voz do locutor Nuno Matos, um dos seus ídolos.
Príncipe Aladin é um jovem guineense, de 26 anos, cego desde a nascença, apaixonado pelo futebol e ouvinte assíduo da rádio portuguesa Antena 1 da qual memoriza os relatos que agora repete para os amigos e curiosos.
Abulai Seidi, nome verdadeiro, mostrou à Lusa o seu trabalho, que começou a aprimorar em 2008, mas que só exibiu ao público em 2012, fazendo relatos com uma imitação perfeita da voz do locutor Nuno Matos, um dos seus ídolos.
O jovem guineense, que gosta de ser chamado de príncipe Aladin, disse que se debateu muito com a própria consciência antes de apresentar ao público o seu talento, pelo facto de ser cego.
Aladin receava os comentários maldosos daqueles que ainda duvidavam de ser cego e saber quase tudo de futebol, sem nunca assistir às transmissões dos jogos pela televisão ou ao vivo.
"Depois de uma noite ciclópica de futebol no Signa Iduna Park, estádio do Borussia Dortmund, consegui captar os lances que marcaram a partida, em que o Lewandosky fez um póquer, disse para mim mesmo: 'atenção chegou a hora de mostrar quem é o verdadeiro príncipe Aladin'", contou o jovem guineense.
Com confiança no seu talento, Aladin, que até aí apenas relatava para si mesmo no seu quarto, decidiu narrar o jogo da liga alemã para os colegas e um dos presentes grava o relato imaginário, que coloca nas redes sociais.
De lá para cá, a fama de Aladin espalhou-se para além do círculo de amigos no Bairro Militar, em Bissau, além do seu grupo "Os Mecânicos", jovens que se dedicam ao conserto de motores de carros, mas também na arte da música e teatro.
Aladin tanto faz um relato imaginário de um jogo entre o Benfica e o Sporting, como entre o Futebol Clube do Porto e o Braga, lembrando a constituição das equipas e os árbitros, como de um jogo da liga inglesa com Ronaldo no centro das atenções, bem como uma partida da seleção portuguesa.
Admirador confesso de Cristiano Ronaldo, Aladin não se cansa de repetir nos seus relatos imaginários que o madeirense "é o maior embaixador de Portugal no mundo fora".
O jovem locutor guineense nunca esteve em Portugal, mas sabe de cor a localização do canal do desporto da rádio portuguesa Antena 1, local que gostaria de visitar, para conhecer os ídolos que lá trabalham, disse à Lusa.
Aladin é cego, mas sabe ler, através da técnica de braille e rejeita o conceito de tempo livre.
De segunda a sexta-feira, Aladin escreve as suas histórias que apresenta à noite numa rádio comunitária do seu bairro, à tarde, trabalha os relatos imaginários, aos fins de semana dá aulas numa escola islâmica para crianças.
Além da paixão pelo futebol, Aladin quer que as crianças do Bairro Militar conheçam Deus, "o verdadeiro detentor do poder".
No bairro, todos conhecem o talento de Aladin, mas de cada vez que se junta aos amigos para uma demonstração do relato imaginário, o lugar é rapidamente tomado por pessoas de todas as idades que não se cansam de lhe elogiar as capacidades.
Aladin ama futebol, mas no seu coração o Futebol Clube do Porto tem um lugar especial, daí que quando faz os relatos imaginários os golos dessa equipa são narrados com uma outra emoção que o próprio admite com rasgados sorrisos.
"Gosto do Porto pela sua mística no campo, a mística vencedora que está na cabeça dos jogadores. Uma equipa que não tem um futebol vistoso como o Benfica, mas que marca golos", afirmou Aladin.
O jovem guineense não tem dúvidas de que o Porto será campeão este ano, o que, disse, será motivo de prazer nos momentos do convívio com os amigos, na sua maioria benfiquistas, os quais irá brindar com os relatos imaginários.
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