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Correio da Manhã

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PROVA DE FOGO PARA BLAIR

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, vai hoje depor no inquérito à morte do cientista David Kelly. A sua presença perante o juiz Brian Hutton, que lidera a comissão, é aguardada com grande expectativa, não apenas por aquilo que irá dizer mas também pelo impacto que as suas declarações poderão ter na opinião pública britânica (e mundia). O líder trabalhista joga uma cartada decisiva na cada vez mais reduzida credibilidade do seu governo.
28 de Agosto de 2003 às 00:00
PROVA DE FOGO PARA BLAIR
PROVA DE FOGO PARA BLAIR FOTO: Gerry Penny
O depoimento de Blair deverá centrar-se no papel do governo na revelação da identidade de Kelly à Imprensa como o cientista que serviu de fonte ao jornalista Andrew Gilligan, da BBC, para escrever a notícia sobre os exageros contidos no relatório britânico sobre as armas de destruição em massa do Iraque. Relatório, recorde-se, usado pelo governo para justificar a necessidade de invadir o Iraque. Blair deverá ainda explicar qual o papel do seu director de comunicação, Alastair Campbell, em todo o processo que conduziu à identificação de Kelly.
Todo este processo deixou de rastos a popularidade do governo, razão pela qual o depoimento de Blair é aguardado com grande expectativa. Muitos analistas afirmam que já é tarde demais para Blair conseguir “salvar a face”, mas o primeiro-ministro acredita que ainda é possível convencer o público de que o executivo agiu da forma mais acertada.
Mas Blair está cada vez mais ‘cercado’ e as cabeças a ‘rolar’ já são ‘conhecidas’. O seu ministro da Defesa, Geoff Hoon, já assumiu ser o “cordeiro a sacrificar” para a sobrevivência do governo. Ontem, defendeu a sua actuação no processo perante lorde Hutton.
NÃO HOUVE "QUALQUER PLANO"
Num depoimento também amplamente aguardado, Hoon negou veementemente ter existido “qualquer plano ou conspiração” para tornar público o nome de David Kelly, afirmando que o anonimato do cientista foi protegido ao máximo pelo Ministério da Defesa.
“Não existiu qualquer esforço deliberado da minha parte, ou da parte do Ministério, para identificar o dr. Kelly”, assegurou o ministro, que admitiu, porém, que tinha conhecimento da prática usada pelos jornalistas para confirmar ou desmentir nomes, que consistia em “atirar” vários nomes para ar, os quais eram depois confirmados ou desmentidos pelos assessores do Ministério.
Hoon adiantou ainda que a sua principal preocupação, ao tomar conhecimento que Kelly falara à BBC, foi tomar medidas disciplinares para sancionar o cientista, fazendo dele “um exemplo” para combater as constantes “fugas de informação” por parte dos funcionários do Ministério. “O Ministério da Defesa tinha na altura a reputação de fugas de informação e contactos não autorizados com os jornalistas, e esta parecia ser uma boa ocasião para mostrar que, a partir de agora, os contactos não autorizados com a Imprensa seriam severamente punidos”, afirmou.
CAMPANHA DO EURO AFECTADA
A primeira grande vítima do inquérito à morte do cientista David Kelly foi a campanha britânica para a adesão ao Euro.
Neste momento, a popularidade do governo está tão por baixo, que Tony Blair não pretende arriscar lançar a campanha, o que poderá levar ao adiamento do prometido referendo sobre a adopção da moeda europeia pelo Reino Unido, prometido para o início do próximo ano. Este adiamento levou já à demissão do director da campanha, Simon Buckby, agastado com a indecisão governamental e o abandono de vários dos seus colaboradores. Os jornais são unânimes, porém, ao afirmar que, se Blair lançasse a campanha nesta altura, sairia certamente derrotado.
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